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Turismo Sustentável

Arquitetando o turismo

Sustentabilidade, projetos inovadores para cidades, identidade, revitalização urbana e planejamento do espaço turístico estão na pauta de arquitetos e urbanistas mundialmente reconhecidos

Uma ilha de quatro quilômetros quadrados, com 40 mil metros de praias totalmente intactas, vem surgindo no meio do Golfo Pérsico. Parece mentira, mas é a mais pura e luxuosa realidade. O novo “acidente geográfico”, localizado a cerca de 20 quilômetros de Doha, capital do Catar, é a maior ilha artificial do mundo. The Pearl – Qatar, ou a Pérola do Catar, vai contar com 15 mil unidades residenciais, marinas, hotéis, lojas, apartamentos, spas e uma infra-estrutura de dar inveja. O complexo terá sua primeira parte concluída ainda este ano e deverá estar totalmente pronto em 2011. O engenheiro dinamarquês responsável pelo projeto, Thomas Gierlevsen, veio pela primeira vez ao Brasil para participar do Seminário Internacional de Arquitetura e Turismo – Architectour 2008, realizado em agosto, em Florianópolis. Em sua palestra, uma das mais disputadas do encontro, ele falou sobre os desafios de se criar uma cidade inteiramente do nada, no meio do mar.

Além do dinamarquês, o encontro reuniu outros nomes mundialmente importantes na capital catarinense, como o arquiteto norte-americano de origem chinesa Chieng Chung Pei, famoso pela participação no projeto da pirâmide de vidro do Museu do Louvre, em Paris; e os arquitetos argentinos Máximo Rumis, especialista em revitalização urbana; e Rubén Pesci, diretor da Unesco para desenvolvimento sustentável. Para Hamilton Lyra Adriano, consultor em gestão de empreendimentos e organizador da Architectour 2008, esta é a hora de fomentar a discussão em torno de arquitetura voltada para o turismo. Segundo estimativas do Governo Federal, mais de nove milhões de estrangeiros devem visitar o Brasil até 2010. Os números são animadores, mas vêm acompanhados de uma grande preocupação: a falta de planejamento das grandes metrópoles para a prática do turismo sustentável.

Na contrapartida surgiu a idéia do encontro, com objetivo de investir esforços no debate do planejamento do espaço turístico por meio dos aspectos arquitetônicos e urbanísticos, envolvendo estudiosos de diversas áreas, como ambientalistas, geógrafos, engenheiros, turismólogos, historiadores, designers, administradores públicos, entre outros. “Precisamos discutir qual futuro queremos para nossas cidades”, afirma Hamilton.

Segundo ele, pensar no turismo única e exclusivamente pelo viés econômico proporciona sua exploração de forma equivocada, sem a preocupação com o espaço. “Por isso, o objetivo do evento foi justamente criar estratégias de valorização da cultura e preservação do meio ambiente, dar visibilidade ao debate acerca dos impactos do turismo convencional, além de promover e estimular políticas que privilegiam o turismo sustentável”, diz.

#I1# Cidade sobre o mar

Recordista de público, a palestra de Thomas Gierlevsen, que atua no grupo dinamarquês COWI, maior escritório de engenharia costeira e marítima do mundo, reuniu arquitetos e engenheiros de várias partes do Brasil e do mundo que ouviram sobre os desafios de se criar uma cidade do nada. A principal preocupação em relação à Pérola do Catar, segundo Gierlevsen, foi a de se certificar de que a ilha poderia ser seguramente construída sobre o mar. Para isso, diversos estudos geotécnicos foram realizados. “Foi um grande desafio”, disse. “Fizemos uma série de investigações técnicas detalhadas para descobrir se o material adquirido a partir de dragagem de canais e enseadas poderia ser usado diretamente para formar a ilha” – explica o engenheiro.

Cinco quilômetros distante de Doha, capital do Catar, a Pérola será ligada ao continente por uma ponte com 355 metros de largura e oito pistas. O projeto foi pensado como forma de impulsionar o turismo e como alternativa para a economia local. Na ilha, haverá apartamentos e moradias para cerca de 40 mil habitantes, em diferentes padrões, além de hotéis e atrações turísticas com o que há de melhor em consumo de luxo no mundo. A intenção é atrair visitantes durante todo o ano. Segundo Gierlevsen, a ilha foi concebida para que a maioria das pessoas tenha acesso direto ao mar. O centro de iatismo, por exemplo, terá capacidade para 789 embarcações.

“A ilha foi desenhada para suportar tempestades e ondas gigantes, tendo em vista o aumento dos níveis das águas nos oceanos em todo o mundo. Além dos aspectos técnicos, a engenharia costeira também leva em conta as condições ambientais, o que exigiu parceria entre arquitetos, projetistas, engenheiros e ambientalistas especializados. É uma obra bastante complexa, buscamos soluções de proteção contra a erosão, sem comprometer a qualidade das praias”, diz Gielervesen.

Com aproximadamente 400 hectares, a ilha artificial será subdividida em sete regiões: Porto Saudita, com estilo de vida da cosmopolita riviera árabe; Viva Bahriya, bairro residencial para famílias; Costa Malaz, um spa tropical com termas; The Quartiers, com a vista panorâmica do centro da ilha; Viva Bahira; Bahri Villas e Isola Dana, com nove ilhas particulares para um público de alto poder aquisitivo. Na área Porto Saudita, haverá ainda outra ilha de cinco quilômetros de comprimento e três de largura.

#I1# Busca de identidade

Na opinião de outro participante do Architectour 2008, o arquiteto norte-americano, Chieng Chung Pei, as cidades brasileiras precisam unir cada vez mais arquitetura e turismo. Famoso pela construção dos maiores e mais tecnológicos prédios do mundo, ele afirma que uma das soluções para amenizar o crescimento desordenado das grandes metrópoles seria “desenhar” as cidades. Pei defende a idéia de que as cidades devem ser pensadas e planejadas com vistas ao crescimento.

Para ele, a intervenção de arquitetos, urbanistas, engenheiros e dos profissionais envolvidos no processo de desenho urbano deve ser feita de forma bastante cautelosa, para que as cidades se mantenham habitáveis para um número crescente de pessoas. O arquiteto lembra que a cada dia as áreas urbanas de todo o mundo recebem milhões de pessoas. Em sua visita ao Brasil, Pei esteve atento às belezas naturais de Florianópolis, mas também notou que em termos arquitetônicos é tudo muito parecido, sem diferencial. “Não se trabalha a questão da identidade nas cidades e isso é uma grande falha para um país que tem tamanho potencial para o turismo. Cada localidade tem suas particularidades e elas devem fazer parte do projeto”, comentou.

O diagnóstico de Pei encontra eco na avaliação feita pelo arquiteto Marcelo Ferraz, sócio do escritório Brasil Arquitetura, com vários projetos premiados no Brasil e exterior. Participante do encontro de Florianópolis, para ele a arquitetura brasileira passa por um momento bastante delicado. Ao viajar pelo Brasil, observa cidades se acabando, não só pelo processo natural ou econômico, mas também por culpa dos arquitetos. “Quando digo isso, é porque vejo poucos projetos interessantes. Não existem mais estudos de uma região ou de suas peculiaridades. O processo se mecanizou, todos se repetem e o enfoque é estritamente comercial”, diz o arquiteto que entre 2003 e 2004 coordenou junto ao Ministério da Cultura o Programa Monumenta de recuperação de sítios históricos urbanos em todo o país.


Pérola do Catar: Obras em andamento para a construção da maior ilha artificial do mundo Crédito: Divulgação

Pérola do Catar: Obras em andamento para a construção da maior ilha artificial do mundo



: A ilha terá quarenta quilômetros de praias, 15 mil unidades residenciais, hotéis, marinas, spas e outros atrativos Crédito: Divulgação

: A ilha terá quarenta quilômetros de praias, 15 mil unidades residenciais, hotéis, marinas, spas e outros atrativos



“A ilha foi desenhada para suportar tempestades e ondas gigantes, tendo em vista o aumento dos níveis das águas nos oceanos em todo o mundo” - Thomas Gierlevsen, engenheiro do grupo dinamarquês COWI Crédito: Divulgação

“A ilha foi desenhada para suportar tempestades e ondas gigantes, tendo em vista o aumento dos níveis das águas nos oceanos em todo o mundo” - Thomas Gierlevsen, engenheiro do grupo dinamarquês COWI



“Não existem mais estudos de uma região ou de suas peculiaridades. O processo se mecanizou, todos se repetem e o enfoque é estritamente comercial” – Marcelo Ferraz, arquiteto e sócio do escritório Brasil Arquitetura Crédito: Divulgação

“Não existem mais estudos de uma região ou de suas peculiaridades. O processo se mecanizou, todos se repetem e o enfoque é estritamente comercial” – Marcelo Ferraz, arquiteto e sócio do escritório Brasil Arquitetura


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