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Tendência

A vez do sudeste

Após o Nordeste concentrar as atenções dos investidores nos últimos anos, a maior região emissora turística do País prepara seu próprio plano de desenvolvimento integrado

Dunas de Itaúnas (ES) Crédito: Humberto Capai

Em tempos de crise do setor aéreo, que vem trazendo transtornos aos turistas brasileiros em férias, incentivar o turismo de curta distância – com menos horas de vôo ou de outros meios de transporte – é uma idéia mais que bem-vinda, tanto para os viajantes como para os profissionais do setor. É a partir dessa oportuna premissa que começam a tomar forma os projetos da Adetur/SE – a Agência de Desenvolvimento do Turismo da Macrorregião Sudeste do Brasil.

Criada em fevereiro de 2006, com sede em Vitória, a agência tem a missão de incentivar os habitantes dos quatro Estados vizinhos – São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio – a trocarem as viagens para praias nordestinas e destinos no exterior por atrações dentro de sua própria região. A palavra de ordem é integração. A idéia principal é criar facilidades de locomoção dos turistas nativos entre as fronteiras estaduais, além de oferecer preços convidativos nas atrações e em cidades do circuito turístico. Além disso, objetiva estimular o desenvolvimento dos negócios de turismo na região e, conseqüentemente, o crescimento das empresas que atuam em toda a indústria turística – hotelaria, gastronomia, agências de viagens, parques temáticos, aviação, transporte rodoviário, entre outros segmentos.

“Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT), 80% do turismo são de viagens de curta distância, na chamada zona de conforto, com percursos de seis horas de duração no máximo. Ou seja, temos de incentivar esse turista do Sudeste a viajar para sua própria região. Se movimentarmos 10% desse mercado, já será um impacto fabuloso”, garante Alain Baldacci, presidente da Adetur/SE e diretor-executivo do Sindicato Nacional de Parques e Atrações Turísticas (SINDEPAT). A diretoria se completa com integrantes em outros Estados do Sudeste. O vice-presidente da agência, Alexandre Sampaio de Abreu, é também vice-presidente da ABIH-RJ e presidente do SindRio (Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Município do Rio). Hernanni de Castro Júnior, de Minas, é diretor de Projetos e Operações da Adetur/SE e também vice-presidente da Federação de Convention & Visitors Bureaux de MG. Na sede em Vitória (ES) os trabalhos da Adetur/SE são coordenados por duas executivas, sendo uma do poder público – a subsecretária de Turismo do Espírito Santo, Márcia Abrahão – , e outra do setor privado – Cecília Milaneze, da UBRAFE (União Brasileira dos Promotores de Feiras).

A Adetur se vale dos números da região para comprovar seu potencial. Os quatro Estados do Sudeste concentram nada menos que 30% dos municípios do País, 40% da população brasileira, 55% do PIB, 52% do turismo receptivo, 67% do turismo emissivo. O trade regional detém também 56% das agências de viagens, 49% dos meios de hospedagem e 46% das empresas de transportes. Para promover o turismo integrado na região, a Adetur/SE começa a colocar em prática projetos que disponibilizarão produtos tentadores a qualquer viajante, tais como tarifas aéreas de preço unificado para qualquer trecho entre os Estados, pacotes com descontos e serviços especiais de informação aos viajantes.

O programa-âncora é também o mote da campanha de marketing da agência de desenvolvimento, conhecido como VISITE-SE – uma união da frase incentivadora “Visite o Sudeste” com a própria sigla da região (SE). O produto principal, que servirá de elemento integrador de todos os benefícios, é o chamado Passaporte Sudeste, que garantirá o acesso dos turistas aos 2.500 estabelecimentos inicialmente cadastrados e seus descontos. Outro projeto que a Adetur/SE pretende colocar em prática em pouco prazo é o Sudeste Air Pass, concebido em parceria com a Abetar (Associação das Empresas de Transportes Aéreos Regionais) que permitirá ao turista viajar dentro da malha área da região, pagando unicamente R$ 99 por trecho. Já o Cruzeiro Rodoviário visa oferecer linhas circulares de ônibus que façam diariamente os destinos dos circuitos turísticos do Sudeste.

Baldacci exemplifica: “Se a pessoa morar em Juiz de Fora, em Minas Gerais, poderá pegar o circular, por exemplo, e descer em Brotas (SP) para visitar os filhos por alguns dias. Depois, pode embarcar no circular do mesmo ponto em Brotas e ir a Paraty”. Outra iniciativa é a chamada Chave das Cidades, que garantirá o acesso via internet a um banco de dados com cadastramento inicial de 2.500 estabelecimentos, apresentando os tipos de turismo oferecidos em cada cidade, hotéis, atrações, shoppings, sistemas de reservas, etc.

Para garantir a implementação da infra-estrutura, o presidente da Adetur-SE explica que a união com as entidades do setor é fundamental para afastar obstáculos físicos e burocráticos que impedem hoje a aplicação do programa. No caso do Air Pass, existem normas restritivas dentro da chamada Lei de Suplementação Tarifária Aérea, como a que determina que se façam duas paradas no mínimo por rota aérea. É necessário também reativar várias linhas regionais que deixaram de ser operadas por serem deficitárias.

O Cruzeiro Rodoviário também enfrenta problemas, principalmente com a temida Resolução 1166, proposta pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), com o objetivo de proteger os ônibus de linhas regulares das ações clandestinas. “A nova redação foi rechaçada veementemente, em audiência pública, porque inviabilizaria por completo a atividade de fretamento”, afirma o presidente da ANTTUR (Associação Nacional de Transportes Turísticos e Fretamentos), Martinho Ferreira de Moura, parceiro na integração da região.

O dirigente diz estar otimista de que, após a audiência pública, uma nova resolução não incluirá essas medidas que engessariam o setor. “Defendemos o ordenamento do setor mas com critérios adequados, sem inviabilizar as transportadoras turísticas que atuam de forma lícita”, acrescenta. Pela lei atual, já existem restrições como a que obriga o passageiro a embarcar somente no estado de origem da viagem fretada. Moura salienta que, pela proposta rechaçada, por exemplo, a empresa de fretamento turístico precisaria comunicar a viagem e entregar a lista de passageiros com cinco dias de antecedência. Hoje também é permitido substituir até quatro nomes de passageiros – condição inexistente na resolução 1166.

Também na luta contra o engessamento do turismo rodoviário está a ABAV (Associação Brasileira de Agências de Viagens). “Nossa consultoria jurídica tem feito um ótimo trabalho para defender o setor”, explica Edson Ruy, diretor da ABAV Nacional. “Ao invés de resolver o problema com mais fiscalização aos clandestinos, a ANTT queria propor uma legislação que impedia a atividade turística”, critica. Atuante no Espírito Santo, Ruy vê a integração como um futuro mais promissor. “O momento de integração é propício porque os governadores já iniciaram isso no setor de segurança”, diz.

Além da viabilização dos novos produtos turísticos, a Adetur/SE iniciou um estudo para resolver as discrepâncias tributárias. Como solução, irá propor aos governadores o chamado Programa de Equalização Tributária Regional para o Turismo, que levará em conta sempre as alíquotas mais baixas dos Estados para os diversos setores da atividade como, por exemplo, os impostos sobre emplacamento de veículos turísticos, sobre o setor de gastronomia, querosene de aviação, entre outros. O Sul e o Nordeste já avançaram nessa união, enquanto estamos ficando para trás”, alerta Alain Baldacci.

Além do presidente da Adetur-SE manter a entidade atualizada sobre as condições turísticas de São Paulo, outros integrantes da diretoria fazem o mesmo em seus respectivos Estados. O vice-presidente Alexandre Sampaio terá a incumbência de sensibilizar o novo secretário de Esportes fluminense, Eduardo Paes: “Não achamos que a vinculação do setor à pasta de Esportes seja em detrimento do turismo. É uma conjuntura sinérgica, que visa potencializar o Pan 2007”, diz Sampaio. Ele destaca que o Rio deve ter prioridades para o turismo integrado, “principalmente com maior oferta de vôos para o Rio, construção de centros de convenções de médio porte e um calendário de eventos estadual”.

Em Minas Gerais, a situação é mais privilegiada, a partir da criação da Secretaria de Turismo e a escolha da empresária hoteleira Érica Drumond para garantir sinergia das ações. Por essa razão, a primeira reunião de sensibilização dos projetos da Adetur/SE ocorreu em Belo Horizonte, no gabinete da nova secretária e com a presença de líderes do trade. “Como profissional atuante, Érica já sabe da importância da integração. Ela será uma importante aliada à implantação dos projetos”, avaliou Hernani de Castro Júnior, diretor da Adetur/SE. Ele considera as regiões limítrofes como mais promissoras para o turismo integrado. Como prioridades, Castro cita a melhor conservação da malha rodoviária de MG e aumento da sinalização.


Pão de Açúcar (RJ) Crédito: Divulgação Riotur



“Temos de incentivar o turista do sudeste a viajar para a sua própria região. Se movimentarmos 10% desse mercado, já será um impacto fabuloso.” – Alain Baldacci, presidente da Adetur/SE Crédito: Divulgação



“O momento de integração é propício porque os governadores já iniciaram isso no setor de segurança.” – Edson Ruy, diretor da ABAV Nacional Crédito: Divulgação



“O Rio deve ter prioridades para o turismo integrado, principalmente com maior oferta de vôos.” – Alexandre Duarte, vice-presidente da Adetur/SE



Anya Ribeiro Crédito: Divulgação


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