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Turista na sua cidade

A cidade vista do Rio

O escritor Milton Hatoum recorda a Manaus cosmopolita, que chegou a ter 22 consulados estrangeiros, e oferece dicas de pontos turísticos

Milton Hatoum: no próximo romance, o protagonista trilha por Manaus e pelo mundo

Milton Hatoum mora em São Paulo mas paira livre e solto pela capital amazonense. Apelidado de Manaus nos tempos em que era estudante de arquitetura, seus romances falam do passado cosmopolita de sua cidade natal. Milton tem uma visão clara e crítica da situação atual de Manaus, embora vislumbre uma reconciliação possível entre a cidade e a natureza com a recuperação das sombras das árvores e a despoluição dos igarapés.

Para Hatoum, agir como turista em sua própria cidade acaba sendo motivo de inspiração profissional: “Eu também sou meio turista em Manaus. Quando vou ao mercado Adolpho Lisboa, por exemplo, fico perguntando pras pessoas: De onde vem esse artesanato? Desde quando está aí? E uma senhora fala: ‘Ah, é um homem, um velho artesão que entrega. Ele faz isso há muito tempo’. Aí eu quero conhecer o artesão, e vou na casa dele. Foi assim que conheci alguns bairros da cidade. Conheci perguntando. Perguntando, por exemplo, pelo Morro da Catita, um bairro antigo que está totalmente mudado hoje. O Morro da Catita ficava no meio de um castanhal. Castanheiras lindas. Mas elas foram destruídas! E no fundo do vale perto desse bairro tinha um igarapé. Por causa disso comecei a construir uma parte do meu próximo romance” (leia texto na página 64).

Entre os vários ângulos de observação, o que mais impressiona até hoje o manaura Milton Hatoum é “a cidade vista do Rio Negro”. “O rio é poderoso demais, é uma visão muito interessante, você ver a cidade da água. É a visão que todo mundo tinha antes do avião. Os imigrantes chegavam de navio. Até hoje, a relação de Manaus com o exterior é fundamental: o comércio, a farinha, o trânsito de pessoas ou, como disse Euclides da Cunha, ‘o rio é estrada pra toda vida!’.”

Que “pontos turísticos” você recomenda em Manaus? O primeiro que Milton destaca é o encontro das águas dos rios Amazonas e Negro. E o famoso desenho das ondas das calçadas de Copacabana, compostas em mosaico português branco e preto, criado originalmente para o entorno do Teatro Amazonas, simbolizando o encontro bicolor das águas desses dois rios gigantescos. Essa é uma imagem artística que foi de Manaus para o mundo, sem render royalties.

Ciclos econômicos e suas respectivas migrações internas e externas marcaram a paisagem de Manaus. O primeiro e mais significativo, o Ciclo da Borracha, gerou um projeto urbanístico com praças, bondes, telefone e energia elétrica. No final do século XIX, só Manaus tinha termos de comparação com o Rio de Janeiro, a capital do país. Havia em Manaus, em 1890, 22 consulados estrangeiros. O Teatro Amazonas e suas atividades são símbolos daquele período de opulência. “Era uma cidade inteligente, que tentava harmonizar o urbano com a natureza, que fazia parte da cidade.”

O último ciclo, o Ciclo da Zona Franca, marcou a descaracterização da antiga malha urbana e a abertura indiscriminada de avenidas asfaltadas, sem consideração com os pedestres, com o microclima e com a infra-estrutura sanitária. O prefeito nomeado da cidade nesse período, o Coronel Jorge Teixeira, alterou profundamente a memória do jovem futuro escritor descendente de libaneses: “Ele quis transformar o Teatro Amazonas em shopping center ou em estacionamento. Ele achava que aquilo podia ser destruído. Eu guardei uma tira amarelada de uma matéria do jornal O Estado de S. Paulo dizendo que ele destruiu algumas praças do centro de Manaus porque não tinha nenhum apego a velharias. Quando eu passava férias em Manaus, percebia que a cidade estava sendo rapidamente destruída”.

Milton acredita que, na Manaus de hoje, a da Zona Franca, há uma discrepância enorme entre o poder econômico e a qualidade dos serviços. São 300 indústrias, aproximadamente. O maior parque eletroeletrônico da América Latina. E com uma classe média significativa. No entanto, Manaus carece de bons serviços e de um projeto de arquitetura regional. “A elite amazonense precisa investir na qualidade e diversidade. Chegam milhares de pessoas pra conhecer Manaus e a cidade simplesmente lhes dá as costas. Oferece shopping center, apresentações folclóricas improvisadas e recomenda passeios na floresta. É muito pouco.”

Todos podem colaborar para uma mudança de mentalidade e valorização da cidade, tanto para os moradores quanto para os turistas. Milton exemplifica: “Uma professora de literatura, que também dava aula em um curso de turismo, adotou meu segundo romance, Dois Irmãos. Para ela, aspirantes a guia turístico, empresários e donos de agências têm de conhecer a cidade. Como é que eles vão falar da cidade, mostrá-la, sem conhecê-la? Essa professora acredita que meus livros podem ajudar nisso. Achei interessante a idéia dela”.

Durante uma aula, o também professor Milton Hatoum percebeu que os jovens leitores não conheciam os lugares descritos em seus livros. Achavam que era ficção pura. A surpresa foi enorme quando Hatoum percebeu que locais que ele considerava “óbvios” não haviam ainda despertado a curiosidade dos jovens manauaras. “É possível um guia turístico não ser curioso em relação a sua própria cidade?”

Durante nossa conversa Milton viajou no tempo, e outros lugares de destaque de Manaus apareceram. Mas são “destinos pouco ortodoxos”. “Há roteiros básicos, que podem ser percorridos a pé, passando por praças e construções representativas (Alfândega, Palácio da Justiça, Palácio Rio Negro, Praça Heliodoro Balbi, Praça Dom Pedro II etc.). Mas, quando vejo um turista, digo: ‘Olha, pega uma canoa, um barqueiro, e vai conhecer os Igarapés, pra ver Manaus a partir do rio’. Esse passeio ainda poderá ser completado com uma refeição de peixe e um banho refrescante.”

E como está o centro de Manaus? “No centro de Manaus há lugares interessantes. Tem a Manaus antiga, do fim da Rua Sete de Setembro até a Ilha de São Vicente. Tem gente que é de lá e não sabe que existe uma ilha. É uma ilha com uma base naval. Esse quarteirão do bairro, que é muito antigo, ficou de costas para a Zona Franca. Como esqueceram dele, ficou conservado. Muitas casas foram restauradas. Você encontra um igarapé interessante. Nesse passeio você não percebe que houve uma agressão urbana.”

Para Milton, Manaus precisa de mais restaurantes de peixada, com projetos de arquitetura regional (como são os projetos de Severiano Porto, inspirados numa oca indígena), com paisagens generosas e árvores sombreiras. Nada melhor que “um tambaqui na brasa ou um pirarucu com a farinha do ariri, pimenta, tomate picadinho no fundo, pedaços de cebola e farinha granulada amarelada, aquela que a gente não pode mastigar, e sim absorver”.

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