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Turismo sustentável

Milagres do charme

Litoral norte de Alagoas se transforma em reduto de pousadas que primam pela sofisticação e pela qualidade dos serviços em busca do turismo sustentável

A paisagem do cenário na Pousada do Toque

Os amplos apartamentos têm decoração requintada, obras de arte, banheira de ofurô, DVD e CD player, hidromassagem e uma piscina particular que garante total privacidade ao lado da varanda com rede, tendo à frente o mar de águas calmas, mornas e cristalinas de Alagoas – um balneário pontilhado por recifes costeiros que formam paradisíacos aquários naturais. O lugar é como uma ilha de bom gosto e sofisticação, ornada por extensos coqueirais, um refúgio para quem busca aconchego em praia tranqüila e bem preservada, sem se render à badalação de grandes resorts. A gastronomia é criativa e impecável – e o atendimento, personalizado, mas com um toque de informalidade, como se vê no habitual sorriso dos empregados e na atenção sempre presente dos proprietários. O diferencial da Pousada do Toque, a primeira com esse perfil de qualidade construída em São Miguel dos Milagres, litoral norte de Alagoas, seria o mesmo de muitos outros empreendimentos hoteleiros que seguem igual padrão de serviços Brasil afora, não fosse uma característica peculiar: o papel de contribuir, como pioneira, para transformar aquele pedaço do litoral alagoano em um pólo de pousadas de charme, atraindo novos projetos que apostam no desenvolvimento de um turismo com bases sustentáveis na região.

“Além da gastronomia e do conforto, o principal segredo é o calor humano, ou seja, fazer os hóspedes se sentirem em suas próprias casas, com muita pompa”, revela o alagoano Nilo Burgarelli, 42 anos, proprietário da Pousada do Toque. “Desejamos intensamente atrair um tipo especial de hóspede para uma região que ainda engatinhava no turismo, trabalhamos nesse sentido e tivemos sucesso”, comemora. Tudo começou quando Nilo e sua mulher, Gilda Peixoto, donos de um renomado restaurante francês em Maceió (AL), o Gstaad, decidiram mudar de ramo – ou melhor, adaptar a arte da culinária e a experiência do atendimento a clientes de classe alta para o negócio da hospedagem à beira-mar. Em 1999, quando a especulação imobiliária não havia chegado com força total a São Miguel dos Milagres, Nilo comprou o terreno e começou construindo seis suítes, nas quais investiu R$ 140 mil, incluindo a cozinha, o restaurante e a infra-estrutura mínima para iniciar a pousada. Hoje, cinco anos depois, são 12 apartamentos, e outros começarão a ser erguidos nos próximos meses, ocupando a área da propriedade vizinha, recém-adquirida pelo empresário.

“Todo o lucro é reinvestido em conforto e sofisticação”, afirma Nilo, satisfeito com a taxa média de ocupação, superior a 80% no ano. Atrativos não faltam, como as piscinas naturais cheias de corais e peixes coloridos na praia em frente, bem como passeios pelo estuário do Rio Tatuamunha, freqüentado por peixes-boi marinhos. Mas os requintes da gastronomia, como os imperdíveis e fresquíssimos frutos do mar grelhados com frutas, além de outras opções que dão um toque francês às iguarias regionais, têm sido o carro-chefe do negócio. São diferenciais que, em 2004, colocaram a pousada na Associação de Hotéis Roteiros de Charme – disputado clube que reúne a elite dos pequenos empreendimentos hoteleiros voltados para o turismo de qualidade, seguindo vários critérios para garantir a preservação ambiental e melhorar a vida nas localidades onde estão instalados.

A experiência da Pousada do Toque de investir no bom gosto teve efeito multiplicador. Diante dos bons resultados, pequenos detalhes charmosos são grandes o suficiente para ditar regras e estilo na região. No rastro deles, surgiram na vizinhança a Pousada do Caju, a Amendoeiras, a Cotesude, a Costa das Pedras e várias outras que se especializaram em serviços de alto padrão. “A partir deste ano vamos mobilizar os novos vizinhos para unir forças, com o objetivo de gerar benefícios sociais para a população”, revela Nilo, que já comprou um terreno para montar o Centro Multicultural do Toque, com biblioteca, creche e oficinas de artesanato e culinária.

Espera-se que o turismo abra novos rumos para o litoral norte de Alagoas, região historicamente ligada à cultura açucareira, onde os habitantes, sem alternativas para aumentar a renda, convivem com os velhos problemas de educação, saúde e saneamento. “É preciso tornar o turista um protagonista, e não um mero espectador do lugar”, destaca Danielle Novis, do Sebrae, instituição que trabalha na articulação entre governo estadual, prefeituras, fontes de investimento, empreendedores e entidades sociais para desenvolver na região um modelo de turismo sustentável.

Incentivar novos negócios duradouros para gerar renda e promover a inclusão social, preservando o meio ambiente e as culturas locais, é o maior desafio. Para isso, a estratégia tem sido formar uma cadeia produtiva envolvendo atividades de vários setores, tendo o turismo como fio condutor. Nessa tarefa, o Sebrae realizou um amplo diagnóstico turístico do litoral norte alagoano, apontou entraves, identificou e mapeou os atrativos e elaborou em conjunto com todos os setores um plano de trabalho com metas para 2007. Definiu, também, ações para melhoria da infra-estrutura básica, como saneamento, estradas e sinalização turística. “É importante agregar valor aos atrativos e serviços turísticos e também aumentar a taxa de permanência dos visitantes”, aponta Danielle. Cursos de capacitação gerencial e técnica, que vão do planejamento hoteleiro ao treinamento de barman e camareiras, e um plano de marketing para comercialização e divulgação completam os esforços para transformar o turismo em motor de desenvolvimento para os oito municípios da região.

“Em alguns deles identificamos a vocação como destino de charme”, atesta Danielle. Atraído por esse potencial, o empresário português Joaquim José Gonçalves dos Santos, 42 anos, decidiu cruzar o Atlântico e iniciar uma vida nova, investindo pesado para construir a Aldeia Beijupirá, pousada que abriu as portas em julho do ano passado, na Praia do Laje, também em São Miguel dos Milagres. O padrão do serviço é classe A, com uma marca registrada: o nome, a filosofia de atendimento, a culinária e o estilo da decoração foram inspirados no restaurante de sucesso que sua esposa, a pernambucana Adriana Didier, dirige na praia de Porto de Galinhas (PE) – o Beijupirá. São nove bangalôs de frente para o mar, três deles com piscinas particulares. Otimista com o futuro do lugar, Joaquim faz novos investimentos. Neste ano, está construindo na pousada um restaurante climatizado com adega, especializado em culinária portuguesa, e uma estrutura de lazer com biblioteca, salas de ginástica e sauna. “Queremos criar diferenciais e aumentar as opções de lazer dentro da pousada”, ressalta o proprietário. Sua estratégia é investir na qualidade para atrair turistas estrangeiros. Mas há barreiras: “É muito importante que os municípios locais aprovem planos diretores para regulamentar a ocupação urbana, evitando problemas como lixo e esgoto”.

Conta a lenda que um pescador, doente à beira da morte, conseguiu se safar ao encontrar na praia uma imagem de São Miguel, provavelmente perdida por algum náufrago, no século 17, no período da ocupação holandesa, quando aquela região servia de retaguarda às tropas portuguesas. Depois disso, o povoado ganhou o nome de São Miguel dos Milagres. Milagres podem acontecer, mas será difícil para o turismo conseguir resultados que melhorem a vida de todos se o poder público ficar de braços cruzados.

Pelo que tudo indica, não será necessário apelar para Deus. Na opinião de Joaquim, os novos prefeitos que assumiram o cargo neste ano estão abertos ao diálogo. “A limpeza das praias, por exemplo, é questão de vida ou morte para nosso negócio”, arremata o alagoano Leopoldo Amaral, 42 anos, um biólogo que atuava como guia de turismo de operadoras brasileiras no exterior e que aproveitou uma temporada de crise no setor, devido à variação cambial, para mudar de vida. Transformou o sítio da família, herdado por ele após a morte da mãe, na Pousada do Alto. Situada no topo de uma montanha com deslumbrante vista para a Praia de Japaratinga, município vizinho a São Miguel dos Milagres, a pousada reúne um riquíssimo acervo de obras de arte, móveis de época e peças de design. Além de telas de João Câmara e de obras do ceramista Francisco Brennand, o destaque é A Guardiã, do artista plástico Abelardo da Hora, escultura feminina superior a 1 tonelada que ornamenta o jardim da pousada.

“Não pensava em charme, mas em construir algo de ótimo nível, e a aceitação acabou sendo muito grande”, conta Leopoldo. Com os dividendos do sucesso, o proprietário investe em novidades: um sítio ecológico com árvores frutíferas, hortaliças e animais e uma estrutura especial para criação de javalis. Isso mesmo, javalis, cujas matrizes foram criadas nas fazendas da família no sertão alagoano e que agora vão se reproduzir à beira-mar para abastecer a cozinha da pousada. Degustar a exótica carne assada na brasa com ervas, em mesa estilo Luís 15, em ambiente decorado com jarros orientais e espelhos art nouveau, visualizando o horizonte caindo sobre o mar esverdeado, é uma opção que até bem pouco tempo atrás ninguém imaginava poder existir ali por perto.

Que venham os javalis. A gastronomia acabou se tornando o combustível dessa ação em cadeia que está transformando aquele pedaço de praias alagoanas, antes ocupado por fazendas de coqueiros, em refúgio para pousadas de charme. Não foi diferente com a carioca Marianei Silveira Cardoso, 45 anos, a Mara, e seu marido, Paulo César, que há três anos aportaram em Alagoas fugindo da violência no Rio de Janeiro, onde tinham um mercado de hortifrutigranjeiros. No começo, o casal montou um pequeno restaurante nos fundos da igreja do povoado de Riacho Doce, situado no município de Maraú (AL). O Sacristia Bar, como foi batizado, era especializado em frutos do mar.

Não demorou, surgiu para eles a grande chance: assumir o comando de uma pousada inaugurada pelos donos de um tradicional restaurante de Maceió, o Divina Gula, que não se adaptaram ao novo ramo. Assim, a dupla carioca, hoje proprietária da Estalagem Caiuia, em Japaratinga, não quer outra vida. “O negócio é lucrativo e, além disso, moramos praticamente dentro d’água”, festeja Mara. No terreno de 200 metros lineares com frente para o mar, há somente seis apartamentos, todos temáticos – o marinheiro, o oriental, o romântico, o exótico, o pescador e o rústico. Como o “show” da culinária é atração forte por aquelas bandas, as mesas para refeições ficam dentro da cozinha da pousada – ou seja, os hóspedes almoçam e jantam olhando o fogão e tudo o que acontece sobre ele.

Quem pensa em tentar a mesma sorte de Mara e Paulo precisa chegar logo. Com a multiplicação de pousadas de charme na região, a especulação imobiliária duplicou de R$ 2 mil para R$ 4 mil o preço do metro linear de frente para a praia. Detalhe curioso: a área frontal ao oceano é tão mais importante que não importa o tamanho de fundo para determinar o preço do terreno – o valor é o mesmo para o terreno com 100 ou mil metros de fundo, por exemplo. Nativos que têm um pedacinho de terra colado ao mar o seguram como podem, esperando preços ainda melhores. Alguns deles nem pensam em vender. Preferem continuar ali e fluir na onda do turismo de qualidade. Assim aconteceu com o alagoano Ivonaldo Pereira dos Santos, o Nego, 31 anos, que largou o posto de gerente de alimentos em um hotel local para ter o próprio restaurante. “Não podemos parar no tempo, mas sempre inovar”, afirma Nego, animado com a chegada de novos empreendimentos de requinte à região. Ele e seus oito garçons fizeram cursos de aperfeiçoamento em higiene alimentar e atendimento. É preciso manter o ritmo. “No último verão tivemos a melhor temporada de todos os tempos”, comemora. E isso, que nos perdoem os devotos de São Miguel, não é milagre. É, sim, resultado dos elos que vão se juntando para dar esperanças de um novo futuro para o litoral de Alagoas.


Lazer e natureza, além de ambientes bem cuidados, fazem parte dos investimentos no litoral norte de Alagoas. Varanda da Pousada do Toque


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