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Turismo Sustentável

Diamantina volta a brilhar

Terra de personagens da história brasileira como Juscelino Kubitschek e Chica da Silva, Diamantina se reconstrói e encontra no turismo seu principal aliado para crescer

Do Cruzeiro da Serra é possível ter uma vista espetacular da cidade com seus monumentos históricos e ruas de pedra Crédito: Camila Lucchesi

Velhos casarões em estilo barroco, janelas avarandadas, becos estreitos e ruas de paralelepípedo por onde passa um povo simpático, simples e hospitaleiro. Essa é uma cena típica de Diamantina (MG), antigo Arraial do Tijuco, considerada Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco desde 2000.

Com toda essa riqueza histórica, humana e cultural, a cidade convive com uma dura realidade: a pobreza. Localizada no Vale do Jequtinhonha, norte do estado e uma das regiões mais carentes de Minas Gerais, Diamantina enfrenta problemas com a proibição do garimpo, principal atividade econômica até então e razão que levou à fundação da cidade. Foi com a descoberta do ouro no Córrego do Tijuco, em 1713, e poucos anos depois, em 1729, com a descoberta do diamante no mesmo local que Diamantina se formou.

Esse triste cenário está mudando pelas mãos dos próprios moradores e de entidades como o Sebrae Minas, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) Instituto de Hospitalidade (IH) e Instituto Estrada Real (IER). Com projetos independentes e utilizando o turismo como aliado, essas entidades estão promovendo uma verdadeira revolução na cidade. A idéia, segundo a secretária interina de Cultura, Turismo e Patrimônio, Márcia Dayrell, é transformar o turismo na principal atividade econômica do município. Hoje o turismo responde por 60% da economia local e gera 250 empregos diretos.

Vocação para isso, Diamantina tem de sobra e os cidadãos também demonstram disposição para mudar. “A mentalidade do garimpeiro em relação a dinheiro é imediatista, mas eles começaram a compreender que a resposta no turismo leva um pouco mais de tempo. É preciso criar infra-estrutura para receber turistas e capacitar os trabalhadores. A conscientização entre os garimpeiros já dura seis anos”, afirma Márcia. Além disso, monumentos e pontos turísticos estão sendo reformados para o tão esperado incremento turístico. Os recursos para essa reforma geral, segundo a secretária, vêm do Governo Federal, de instituições privadas e do próprio empresariado de Diamantina. Ela conta que também será criado um fundo de gestão de preservação. Também está em curso a aprovação de um Plano Municipal de Turismo Sustentável na cidade, com a participação da comunidade e apoio do Sebrae. A previsão é de que o documento seja aprovado até o final do ano.

Programas de incentivo ao desenvolvimento do turismo pipocam pela cidade. E provando que a união faz a força, eles funcionam bem. O mais recente deles é o Turismo Solidário, iniciativa do Ministério do Turismo em parceria com o Governo de Minas, Sebrae, Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas Gerais e Fundação Banco do Brasil. Inspirado na experiência internacional e adaptado à realidade brasileira, o projeto funciona da seguinte forma: os moradores se cadastram e são treinados para receber turistas em suas casas. Do outro lado, os visitantes interessados em conhecer a cidade não pagam pelo abrigo, mas retribuem a hospedagem com serviços. Médicos podem fazer exames clínicos, por exemplo.

Outra iniciativa de suma importância para o futuro da cidade foi o Movimento Brasil de Turismo e Cultura (MBTC), encabeçado pelo Instituto de Hospitalidade e pelo Sebrae, que tem como principal objetivo estimular o desenvolvimento sustentável por meio do turismo e da valorização das manifestações culturais locais, como a música, a arquitetura, a culinária e o artesanato. Em 2003, Diamantina foi a primeira cidade escolhida para implantação e os resultados são notáveis. Além de identificar diversas atrações locais que podem incentivar o turismo — como a musicalidade das serestas, o artesanato produzido em coco e ouro e a gastronomia –, a atuação resultou na criação da Associação Diamantina Sempre Viva, formada por cidadãos da comunidade que ficaram responsáveis por manter as ações e por não deixar as tradições perderem-se no tempo.

A atuação do Iphan, por meio do programa Monumenta, também merece destaque. O instituto tombou todo o conjunto arquitetônico e urbanístico da cidade e hoje zela pela preservação de diversos sítios urbanos do local, como o Mercado Velho (que hoje serve de espaço para os artesãos exibirem seus trabalhos), o Sobrado do Intendente (que a partir desse ano abrigará o Museu de Arte Sacra), a Igreja de São Francisco, a Cadeia Antiga (que, em breve, será sede de um espaço cultural com cinema, teatro e café) e o Museu do Diamante (que será recuperado e terá um quintal ajardinado e aberto à comunidade). Esse último, além de resgatar a cultura do garimpeiro, trazer o garimpo para a contemporaneidade e guardar tesouros bibliográficos, terá uma importante função social na educação patrimonial. “O serviço educativo dará ênfase às técnicas tradicionais e características locais. Vamos ensinar às pessoas porque utilizar certos materiais na construção ou reforma de suas casas para que não percam as características da cidade e não provoquem danos ambientais”, explica Lílian Oliveira, diretora do museu.

Em parceria com as Secretarias de Estado de Turismo e de Planejamento e Gestão, o Instituto Estrada Real mantém um posto fixo na cidade e desenvolve, desde junho de 2006, um programa de incentivo ao turismo que vem fortalecendo a rede de pequenas e médias empresas da cadeia turística e visa a qualificar e treinar os empresários, bem como elaborar produtos locais e comercializa-los. Nesse quesito, o instituto incentiva o artesanato típico em coco e ouro por meio do programa Produção Associada ao Turismo, que envolve qualificação para atendimento ao turista e em gestão empresarial, apoio para captação de recursos e divulgação. Atualmente, três joalherias diamantinenses participam do programa.

O Ministério do Turismo também participa com investimentos em infra-estrutura, promoção e qualificação do destino que partilha com outros quatro municípios o Roteiro Serra do Cipó a Diamantes, estabelecido pelo Plano de Regionalização do Turismo do MTur. Entre as ações, estão previstas a construção de portais com centros de informações turísticas e de pórticos nas principais vias de acesso do roteiro, implementação de projeto de gestão integrada de coleta seletiva lixo, incentivo para a criação de estruturas de saúde mais completas, asfaltamento de alguns acessos à cidade que ainda não contam com pavimentação e construção de centros de eventos e de convenções para aproveitar a estrutura hoteleira já implantada que conta hoje com cerca de 1500 leitos.

As 27 hospedarias estão divididas desde empreendimentos com completa infra-estrutura para eventos e facilidades como internet (caso da Pousada do Garimpo), hotéis com apartamentos de luxo (Diamante Palace Hotel e Hotel Tijuco, esse último, projeto de Oscar Niemeyer) e pousadas charmosas em casarões antigos e restaurados (como a Pousada Relíquias do Tempo, instalada em uma construção do século 19 e que abriga também o Museu do Garimpo).

#I1# Uma cidade musical

“Uma serenata em Diamantina é mais bela do que a noite de trovadores em Nápoles. A cidade toda canta, despreocupada, diluindo na beleza dos sons as angústias comuns da vida. Cada dia as serenatas se tornam mais atraentes e agora que o asfalto liga a cidade a todos os pontos do país, veremos se desenvolver um movimento turístico de pessoas que amam, acima de tudo, a poesia das noites cheias de estrelas, embaladas na dolência dos violões que choram” – Juscelino Kubitschek de Oliveira

Diamantina é o casamento perfeito entre história e natureza, entre o turismo cultural e o ecoturismo. A proximidade com a Serra do Espinhaço atrai praticantes de esportes radicais e a quantidade de monumentos históricos é chamariz para os amantes de cultura e religião, mas é na musicalidade que a cidade exprime seu maior potencial. Tanto é que um dos eventos musicais mais festejados, a Vesperata, atrai anualmente cerca de 16.500 pessoas a Diamantina, aproximadamente 750 turistas para cada uma das cerca de 20 apresentações anuais. As apresentações acontecem de março a outubro. No fim do ano, é a vez do Circuito dos Corais atrair visitantes. As apresentações promovem o intercâmbio entre coros de outras cidades e acontecem em diversos pontos, com entrada gratuita.

Como não poderia deixar de ser, o carnaval também atrai muitos visitantes à cidade: são cerca de dez mil foliões por ano. Seguindo os moldes dos tradicionais festejos de cidades históricas e, por isso mesmo, para preservar o patrimônio, a prefeitura estuda a mudança da folia do centro histórico para a parte alta da cidade. “Fizemos uma parceria com a Prefeitura de Olinda, que sofre dos mesmos problemas, para encontrar soluções que servem às duas cidades”, conta a secretária. Uma pesquisa popular foi encomendada para avaliar a opinião dos moradores em relação à mudança.

Mas mesmo fora de ocasiões especiais, a música está no ar por onde se passa. Um levantamento feito na cidade mostrou que não existe uma família diamantinense que não tenha, pelo menos, um músico e por esse motivo o número de seresteiros ou grupos de qualquer outra manifestação musical é impressionante. O Iukerê, por exemplo, é formado por jovens alunos do curso técnico de percussão que utilizam instrumentos inusitados como canos de PVC e latas para criar belas melodias. “Mas emoção mesmo é ver os meninos da Banda Sinfônica Mirim”, adianta o condutor de turismo Manoel Ranulfo. Criada em 1986 pelo prefeito Antônio de Carvalho Cruz seguindo o sonho do atual regente, Irineu de Souza Domingos, ou maestro Alex, como ele costuma ser chamado, a banda é formada por mais de 200 crianças de 08 a 18 anos, todas de famílias carentes. Além de despertar a sensibilidade para a arte e promover aperfeiçoamento musical, a iniciativa oferece aos alunos bolsas de estudo, ajuda de custo, assistência médica e odontológica, alimentação e novas perspectivas. “Não estou criando uma banda de música, mas o futuro de Diamantina. Temos uma cidade, um país a refazer e isso vai depender do que fizermos com as crianças,” diz o inspirado maestro.

A cidade recebe, por ano, 70 mil turistas. Para dar conta do incremento no fluxo, o antigo Aeroporto Juscelino Kubitschek, foi reformado e ampliado com recursos do Prodetur, e os vôos da Total Linhas Aéreas foram retomados, em dezembro passado. A linha regular faz o trecho Belo Horizonte – Diamantina, sem escalas, às sextas-feiras e aos domingos. A nova rodoviária também está sendo construída para comportar a chegada de 22 ônibus simultaneamente, com centro de atendimento ao turista e projeto adequado aos portadores de necessidades especiais. O equipamento atual comporta apenas oito veículos ao mesmo tempo.

#I1# Peculiaridades locais

Há certos pontos que não podem ficar de fora de uma viagem. No caso de Diamantina, um dos locais de visitação obrigatória é a Casa da Glória, formada por duas construções dos séculos 18 e 19 ligadas por um passadiço que, inicialmente, funcionava como internato. O acesso entre os prédios evitava que as internas do colégio tivessem contato com a cidade. Até 1970, o local funcionou como colégio das irmãs vicentinas e hoje, após reformas lideradas pela Universidade Federal de Minas Gerais, abriga o Instituto de Geologia Eschwege da UFMG.

A residência da ex-escrava Chica da Silva e a casa do ex-presidente Juscelino Kubitschek, os dois filhos mais ilustres da cidade, também merecem uma passadinha, bem como a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, construída a mando do contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, amante de Chica, e com uma peculiaridade que a diferencia das demais: a torre fica nos fundos da edificação. Outra relíquia encontrada no local é um órgão formado por mais de 700 tubos, produzido artesanalmente em 1762. O instrumento foi tombado pela Unesco e, além deste, só existem mais dois no mundo, um em Caraça (MG) e outro na Cidade do México. Curiosidade: essa é a igreja que Lô Borges viu da “janela lateral do quarto de dormir”, trecho da música Paisagem da Janela, gravada pelos mineiros do Clube da Esquina.

Uma visita à Joalheria Pádua é imprescindível para conhecer uma das manifestações artísticas mais fortes da cidade: o artesanato de coco e ouro. Fundada há três séculos e mantida, de geração em geração no mesmo local, a joalheria vira uma sala de aula, quando comandada pelo seu Toninho, neto do fundador. As mãos hábeis lapidam as pedras com facilidade, enquanto ele confidencia que “o turismo ainda está muito devagar”.

Para finalizar, um passeio ao Cruzeiro da Serra, de onde se pode ter uma vista espetacular da cidade, e ao Caminho dos Escravos. Trecho de pedras construído pelos escravos para o transporte de diamantes e cargas, o caminho marca o ponto zero da Estrada Real.

Em parceria com o Sebrae e a Emater MG (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais), a prefeitura de Diamantina organiza seis feiras de artesanato mensalmente. A maior delas acontece no Mercado Velho aos sábados e reúne 81 expositores. Em breve, será construído um galpão em terreno cedido pela prefeitura para produção das peças.

A capacitação e treinamento de artesãos para geração de renda é realizada em um espaço embaixo da Secretaria de Cultura por técnicos do Sebrae. Segundo Márcia, no começo, 17 associações participavam dos treinamentos. Hoje, são quase 200 pessoas envolvidas, grande parte, filhos de ex-garimpeiros que viram na atividade uma forma de conseguir levar dinheiro para casa. A história se repete em muitas casas diamantinenses: com a queda da atividade, pais garimpeiros e sem formação não têm como sustentar suas famílias. Os filhos são, então, os principais personagens na virada de mesa: se capacitam e passam a viver de atividades artesanais que, muitas vezes, eram praticadas por seus avós.

Assim aconteceu com Valdirene Emília Borges, uma entre os 29 artesãos da Oficina Galheiros de Produção Artesanal – Associação de artesãos sempre-viva, que há cinco anos produz enfeites e luminárias com sempre-viva, flor típica da região. O artesanato de sempre-viva é tradicional, mas com o uso sem critérios desde a década de 1960, a flor entrou na lista das ameaçadas de extinção. “Em 2001, o Terra Brasilis chegou para ajudar e eu queria entrar para o artesanato. Foi quando tudo começou”, diz Valdirene. Hoje, as peças produzidas pela associação são vendidas à Tok&Stok que as comercializa em todo o país. A oficina de Galheiros, cidade próxima a Diamantina, é resultado de um projeto realizado pelo Instituto Terra Brasilis de Desenvolvimento Sócio-Ambiental em parceria com o Sebrae para o consumo sustentável da matéria-prima. Iniciativas como essa fazem com que a flor, assim como a arte, permaneça viva por muitas gerações.

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