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Turista na sua cidade

Distância não é problema

O jornalista Paulo Markun elegeu Florianópolis como endereço residencial. Tudo para não perder o belo pôr-do-sol e os encantos de uma ilha com sotaque musical

Paisagem de uma ilha tranqüila: o jornalista vive a rotina da capital catarinense desde 1998 Crédito: Guilherme Ribenboin

Há oito anos, o jornalista, escritor e documentarista Paulo Markun embarca toda segunda-feira pela manhã no aeroporto de Florianópolis rumo a São Paulo. O trajeto aéreo entre casa e trabalho foi incorporado à rotina do coordenador e apresentador do Roda Viva, o tradicional programa de entrevistas produzido pela TV Cultura de São Paulo e transmitido nas noites de segunda para todo o Brasil. Será que o equilíbrio na condução dos acalorados debates deve-se ao fato de residir numa ilha tranqüila, uma capital de estado com menos de 400 mil habitantes?

Gabriel García Marques, Prêmio Nobel de literatura, disse uma vez que desejaria trabalhar de dia numa ilha deserta e à noite estar em uma grande metrópole. Guardadas as devidas proporções, é o inverso do que planejou e vem fazendo Markun, que vindo trabalhar na metrópole, tenta voltar o mais rápido possível para sua ilha, não tão deserta. “Durante muitos anos o retorno era obrigatório na terça, depois passou para quarta e às vezes já acontece na quinta, mas todos sabem que é lá que moro, e quero sempre apreciar da minha casa um dos mais belos finais de tarde da ilha”, afirma, com convicção, o jornalista.

A razão do prolongamento das estadas de Paulo Markun na capital paulista é um novo projeto, já em curso. Trata-se da edição do site Jornal de Debates, resgate criado na internet de um jornal que existiu em 1946 e celebrou a redemocratização do Brasil, abrindo espaço para todas as manifestações de pensamento. Apesar de virtual, neste período de implantação o jornal on-line exige maior presença física de seu criador em São Paulo.

Voltando a Florianópolis, a capital seria mesmo a versão do paraíso na Terra, acrescida dos benefícios e serviços da cidade grande? Pelo jeito, ainda não. O potencial de desenvolvimento da ilha ainda não se realizou, a forte sazonalidade turística no verão, quando a água do mar é quente, desequilibra o consumo e a oferta de serviços ainda é precária. “O trânsito se complica, e o automóvel ainda é fundamental na ilha, as filas ficam enormes nos supermercados e padarias, os bares e restaurantes lotados, e já começaram a proliferar os shopping centers; é a repetição de modelos urbanos já conhecidos”, conclui Markun.

“Março é o melhor mês do ano, é verão sem veranista e a água ainda está agradável”, diz o jornalista, que enxerga a partir de sua vivência um grande potencial turístico para a ilha, se for bem planejado: “Falta promoção de inverno, com passeios diferentes, uso de lareira e ofertas de comidas especiais”. Markun cita como exemplo a organização que se fez em torno da Praia do Rosa, cerca de 70 quilômetros ao sul de Florianópolis, onde a ocupação hoteleira e os serviços complementares ocorrem praticamente o ano todo. “Na ilha, o resort Costão do Santinho já trabalha na direção de diversificar as atividades”, comenta.

Ao relatar sua experiência, Markun destaca que a mudança de cidade e de modo de vida não é fácil. A receptividade aos turistas, de quem muitos dependem, é ótima, porém quando os “estrangeiros”, resolvem se estabelecer na ilha, “percebem que Floripa, apesar de capital, é provinciana, é uma cidade de funcionários públicos, que segrega as pessoas de fora”. Uma outra curiosidade sobre a população local é que “habitantes que moram no centro, tem uma casa de praia, que pode ficar a poucos quilômetros dali, e se mudam para lá no verão, já os estrangeiros moram numa casa só”.

A ilha de Santa Catarina teve sua ocupação determinada pela topografia e se compõe de muitos e pequenos núcleos urbanos. A família Markun vive no povoado, com dois mil habitantes, de Santo Antonio de Lisboa, uma antiga vila de pescadores originária da colonização açoreana e localizada a 18 quilômetros do centro. A mudança da família foi gradual e começou em 1998, um ano sabático com a companheira Tatiana, quando fizeram um teste de residência, e de resistência, na ilha. “Ficou a semente, a sensação de que o lugar era este e que devíamos nos estruturar melhor”, conta Markun. Foi o que aconteceu no mesmo ano, já com três filhos na bagagem. Com a mudança definitiva, a casa de praia foi gradativamente se transformando em moradia permanente.


Paulo Markun Crédito: Arquivo pessoal



Atração local: esquibunda nas dunas da Joaquina sempre faz sucesso Crédito: Arquivo pessoal



Pescaria na lagoa da Conceição Crédito: Guilherme Ribenboin


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