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Turista na sua cidade

Passeio completo

Raimundo Fagner fala de Fortaleza, aberta ao turista de todas as procedências, e traça um roteiro de atrações cearenses pouco conhecidas

Raimundo Fagner Crédito: Gentil Barreira

“Fortaleza não tem nem o caos nem a violência das outras grandes cidades, ninguém fala mal, todo mundo gosta e a hospitalidade é o grande cartão-postal.” Ao caracterizar o ambiente da capital cearense, o cantor, compositor e instrumentista Raimundo Fagner também adverte: “O cearense ainda tem a ingenuidade de trazer a pessoa para sua casa, e hoje é meio perigoso, tem até cartilha instruindo sobre o ‘gringo aventureiro’, que com pouca grana faz um estrago grande”.

A fluidez com que Fagner descreve sua cidade surpreende. Com visão abrangente e olhar atento, tece considerações sobre o patrimônio histórico, fala das praias e das comidas, das churrascarias que os gaúchos incorporaram ao ambiente local e do humor. Segundo ele, “um dos nossos produtos de exportação”. O Ceará moleque, nas palavras de Fagner, encontra-se fortemente representado. “Todo mundo conhece o nosso humor, representado no Brasil por Chico Anísio, Renato Aragão, Tom Cavalcante e Falcão, para não me estender nas citações.”

Nascido em Fortaleza em 1949, Fagner passou a alternar a moradia com o Rio de Janeiro a partir de 1971. Isso depois de passar esse ano como aluno da faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília. O curso foi abandonado, mas a estadia na capital federal rendeu-lhe o primeiro sucesso. Mucuripe, canção feita em parceria com Belchior, foi a vencedora do Festival de Música Popular do Centro de Estudos Universitários de Brasília e tornou-se um hit na gravação de Elis Regina em 1972. “Passei minha vida viajando, mas não me sinto como turista nem no Rio nem em Fortaleza. Indo e vindo, sinto a cidade mudando. O turismo e o crescimento trouxeram coisas que apreciamos; sentimos saudades também de outras que se foram”, comenta o cantor e acrescenta nostalgicamente: “Coisa mais linda é trem; minha infância foi andando de trem”.

Antes do boom de crescimento de Fortaleza (na área metropolitana, já passa dos 2 milhões de habitantes), as principais atividades sociais ocorriam nos tradicionais clubes, que ainda ocupam espaços importantes na vida da cidade. Fagner vai ao Ideal para jogar tênis, ao Náutico para comer e diz que o pôr-do-sol do Iate não tem igual na cidade.

O cantor só faz grandes shows na cidade a cada dois ou três anos. “Vou lá para curtir”, comenta, “mas faço muitas apresentações para grupos fechados, especialmente em congressos.” Fagner, que tem ouvido apurado, tem uma reclamação: “Tocam musica em qualquer lugar, não preciso comer com música, isso me incomoda”.

#I1# O epicentro é a Praça do Ferreira

O caçula dos cinco filhos do imigrante libanês José Fares e de dona Francisca, Raimundo Fagner Cândido Lopes, antes de conduzir este visitante por sua cidade, anunciou dramaticamente: “O epicentro é a Praça do Ferreira!”. Depois foi uma disparada de informações. Não que estivesse com pressa, mas tinha muita coisa para dizer e foi compondo um roteiro para Fortaleza. E além. Com destaque para os pontos de retomada do centro histórico da capital, animado pelo Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o Theatro José de Alencar, as atrações gastronômicas e, claro, as praias da capital cearense. Não contente com a quantidade de atrações, seguiu para a serra e para o interior.

“Do coração da cidade pode-se sair pela Tabosa, o corredor da confecção, até o Dragão do Mar, um centro cultural cercado por prédios históricos recuperados, mas tem de ver o Theatro José de Alencar ou, melhor ainda, assistir ali a alguma apresentação”, recomenda Fagner, que faz a ressalva: “O Passeio Público, uma praça tombada pelo Iphan, está meio abandonado”. E prossegue: “Praia de Iracema, muitos bares em toda parte, chegue também na Praia do Futuro, mas outro lugar de pôr de sol imperdível é a ponte metálica”.

No quesito sabores locais, o artista é pródigo em indicações. O melhor sorvete? “É do Juarez, com grande diversidade de sabores, mas o sapoti é a fruta mais nobre. Lugar de comer bem tem demais, e barato também; o mais tradicional é a peixada na beira-mar, pode ser no Alfredo, mas a Peixada do Meio é a referência; na região da Varjota tem uma legião de restaurantes. Para as comidas regionais tem o Colher de Pau; o Sirigado, apesar de ter várias filiais, é ótimo em mariscos e peixes; o Arre Égua, perto da Varjota, ainda fica próximo do Museu do Sertão; na Budega do Silva tem paneladas e buchadas; um lugar bem peculiar é a Tia América.”

Fagner não desconhece, nem renega, as mudanças na gastronomia da cidade. O advento das churrascarias surgiu na esteira da migração gaúcha movida pelos incentivos fiscais para a indústria de calçados. “Hoje já é uma tradição”, e cita as churrascarias do Parque do Recreio, a Dallas, a Santa Grelha, a Sal e Brasa. “Mas a da moda é a Boi Preto.”

A noite é boa para ouvir música leve nos bares, onde tem músicos de primeira qualidade, como Paulo Façanha, Davi Duarte, Chico Perroca, cita o cantor. “Mas o bar aonde levo as pessoas é o do Vaval, meio ruim, no bairro de Fátima. Lá sempre tem um violãozinho, é lá que eu me apresento.”

Saindo de Fortaleza, Orós, a cerca de 400 quilômetros da capital, é a segunda cidade de Fagner no Ceará e dá nome ao disco gravado em 1977 com arranjos e produção de Hermeto Paschoal. Apesar de ter nascido na capital, foi na cidade do centro-sul cearense que ele foi registrado. Fagner lembra que Orós possui açude e barragem famosos, mas que são pouco visitados. “Lá trazem peixe de água doce para trocar pelos de água salgada.” Nas cidades de Icó e Sobral, lembrou o cantor, tem teatros e casarões que estão sendo recuperados.

No maciço de Baturité, região serrana do estado, a novidade está associada à boa música. Na pequena Guaramiranga, “uma Suíça ainda de elite, por enquanto”, conta Fagner, acontece um festival de jazz em pleno período de Carnaval. Outras localidades serranas estão se destacando como locais de estada bem diferentes, como Pacoti, Meruosa, Viçosa. “E em Quixadá há um convento para se hospedar”, completa.

Das praias para o lado do Rio Grande do Norte, a leste na linguagem local, Fagner destaca Beberibe: “A minha”. E tem mais Morro Branco, das areias coloridas; Acaponga; Águas Belas; Aracati; a famosa Canoa Quebrada; e Fortim, “que é um barato, no encontro do Rio Jaguaribe com o mar”. Para o lado de Jeriquaquara, a oeste, tem Lagoinha e a Praia da Baleia, “que está abandonada”.

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