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Turista na sua cidade

Em cidade nova, todos são turistas

Um dos criadores da mais nova capital brasileira, o arquiteto Luiz Fernando Teixeira apresenta sua cidade e vislumbra o futuro de Palmas

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“Do que essa cidade vai viver?” Ao iniciar os trabalhos para o projeto que faria surgir do nada a capital do estado do Tocantins, o arquiteto e urbanista Luiz Fernando Teixeira foi confrontado com a questão. “Quando estávamos pesquisando para entender como se faz uma cidade e discutíamos com urbanistas europeus, a pergunta era repetida com insistência”, relata Teixeira ao lembrar dos momentos de criatividade e das decisões que resultaram no desenho da cidade de Palmas, a capital do estado criado por determinação da Constituição de 1988, a partir da divisão do estado de Goiás (parte norte e central). Hoje, além de assistir ao desenvolvimento do seu projeto, o arquiteto curte ver a cidade criar personalidade própria, fazer sua história e ainda se surpreende com seu dinamismo.

A resposta para a dúvida dos europeus o arquiteto começou a conhecer no dia 5 de maio de 1989, quando se preparava a cerimônia de inauguração da Pedra Fundamental de Palmas. Ainda de madrugada, um caminhão estacionou perto do local da festa e um homem se aproximou do grupo. Queria saber se era ali mesmo o lugar onde começaria uma cidade nova, pois estava chegando de Santa Catarina com a família no caminhão e carregando os equipamentos de uma padaria, que ele queria que fosse a primeira da cidade. O que de fato aconteceu. Era o sinal de que a cidade – então pouco mais do que desenhos nas pranchetas – ganharia vida e geraria recursos e atrativos para seus futuros cidadãos.

Poucas pessoas podem dizer que são turistas na sua cidade da mesma forma que alguém que a concebeu e desenhou. Teixeira até se surpreende com aspectos turísticos que a cidade desenvolveu, pois essa não era uma preocupação primordial no processo de criação, com tantas variáveis a serem consideradas. As primeiras foram a qualidade de vida de sua população, passando por aspectos ambientais, como a preservação dos fundos de vales, e chegando até os elementos simbólicos que uma nova capital deveria possuir.

A seleção de um local apropriado, com conceitos urbanísticos bem definidos, associado a um desenho marcante, fez com que os habitantes rapidamente passassem a ser orgulhar de Palmas. “Posso dizer que o primeiro turista da cidade foi o governador Siqueira Campos, que quando viu o desenho em perspectiva da cidade programada para 2010 ficou com voz embargada e lágrimas nos olhos. Essa foi a primeira ‘viagem’ a Palmas”, diz o urbanista.

O lago previsto para emoldurar Palmas foi o que mais emocionou o governador, que havia contratado Luiz Fernando Teixeira e Walfredo Antunes de Oliveira para a elaboração do projeto de criação da cidade. Os principais critérios para a localização da futura capital foram sua inserção entre a reserva natural da Serra do Lageado e a possibilidade de um dia, talvez em 2020, vir a ser banhada por uma grande represa, inserida no plano nacional de geração de energia. O lago já existe e sua orla é o centro de entretenimento da cidade, que muitas vezes registra as mais altas temperaturas no país.

Mais de 150 mil pessoas vivem na capital do Tocantins, inaugurada oficialmente em 10 de janeiro de 1990, jovens na maioria, que vieram buscar uma oportunidade para suas vidas. Teixeira testemunhou em família o processo de ocupação da capital recém-criada: levou seu filho para visitar as obras, que quando viu as oportunidades oferecidas ficou por lá, onde se tornou empresário.

A juventude palmense freqüenta as três universidades locais, trabalha com garra e procura muita diversão na cidade e na região. Teixeira destaca a mudança do eixo de lazer que os 8 quilômetros de orla proporcionaram a Palmas, mas aponta também para a Serra do Lageado, onde a temperatura é mais amena e há passeios maravilhosos.

Quem viu a cidade saindo do papel adverte para a necessidade da programação do desenvolvimento regional, que depende muito da postura dos políticos e da continuidade das ações governamentais. “O grande potencial está na logística tanto econômica como turística, com abrangência nacional”, afirma Teixeira. E acrescenta: “Palmas está no centro do país, na região da Amazônia Legal, a 1,5 mil quilômetros tanto de Manaus como de São Paulo, no eixo da expansão do agronegócio, que está amadurecendo para as questões ambientais. Portanto poderá ser também o centro de desenvolvimento de turismo regional, base de partida para o Jalapão, o Araguaia e outros destinos de pescarias e mergulhos”.

O que explica bem a dinâmica de Tocantins e de sua capital é o processo de criação do estado, já sob inspiração de parcerias público-privadas. Muitos empresários se dispuseram a investir na região, inclusive na construção da hidrelétrica, que acabou por antecipar, em décadas, a formação do lago, que mudou muito – e para melhor – a vida da cidade e de seus habitantes.

Para Teixeira, Palmas ocupou excepcionalmente um vácuo espacial no território nacional, tornando-se um típico centro regional brasileiro, onde se concentram cada vez mais os serviços de saúde e educação, que atraem a população de maior poder aquisitivo. Segundo ele, “é o local da segunda casa do pessoal do interior, para onde vão os filhos mais velhos, como acontece em cidades como Goiânia e Ribeirão Preto, entre outras”.

Alguns amigos de Teixeira brincam dizendo que ele não conhece uma cidade “normal”, pois nasceu e mora em Goiânia, estudou arquitetura em Brasília e concebeu Palmas. Mas de seu escritório, visualizando toda a cidade de Goiânia, ele contesta, dizendo que morou seis anos em Londres e ficou um bom tempo no Rio de Janeiro. Teixeira gosta mesmo é de discutir e defender a necessidade de diretrizes para o crescimento das cidades: “Goiânia foi bem desenhada, mas adequada a uma pequena dimensão, e acabou se transformando em uma cidade tradicional e desordenada; já Palmas tem tudo para se desenvolver com harmonia, se for bem acompanhada pelos órgãos locais de planejamento urbano”.

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