tamanho da letra : imprimir
Turismo Sustentável

Ecoturismo com qualidade

Em diferentes pontos do país, organizações dedicadas à preservação ambiental desenvolvem projetos de sustentabilidade para a atividade turística

Passeio de cavalo pela Nhecolândia, no Pantanal sul-mato-grossense Crédito: Haroldo Castro

A imagem do monomotor decolando da pista próxima a Aquidauana (MS) e do pantanal ganhando contornos cada vez mais nítidos e surpreendentes são apenas os minutos iniciais da experiência de ecoturismo que a ONG Conservação Internacional (CI) proporciona aos interessados em natureza. A iniciativa da CI, uma ONG fundada em 1987, nos Estados Unidos, e hoje presente em 30 países, é algo comum no cotidiano de muitas outras instituições ambientalistas.

Apesar de não ser a principal área de atuação dessas instituições, elas acreditam ser esse caminho, o de levar pessoas para a natureza, uma forma de garantir que suas outras ações, todas voltadas para a preservação ambiental, também tenham sucesso, inclusive financeiro.

O impacto da descoberta de um outro mundo, dos animais, das plantas e, principalmente, do ciclo do planeta, mesmo que assimilado de forma subliminar, é o grande motivo que tem levado organizações civis ambientalistas a investir em ações de ecoturismo, pelo menos do ponto de vista conceitual. No caso das ONGs que mantêm atividades nessa área, são criados núcleos de profissionais especializados, com boa experiência em projetos que tentam reunir preservação e turismo.

O principal desafio é combinar preservação ambiental e viabilidade financeira. A curta história desses projetos em termos de Brasil mostra que isso ainda precisa ser mais bem trabalhado pelos seus gestores. O visitante, por seu lado, ao assistir ao nascer do sol em plena Fazenda Rio Negro, na região do pantanal sul-mato-grossense conhecida como Nhecolândia, guardará para sempre a emoção do espetáculo. E, quem sabe, dividirá a experiência com amigos e familiares.

Com ações como essa sendo espalhadas por vários pontos do país, principalmente na última década, o ecoturismo de verdade – na fase do boom, muitos pegaram carona no conceito de forma pouco responsável – já poderia estar bem mais sólido como atividade comercial, segundo Alexandre Prado, gerente de economia da CI.

Ele é um exemplo de profissional atuando no viés turístico do ambientalismo. Graduado e mestre em Turismo pela Universidade de São Paulo, especialista em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas, Prado está desde 1993 no mundo do ecoturismo. Nesse período, desenvolveu projetos em todos os principais ecossistemas brasileiros. “Mesmo depois da explosão que tivemos nos anos 1990, o setor do ecoturismo no Brasil ainda não está amadurecido”, afirma Prado, de forma direta. Além das dificuldades daqueles que pretendem fazer do seu negócio algo realmente sustentável, existem muitos que entram no setor e não entendem bem o espírito da coisa. “Há dois anos, na região de Bonito (MS), a grande parte dos negócios não tinha licença ambiental para funcionar”, lembra o especialista da CI. “É preciso se preocupar com tudo. Com o esgoto, com a infra-estrutura, e assim por diante.”

Apesar de o ecoturismo ser bem aceito pelas ONGs tradicionais como uma forma de ajudar na preservação ambiental, a história muda de figura quando a questão é como desenvolver esse tipo de atividade turística. O maior risco que esses empreendimentos sofrem é de ser “verdes” apenas por fora. Por conta disso, inclusive, é que o Ministério do Turismo está desenvolvendo o Projeto de Normatização e Certificação em Turismo de Aventura, que envolve as atividades de ecoturismo, a ser executado pelo Instituto de Hospitalidade (IH). Até o fim do ano esse conjunto de regras deverá ficar pronto.

No caso da Fazenda Rio Negro, da CI, que tem como única atividade o ecoturismo, todos os dilemas do setor estão presentes. As contas, por exemplo, são difíceis de fechar. A área tem 8 mil hectares, mas apenas parte é aberta aos visitantes, cerca de 300 hectares. “Toda vez que a Pata Choca vai para a manutenção (uma espécie de jardineira usada pelos turistas para assistir aos shows naturais pantaneiros) gastamos uns R$ 25 mil”, explica Prado. E isso costuma ocorrer, no mínimo, de dois em dois anos. “E se gastam outros R$ 100 mil apenas para trocar toda a cerca da fazenda.”

No Pantanal, a fazenda da CI pode abrigar aproximadamente 40 pessoas. Existem quartos na casa quase centenária e no anexo de um prédio novo. Os pacotes tradicionais, de três dias, incluem caminhadas, cavalgadas e passeio no rio, em vez das urbanas piscinas. Os pacotes podem ser comprados diretamente na CI, apesar de muitas agências também comercializarem o serviço.

“Aquela idéia de que o investimento seria todo recuperado está cada vez mais distante. Não é mais como se imaginava nos anos 1990”, diz Prado, que também acha que o setor merece um pouco mais de incentivos fiscais por parte do governo. A experiência na própria Fazenda Rio Negro, que hoje na verdade está mais focada no chamado turismo científico (ver boxe), além de reforçar o ponto de vista apresentado por Alexandre ajuda a mostrar os desafios do setor. Apesar das dificuldades, ninguém que trabalha nesse campo concorda com a tese de que não é possível fazer turismo ecológico de forma responsável e viável, em todos os sentidos.

Os recursos obtidos com a atividade, no caso da experiência da CI, são quase sempre oriundos de visitantes estrangeiros. O alto custo do pacote inviabiliza o consumo desse produto pelos próprios brasileiros. Outra questão é que a sustentabilidade ambiental, apesar de ser fundamental para o planeta e para o ser humano, nem sempre casa com a sustentabilidade comercial. E isso, talvez, seja o principal problema a ser resolvido em termos nacionais. A balança tem de estar bem equilibrada entre o meio ambiente e o planejamento financeiro.

Por conta desse dilema é que a experiência inédita em execução pela ONG Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem (SPVS), em Guaraqueçaba, litoral norte do Paraná, merece ser vista com bons olhos. A região de remanescentes da floresta da mata atlântica ainda tenta resistir à predação indiscriminada feita no último século, principalmente pela especulação imobiliária, pela urbanização e pelo uso indevido da terra. Fundada em Curitiba em 1984, a SPVS atua principalmente em duas regiões bastante pressionadas do ponto de vista ambiental: a floresta de araucárias do Paraná e a mata atlântica, no litoral do Paraná. No caso do ecoturismo, a instituição vem investindo na capacitação de pequenos proprietários e prestadores de serviços, uma vez que a região de Guaraqueçaba mostra um crescente desenvolvimento do turismo ambiental. “Já terminamos a fase de diagnóstico. Temos todas as informações básicas necessárias para fazer com que o setor possa operar de forma sustentável sob todos os aspectos”, explica Liz Buck da Silva, responsável pelo projeto na SPVS. “Em 2007 vamos fazer a capacitação dos interessados em atuar no atendimento a hóspedes e turistas em geral. Ou seja, de como eles podem receber melhor os visitantes”, explica.

Ao todo, 35 pequenos empreendedores se interessaram pelo projeto, que ainda terá, em sua terceira fase, uma incubadora de pequenas empresas com planos de negócios e ações voltadas para o marketing. “A idéia é que no futuro a cooperativa possa funcionar de forma autônoma”, espera Liz. O cálculo é que isso possa ocorrer entre 2009 e 2010. Se tudo der certo, os donos de pousadas e de barcos, além dos produtores de mel e de artesanato da região, poderão saber quanto os negócios poderão crescer, sem destruir o meio ambiente e ainda dando exemplo para os outros. O projeto da SPVS também pode ser reconhecido pelo ineditismo e pela boa oportunidade de ser replicado em outras regiões do país. Segundo Liz, experiências de cooperativas de pequenos empreendedores no Brasil, no ramo do ecoturismo, ainda são uma raridade e podem contribuir para a sustentabilidade das operações do setor.

Ainda no ecossistema da mata atlântica, a SOS Mata Atlântica, ONG tradicional de âmbito nacional com sede em São Paulo, tenta levar em frente um projeto pioneiro que também pode colaborar muito com o futuro do ecoturismo nacional devido a um componente histórico. O Pólo Ecoturístico do Lagamar, que existe desde meados dos anos 1990, ainda resiste, mostrando que projetos como esse, quando bem amarrados, podem ter uma vida duradoura. Em 1995, por iniciativa da ONG paulista, teve início um plano para organizar e capacitar o setor de turismo das cidades de Cananéia, Iguape, Pariquera-Açu e Ilha Comprida para receber os turistas. Foram criados trilhas e passeios especiais para os interesses do visitante que quisesse ver as maravilhas naturais do litoral sul de São Paulo. A sede do projeto funciona até hoje em um casarão histórico de Iguape, onde existe também uma loja de artesanato.

Após as primeiras fases, o projeto entrou em reestruturação, sob responsabilidade da especialista em ecoturismo Alysson Costa, o que deve dar novo fôlego ao empreendimento, várias vezes premiado na última década. O Lagamar também conta com a participação da comunidade local em parte dos seus projetos destinados aos turistas em geral, quase sempre grupos urbanos que resolvem ir para a “natureza” de vez em quando.

Após a capacitação local, nas fases de implantação do plano o poder público também foi chamado e aceitou o desafio de participar do projeto com apoio financeiro, inclusive. O complexo estuarino-lagunar de Cananéia-Iguape, talvez por contar com a participação organizada de comunidades locais, é uma parte do litoral paulista que ainda abriga um bom trecho contínuo da floresta de mata atlântica. Mas o projeto do Lagamar, depois de capacitar mais de 500 pessoas nos anos 1990, busca um novo fôlego para continuar.

Pensando em enfrentar o desafio de preservar outra floresta, no caso a amazônica, é que a própria CI decidiu olhar para a frente e partir para outros projetos no território brasileiro, além da Fazenda Rio Negro, no Pantanal. Com a colaboração da organização, estão sendo inaugurados o mirante e as trilhas do Parque Nacional da Amazônia, que fica perto do Rio Tapajós, no sudoeste do Pará. “Trata-se de um parque que existe há 30 anos, mas que só agora receberá infra-estrutura para visitação, voltada principalmente à comunidade da região, que é quem deve visitar mais a área”, explica Prado.

Ou seja, assim como a CI faz no exterior, em projetos de ecoturismo que contam com a participação das comunidades locais, as ações da entidade são como sementes plantadas para que uma atividade turística ambientalmente responsável possa dar frutos. Cabe à comunidade da região, em conjunto com todos os outros atores envolvidos no turismo sustentável, cuidar para que essas experiências sejam fortalecidas.

De acordo com Carlos Alberto Mesquita, coordenador de Conservação da Biodiversidade em Terras Privadas da ONG carioca Instituto Bioatlântica e que teve uma grande experiência no desenvolvimento de projetos reunindo turismo e preservação ambiental, o ecoturismo deu um salto importante no Brasil nos últimos dez anos, mas o surgimento de uma nova mentalidade nos processos de gerenciamento dos projetos é que deverá contribuir bastante para o real amadurecimento do setor. “Na verdade foram as ONGs e os ambientalistas que alavancaram o ecoturismo. Mas, agora, é preciso que os empreendedores entrem no processo, desde que tenham, claro, sensibilidade ambiental e social”, adverte Mesquita.

Depois de ter trabalhado por quase dez anos no sul da Bahia, Beto Mesquita, como é mais conhecido, pode falar com conhecimento de causa sobre a diferença de pontos de vista entre ambientalistas e empresários. “Nos primeiros anos do Ecoparque [projeto gerenciado por Mesquita quando estava no IESB, Instituto de Estudos Socioambientais do Sul da Bahia, implantado em 1997] era curioso, pois os nossos números eram elogiados quando vistos pelos empresários. Mas, quando eram mostrados aos ambientalistas, eram criticados.” Isso porque o ecoturismo era visto como um negócio pelos primeiros e como um desperdício de recursos pelos segundos. “Tudo perfeitamente compreensível, claro. São visões diferentes apenas”, recorda Mesquita. No ano com mais visitantes, em 2002, 7 mil pessoas conheceram a mata atlântica baiana.

A experiência do Ecoparque é outro exemplo das contradições do setor. Ele nasceu a partir de um projeto feito em conjunto entre o IESB e a CI. Na prática, o visitante conhecia um dos pedaços mais preservados de mata atlântica no Brasil. No local, foram construídas trilhas interpretativas, além de um pequeno centro de visitantes. O parque funciona até hoje, apesar de estar mais voltado para atividades de educação ambiental. Ou seja, o sentido de negócio do projeto foi um pouco deixado de lado.

“Hoje, na Chapada Diamantina, por exemplo, muitas pessoas que começaram seus trabalhos com as ONGs saíram e se transformaram em pequenos empreendedores. Isso acaba sendo positivo para o setor. Mesmo porque, quando existe um crescimento em determinada área, sempre aparecem os oportunistas, no caso, os eco-oportunistas”, diz Mesquita.

Comentários


Deixe um comentário




O comentário não representa a opinião da revista Host&Travel; a responsabilidade é do autor da mensagem