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Tendência

De olhos bem abertos

Em desenvolvimento no país, turismo GLS sinaliza oportunidades de crescimento para o Brasil. Falta investir em estrutura e qualificação

O público homossexual tem maior poder aquisitivo, mais renda disponível para o lazer e são mais cultos do que a média da população. O que sempre se acreditou ser suposição é provado de maneira clara por Franco Reinaudo, presidente da Associação Brasileira de Turismo para Gays, Lésbicas e Simpatizantes (Abrat-GLS). “Eles só têm filhos quando desejam e procuram focar seus esforços nos estudos e no planejamento da carreira, o que resulta em salários mais altos e maior nível cultural. O que gastariam em fraldas, acabam investindo em viagens, cultura, consumo e lazer”, conta. Segundo pesquisas da Embratur, os turistas estrangeiros desse segmento fazem de três a quatro viagens por ano e gastam quase três vezes mais que os viajantes heterossexuais por dia (US$ 200 contra US$ 74, em média).

Com base nesses dados e na experiência adquirida após doze anos dirigindo uma agência voltada ao turismo GLS, Franco acaba de escrever um livro (veja mais no Box) e viaja pelo Brasil proferindo cursos e palestras para quem deseja iniciar seus negócios nesse mercado promissor. As capacitações têm o apoio do Ministério do Turismo, que destinou R$ 100 mil para o programa Brasil Diversidade, visando ao aumento no fluxo de turistas homossexuais no país. O projeto-piloto começou por três capitais que estão na rota do turismo GLS: Rio de Janeiro, Salvador e Florianópolis. Os próximos passos serão a adequação dos produtos turísticos a esse público e a divulgação dos destinos, tarefas que ficarão sob a incumbência da Embratur. Segundo o instituto, o turismo GLS cresce 20% ao ano no Brasil e a idéia é promover o país internacionalmente como um destino “gay friendly”.

Conhecida por ter uma das maiores paradas de orgulho gay do mundo, São Paulo largou na frente. Há cerca de um ano, o São Paulo Convention & Visitors Bureau (SPCVB) realiza o módulo Sensibilizando para a Diversidade, dentro do programa Bem Receber, criado pela entidade em 2006. As capacitações têm apoio da Abrat-GLS, da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) e do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) e acontecem mensalmente, sempre na última sexta-feira. Segundo o diretor-superintendente do SPCVB, Toni Sando, a idéia é preparar os profissionais da linha de frente, como recepcionistas e concierges para garantir um bom atendimento.

O conteúdo foi desenvolvido pela Abrat-GLS e a participação é gratuita para os funcionários de estabelecimentos associados a uma das três entidades. “O objetivo é mostrar claramente o que é esse segmento e trocar idéias sobre como atendê-lo com cortesia e naturalidade. Os participantes costumam conversar sobre suas experiências, inclusive citando situações que causaram constrangimento e como se saíram delas”, diz Sando. Cerca de quinhentas pessoas já foram treinadas nesse módulo. Ao final, todas recebem um guia com dicas culturais, gastronômicas, de lazer e de compras.

#I1# O caminho das pedras

Para um público que foi reprimido por muitos anos, garantir um bom atendimento é o início para assegurar o sucesso nos negócios. “Todos já sofreram ou ainda sofrem com o preconceito. Como reação, esses consumidores são muito mais críticos e sensíveis a qualquer tipo de discriminação”, alerta Reinaudo. A informação é comprovada por Andrea Ulian, gerente comercial da Flex Voyage, agência paulista que comercializa pacotes especialmente formatados para esse público. “Eles procuram se hospedar em hotéis e pousadas que saibam recebê-los bem e onde não haja qualquer tipo de constrangimento”, diz. Ela reforça, entretanto, que o tratamento deve ser absolutamente igual, exatamente para que não se demonstre qualquer tipo de diferença. “Mas temos de entender que, em determinadas situações, é necessário oferecer alguns diferenciais não por serem gays, mas por procurarem produtos mais sofisticados”.

Ou seja, como ocorre com qualquer cliente, os atendentes devem ter sensibilidade para entender necessidades particulares e reagir de forma natural a elas. “Antigamente, os casais gays costumavam se apresentar à recepção como primos e pediam camas separadas. À noite eles juntavam as camas e, pela manhã, separavam novamente. Hoje, as novas gerações têm noção de seus direitos como consumidor e não têm mais receio de se expor, especialmente nas grandes cidades”, ressalta Reinaudo. Ele conta ainda que pesquisas revelam que gays e lésbicas são mais arredios em cidades pequenas e costumam migrar para as grandes cidades, onde conseguem expressar sua individualidade com mais liberdade.

Seguindo o mesmo raciocínio, quando pensam em viajar, procuram por lugares onde possam ficar à vontade. “Em geral, os homens preferem grandes cidades com boas opções de baladas. Já as mulheres optam por locais tranqüilos, onde tenham contato com a natureza”, afirma Andréa. Independente do gênero, todos anseiam vivenciar os destinos com profundidade. Segundo Reinaudo, city tour é um produto que não combina com esse público, pois eles querem extrair muito mais do passeio do que uma passada rápida pelos principais atrativos. Buscam em especial opções culturais e costumam privilegiar a gastronomia local. “Uma pesquisa apontou que o fator que mais influencia em sua decisão de compra é o atendimento, seguido pela qualidade do hotel. O preço só aparece em terceiro lugar”, diz o presidente da Abrat-GLS.

O ideal é analisar a infra-estrutura do destino e a categoria do hotel antes de oferecer o pacote. Observe a localização e se existe uma “cena gay” nas proximidades, com opções de restaurantes, boates e museus bacanas. Uma pesquisa da International Lesbian and Gay Association (ILGT) aponta que a população gay e lésbica norte-americana gasta US$ 54 bilhões anuais apenas com viagens. Se considerarmos que o Brasil tem 9,4 milhões de homossexuais economicamente ativos e multiplicarmos esse número pela renda média da população brasileira – que foi fixada em US$ 11,8 mil no ano passado – chegamos a uma movimentação financeira total estimada em US$ 111 bilhões anuais, cifras ainda pouco exploradas pelo trade brasileiro.

Uma pesquisa realizada pela São Paulo Turismo durante a última edição da Parada do Orgulho Gay revelou o perfil do turista que vêm à cidade para o evento, que acontece anualmente no final de maio. Os três milhões de participantes da edição 2008 colocam a cidade entre as primeiras do mundo em eventos do gênero. A parada de São Francisco, por exemplo, recebeu cerca de 1,2 milhões no mesmo ano. Entre os 400 mil turistas que vieram a São Paulo, a maioria (43,6%) se hospedou em hotéis e permaneceu na cidade por três dias. O gasto médio diário foi de R$ 170 e a movimentação econômica da capital ficou em torno de R$ 200 milhões.

#I1# Quem já está nessa?

Estados Unidos, Inglaterra e França são os mercados mais avançados, tanto em demanda quanto em procura. Outros destinos apreciados por esse público são Ibiza na Espanha, Grécia, Austrália e Tailândia. Mas Reinaudo conta que África do Sul, Brasil e Argentina também começam a despontar nesse segmento. Segundo ele, os lugares mais procurados pelos turistas homossexuais no Brasil são Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Florianópolis. Andréa acrescenta Recife, Fortaleza e Paraty à lista. “São as cidades mais solicitadas e também as que têm mais estrutura para atender a esse público”, diz a gerente.

Em março de 2007, a TAM Viagens criou uma divisão para atender ao segmento, comandada por Clóvis Casemiro. “Por ser um trabalho recente, ainda não há estimativas de mercado”, informou a assessoria de imprensa da operadora, que é parceira da Abrat-GLS e da ILGA. Em 2008, entre 3% e 5% do orçamento está sendo aplicado exclusivamente nesse mercado. Os destinos mais procurados pelos clientes da operadora são Florianópolis, São Paulo e Rio de Janeiro, no Brasil; Nova Iorque, Miami, Paris e Londres; no exterior.


Parada do Orgulho LGBT são Paulo - 2008 Crédito: Caio Silveira/SPTuris

Parada do Orgulho LGBT são Paulo - 2008



Florianópolis... Crédito: Divulgação/Santur

Florianópolis...



... Salvador... Crédito: Christian Knepper/Embratur

... Salvador...



... e São Paulo estão entre os destinos mais procurados (e preparados) no Brasil Crédito: Christian Knepper/Embratur

... e São Paulo estão entre os destinos mais procurados (e preparados) no Brasil



“Uma pesquisa apontou que o fator que mais os influencia nas decisões de compra é o atendimento, seguido pela qualidade do hotel. O preço só aparece em terceiro lugar” – Franco Reinaudo, presidente da Abrat-GLS Crédito: Divulgação

“Uma pesquisa apontou que o fator que mais os influencia nas decisões de compra é o atendimento, seguido pela qualidade do hotel. O preço só aparece em terceiro lugar” – Franco Reinaudo, presidente da Abrat-GLS


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