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Tendência

O mercado de Liliput

Pesquisa da Abav e do Sebrae revela a força dos desbravadores e o impacto econômico de um setor pulverizado

“O domínio de pequenas empresas especializadas é tendência mundial.” – Sérgio Malta, superintendente do Sebrae no Rio de Janeiro

Quando a Soletur, uma das maiores operadoras de turismo do Brasil, fechou as portas, em 24 de outubro de 2001, com dívidas de R$ 30 milhões, 480 funcionários e 1,5 mil prestadores de serviços ficaram a ver navios, ônibus e aviões vazios. A empresa, que transportara no ano anterior 350 mil passageiros, 54% dos quais em rotas nacionais, alegava ter sido atingida em cheio pelo atentado às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e entrou na Justiça com ação de autofalência, porque a dívida ultrapassara o patrimônio declarado da operadora, de R$ 25 milhões. A duras penas, guias de turismo, motoristas, atendentes – sem qualquer experiência administrativa – começaram a se recuperar do tombo, arregaçaram as mangas, associaram-se e abriram os próprios negócios. Exemplos assim, segundo especialistas de mercado, mostram que o setor de turismo no Brasil ainda oferece oportunidades até para quem não sabe a diferença de uma fatura para uma duplicata.

O fato é que o mercado se pulverizou, mas o fenômeno da concentração é recorrente no país: o setor hoje é dominado pela gigantesca CVC Viagens, a principal operadora da América Latina, com faturamento estimado de R$ 1,5 bilhão, 150 vôos fretados por semana e 1,5 milhão de passageiros transportados por ano. Aos trancos e barrancos, contudo, as agências pequenas se aventuraram a oferecer serviços generalizados e detêm a primazia aritmética, como em Liliput, país imaginário da obra As Viagens de Gulliver, do escritor irlandês Jonathan Swift (1667-1745). Atualmente, das 3.034 sócias da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), 72,8% apresentam receita anual de até R$ 400 mil, com média de cinco funcionários. São micro e pequenas empresas, segundo a classificação do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Só 35,3% oferecem serviços específicos. Os dados constam da pesquisa Proagências, realizada em setembro do ano passado pela Abav e pelo Sebrae.

Fragmentado e pouco especializado, o setor das agências de turismo cresce a cada dia com um, dois, três empregados, impulsionado principalmente pelo chamado “marketing viral”, a propaganda boca-a-boca, conforme constatado pela pesquisa. São ao todo mais de 20 mil agências, sendo que 80% delas não são associadas à Abav. Três em cada quatro fazem as contratações por indicação de amigos e de outros profissionais do setor. Um mercado que emprega pelo menos 100 mil pessoas. De acordo com a pesquisa, 87,4% das agências têm um ou dois proprietários.

Para Amauri Pinto Caldeira, de 47 anos, proprietário da agência paulista Sobratur – especializada em mercado corporativo (viagens de incentivo, convenções e congressos), há dois motivos importantes para a tal pulverização do setor. “O primeiro é o fato de, no final dos anos 1980, a Embratur ter suspendido a exigência de uma documentação especial para abrir agência, e o segundo diz respeito ao capital relativamente baixo para se montar o negócio.” Ex-diretor da agência corporativa Carlson Wagonlit e co-fundador da Incentive House (a primeira empresa de marketing de incentivos no país), com passagem pela Stella Barros Turismo, Caldeira emprega hoje 22 pessoas e movimenta, por ano, R$ 28 milhões. “Lido com produto especializado, mas essa não é a realidade de mercado das agências pequenas.” Ele afirma que com a documentação em dia, uma linha telefônica e dois computadores, muitos ex-empregados do setor turístico montam o próprio negócio. “Com R$ 10 mil você pode começar uma agência”, comenta. “E isso certamente ocorreu com muita gente que passou pela Soletur.” Caldeira diz que, no universo de 20 mil agências, quatro ou cinco podem ser classificadas como gigantes de mercado, e outras 40 como médias empresas. “O resto é pequeno e microempresário.”

#I1# Negócio próprio

O carioca Jaime dos Santos, de 43 anos, é um bom exemplo de empresário que começou praticamente do nada. Durante 17 anos, ele trabalhou na Soletur – empresa onde começou como guia e chegou ao posto de supervisor operacional do Brasil e da América do Sul. Ele conta que a notícia da falência foi um choque. “Tenho três filhos, sentia-me seguro no emprego e, de repente, tudo desmoronou”, afirma. “Não tinha a menor noção empresarial, nada.” Jaime procurou Gilmar Cortes da Silva, de 46 anos, que durante uma década trabalhou na Soletur como atendente de vendas e, mais tarde, foi supervisor nacional de operações. “Estávamos receosos, mas não havia saída”, afirma Gilmar. Hoje, os dois ex-funcionários da Soletur são donos de uma pequena agência, com lojas na Tijuca e no Méier, na zona norte do Rio de Janeiro, e garantem que vão expandir os negócios. “Estamos com seis funcionários, mas poderemos aumentar o número de vagas, porque pretendemos, até o fim do ano, abrir uma agência em Copacabana”, diz Santos, que tem formação universitária em turismo.

A pesquisa da Abav/Sebrae revela a concentração das agências nas regiões mais populosas do país: 58,7% delas estão localizadas em cidades com mais de 1 milhão de habitantes. Das 3.034 agências associadas à Abav, 48,3% estão no Sudeste, 22,7% no Nordeste, 12,3% no Sul, 9,9% no Centro-Oeste e 6,8% no Norte. Os números revelam que 43% das agências trabalham com turismo receptivo, mas apenas 16% operam o serviço receptivo internacional. Do total, 23% atuam em operações turísticas, mas apenas 3,2% trabalham como consolidadoras. A venda de passagens áreas nacionais e internacionais é o grande filão das agências. Só 10% dos proprietários de agências acreditam que a formação acadêmica motivou-lhes a seguir na área de turismo. É o caso de Jaime dos Santos. “Mesmo depois que perdi o emprego, decidi que manteria os estudos na área de turismo”, afirma.

Apesar da falta de especialização operacional das agências, o nível cultural dos desbravadores do turismo é bom. Oitenta por cento têm curso superior – 20% na área de hotelaria e turismo. As agências no Brasil dedicam-se, prioritariamente, ao turismo de lazer e negócios corporativos. A confiança na propaganda boca-a-boca é tão consolidada entre os agentes de turismo que apenas 26,5% das empresas terceirizam seus serviços de marketing. Só 35% das agências consideram os sites na internet como ferramenta de captação dos clientes – 19% como forma de torná-los fiéis.

O presidente da Abav Nacional, João Pereira Martins Neto, destaca, na conclusão do estudo, a importância da modernização das agências. “Muitos são os desafios a ser enfrentados, entre os quais se destacam redução de custos, melhoria no atendimento aos clientes, controles administrativo-financeiros, treinamentos constantes de profissionais, além de maior divulgação do negócio”, explica. O superintendente do Sebrae no Rio, Sérgio Malta, confirma que o nicho deixado por grandes empresas no mercado de turismo vem sendo ocupado por profissionais do ramo que decidiram abrir o próprio negócio. Ele afirma que o domínio de pequenas empresas especializadas é uma tendência mundial. “Os turistas não querem apenas visitar o lugar, mas viver experiências de acordo com suas escolhas.” Para Malta, as pequenas empresas no mundo têm o trunfo de poder se especializar a partir do contato físico e oferecer a viagem que a pessoa quer fazer em vez de um pacote generalizado.

A pesquisa Proagências revela a pouca especialização das agências no país, mas, para o Sebrae, o quadro poderá ser revertido. “É preciso que se tente capacitar gerencialmente essas pessoas que conhecem o assunto, os programas, os lugares; é necessário que elas saibam montar os pacotes personalizados, com conhecimento gerencial do negócio”, completa Sérgio Malta.

#I1# Impacto econômico

Luiz Strauss de Campos, presidente da Abav no Rio, diz que “é importante que os agentes de viagem se qualifiquem cada vez mais e conheçam as ferramentas tecnológicas disponíveis, principalmente para atuar no mundo globalizado”. Ele ressalta que a pesquisa da Abav e do Sebrae com as agências de viagens visa a instruir os desbravadores do mercado e a ajudá-los a encontrar um foco para os próprios negócios. Mas, para alguns desbravadores, não é tão fácil. Nélson Ivan Pacheco, de 72 anos, adquiriu experiência em turismo também na Soletur, onde, durante seis anos, trabalhou como subgerente comercial, negociando pacotes turísticos com hotéis. Atropelado pela falência da empresa, Pacheco foi à luta sozinho. Trabalha hoje numa agência minúscula, a Hot Star, numa sala na Cinelândia, no centro do Rio, com uma única secretária. Pacheco desdobra-se para oferecer pacotes a seus clientes: chega à agência às 9h e, invariavelmente, fecha as portas às 22h. Normalmente, ainda fica mais tempo adiantando serviços administrativos. “Todos precisamos de reciclagem, a Abav tem razão, mas o problema é a falta de tempo”, lamenta. “Com uma empresa pequena como a minha, não posso fazer curso durante o dia, só se fosse depois do expediente.”

A conclusão da pesquisa Proagências, da Abav e do Sebrae, coincide com a de um estudo inédito do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o impacto econômico do turismo no Brasil, divulgado no começo do ano. Segundo o documento, os empregos no setor são basicamente sustentados por empresas de pequeno porte, com média de cinco empregados e receita operacional líquida de R$ 85 mil por ano. As empresas pequenas, diz o IBGE, representam o espantoso percentual de 97,20% do universo do turismo e empregam 60,6% da mão-de-obra. Embora com percentual de receita pequeno (26,3% do total de R$ 215,7 milhões) e apenas 35,8% da massa salarial, as microempresas são o esteio dos empreendimentos turísticos. Elas empregam muito, pagam salários menores, não investem muito em tecnologia e dispõem de mão-de-obra pouco especializada. Ainda segundo o IBGE, as empresas de pequeno porte só têm maior representatividade em receita operacional nos casos de atividades desportivas, alimentação e agências de viagens.

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