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Turismo Sustentável

Lençóis Maranhenses um projeto para o futuro

Superando dificuldades e buscando inclusão social, a atividade turística em um dos mais belos ecossistemas brasileiros encontra o seu rumo

No final da década de 1990 o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses entrou pra valer no cenário turístico nacional. A incrível seqüência de dunas do local, que se parecem com enormes lençóis brancos, separadas por lagoas de águas claras, virou notícia, passou a ocupar páginas de revistas e espaço na televisão, e a pacata cidade de Barreirinhas, localizada próxima ao parque e principal porta de entrada das dunas, deixou de ser apenas mais uma cidadezinha do interior do Maranhão.

No início desse processo de desenvolvimento turístico, o perfil do visitante contrastava entre a elite, que chegava em aviões particulares ou fretados, e os jovens aventureiros, que encaravam cerca de dez horas de ônibus por estradas em péssimas condições para vencer os cerca de 300 quilômetros entre São Luís e Barreirinhas. Não havia meio-termo, e o turista comum passava longe dos Lençóis.

De lá pra cá o turismo vem se estruturando, e o asfaltamento da estrada para São Luís foi um marco definitivo de inclusão dos Lençóis Maranhenses no circuito turístico do Nordeste, o que possibilitou o recebimento de turistas com os mais diferentes perfis. A estrada trouxe também um melhor abastecimento e diminuiu as distâncias culturais com a capital, elevando o nível de informação dos habitantes locais. Hoje a cidade conta com uma infra-estrutura privada em franca expansão, e trabalha para resolver alguns entraves e fazer do lugar um destino turístico mais competitivo.

A partir de Barreirinhas, para chegar às dunas e lagoas do parque nacional leva-se pelo menos 40 minutos em caminhos de areia fofa, acessível apenas para carros com tração nas quatro rodas. O trajeto é visualmente agradável, entre incontáveis cajueiros, cujo odor perfuma a viagem. Durante os meses de safra há tantos cajus que não é preciso nem parar o carro para apanhá-los. Basta um pouco de ousadia para esticar o braço e colher a fruta no pé. Porém, o balanço do carro no caminho esburacado é um pouco cansativo. É preciso se segurar no assento da jardineira durante toda a viagem, o que garante a alguns turistas certa dor no corpo. É bom lembrar que visitar várias vezes as dunas do parque acaba sendo extenuante para quem vai aos Lençóis Maranhenses à procura de descanso.

Está justamente nesse ponto um dos principais desafios dos operadores de turismo: manter o turista mais tempo no local sem ter de submetê-lo a repetidas visitas ao parque. “A iniciativa privada tem feito a sua parte”, afirma Liviomar Macatrão, diretor da operadora Portal do Maranhão, que vem diversificando seus roteiros com passeios de caráter cultural e opções para os mais aventureiros. As novidades procuram envolver a carente população local, seja na visita a uma casa de farinha, seja na travessia a pé dos “lençóis”, em que a hospedagem e as refeições são feitas nas palhoças dos moradores de Baixa Grande e Queimada dos Britos, dois oásis em meio às dunas.

Ponto contra esse desafio é o fato de Barreirinhas não oferecer muito que fazer. A cidade é deficitária em pontos de interesse turístico, embora esteja nas margens de um belo rio, e é pobre em opções para alimentação, embora o Maranhão tenha uma culinária riquíssima. Sua “orla”, de frente para o Rio Preguiças, poderia ajudar a resolver essas duas deficiências com um projeto urbanístico e melhores opções gastronômicas, em que o turista pudesse passar a tarde num local agradável, olhando o vai-e-vem dos barcos, petiscando e jogando conversa fora, entre um mergulho e outro nas águas calmas do Preguiças. A queixa do empresariado local recai sobre o poder público, que não tem colaborado e investido o necessário na parcela de infra-estrutura que lhe cabe, para um melhor desenvolvimento do município e da cadeia turística dos Lençóis Maranhenses.

A ordem é oferecer diferentes opções, seja envolvendo as belezas naturais, culturais, aventura ou simplesmente descanso. A recente construção do simpático Porto Preguiças Resort, projetado nos moldes de uma vila de pescadores, veio para colaborar nesse sentido. Tornou-se mais uma opção de lazer, da qual o turista pode desfrutar entre uma visita e outra ao parque. Mas não pense que essa é apenas uma opção elitista – quem não fica hospedado no hotel também pode se valer dessa nova opção. Pagando um day-use pode-se passar um dia descansando na piscina do resort, de frente para o rio, ocupando assim os tradicionais dias livres dos pacotes turísticos.

O crescimento da demanda turística vem dando aos moradores de Barreirinhas novas oportunidades de negócios. Aos poucos comércios abrem as portas, agências de turismo se estabelecem e prestadores de serviços dos mais variados tipos aparecem, de motoristas e barqueiros a estabelecimentos até pouco tempo atrás impensados, como um local onde é possível descarregar cartões de memória das câmeras fotográficas digitais e gravá-las em CD.

Sobrevoar o parque deixou de ser apenas uma atração para quem viaja a São Luís pelo ar. Os pequenos aviões que levam e trazem turistas da capital passaram a ser usados também em vôos panorâmicos. Por meia hora e a preços coerentes, o turista tem uma visão diferente de todos os pontos turísticos. Do alto as dunas ficam pequenas, o caminho até o mar parece curto, dá para ver claramente as curvas do Rio Preguiças até a sua foz, o oásis de Baixa Grande, o farol, os vilarejos e uma série de outras belezas que deixam qualquer um encantado.

Percebe-se que o dinheiro começa a circular pela cidade. Os cidadãos locais vêm melhorando sua qualidade de vida com poder de compra mais elevado. Um dos setores que melhor está aproveitando os benefícios do turismo é o do artesanato. Bolsas, chapéus e toalhas de mesa trançados com a fibra do buriti (uma espécie de palmeira abundante na região) estão se transformando nos souvenirs mais procurados dos Lençóis Maranhenses. Artesãs de 12 comunidades de Barreirinhas e região comemoram o sucesso e produzem cada vez mais para atender a demanda (ver boxe).

O passeio de barco descendo o rio até o vilarejo de Caburé, com direito a visita à Área de Proteção Ambiental dos Pequenos Lençóis e ao farol de Mandacaru, já faz parte dos
pacotes aos “lençóis” há um bom tempo e ajuda a distribuir os frutos do turismo em outros vilarejos.

Há pouco mais de um ano o Sebrae estabeleceu um escritório na cidade, com o objetivo de auxiliar a população a abrir e gerenciar negócios, fomentar o artesanato e fortalecer a atividade turística. A capacitação de mão-de-obra é o ponto principal do trabalho relacionado ao turismo, uma vez que as empresas atuantes em Barreirinhas têm como maior queixa a falta de trabalhadores capacitados. “Queremos fazer do nativo o maior fornecedor de mão-de-obra e evitar que os estabelecimentos precisem importar gente para trabalhar”, defende Rosana Célia Costa Muniz, do Sebrae de Barreirinhas. As ações da instituição procuram formar cidadãos locais para trabalhar em restaurantes, hotéis e agências de turismo, bem como deixá-los aptos a montar seus próprios negócios. Rosana fala animada de uma parceria com o Senac para o próximo ano, quando começará o ensino de idiomas aos trabalhadores locais. “Queremos qualificar o trabalhador, valorizá-lo para evitar exploração”, completa.

Mas as iniciativas para a capacitação de mão-de-obra já vêm acontecendo há mais tempo. No primeiro curso, ministrado em 1999, 30 pessoas foram formadas, e 25 delas trabalham até hoje com o turismo, como piloto de lancha, motorista, guia de turismo, entre outros. Jony Gomes da Silva, de 30 anos, é um deles. Agarrou pra valer uma das últimas vagas do curso e hoje, sempre com sorriso no rosto, orgulha-se de seu trabalho de guia turístico, com emprego fixo em uma agência local. Jony reclama da falta de diálogo entre as agências, que marcam os mesmos passeios nos mesmos dias, lotando alguns lugares enquanto outros ficam vazios: “O turista não vem aqui para nadar numa lagoa lotada”, argumenta.

Entre um detalhe e outro a ser resolvido, o turismo nos Lençóis Maranhenses vai encontrando o seu rumo, vai crescendo gradativamente e superando desafios um a um. Não quer se transformar num destino para o turismo de massa, pois essa não é sua vocação, mas quer se tornar capaz de atender o turista com mais qualidade. Projeta um futuro próspero e duradouro, com a inclusão social e a manutenção de um dos ecossistemas mais fantásticos do país.


Lençóis Maranhenses: projeto para um futuro turístico sustentável e manutenção do meio ambiente. Crédito: Marcelo Maragni


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