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Tendência

A arte do encontro

Em Porto Alegre, a série Destinations encerrou a fase brasileira com um saldo positivo, dando ao tema do turismo a sua real dimensão

Crédito: Reprodução

O Fórum Mundial de Turismo para Paz e Desenvolvimento Sustentável continua a ser um pacto em prol de uma causa: “Realizar o potencial da força transformadora que é o turismo, uma das maiores atividades econômicas do mundo, capaz de ressoar em esferas múltiplas da vida e dos desafios da contemporaneidade”. A frase foi pronunciada por Sergio Foguel, presidente da Fundação Turismo para Paz e Desenvolvimento Sustentável e do Instituto de Hospitalidade, por ocasião do 1º Encontro Anual do Fórum Mundial de Turismo, o Destinations2004, realizado há dois anos em Salvador (BA). A terceira edição do encontro anual, recém-encerrada, ocorreu em Porto Alegre (RS) e provou que o Fórum Mundial continua a ser um pacto por uma causa. Uma nobre causa, enfatize-se, pois o turismo, reafirma Foguel, é a melhor solução para que se alcance o desafio com que se defrontam os governantes brasileiros: criar 1 milhão de novos empregos por ano. “Se isso não ocorrer, e não está ocorrendo, os jovens vão para a informalidade, se não para o ilícito”, preocupa-se. “O turismo pode contribuir, pois gera renda e desenvolvimento.”

A importância do 3º Encontro Anual do Fórum Mundial de Turismo para Paz e Desenvolvimento Sustentável, o Destinations2006, amplia-se ainda mais quando se pensa que, neste momento, em todo o mundo, há a necessidade de se criar 20 milhões de postos de trabalho por ano. “O turismo é uma indústria limpa e a melhor alternativa para gerar emprego à disposição”, entusiasma-se Foguel, ele que foi um dos idealizados do Fórum Mundial, iniciativa da Fundação Turismo para Paz e Desenvolvimento Sustentável, Ministério do Turismo e Organização das Nações Unidas, além do Instituto de Hospitalidade, o parceiro executivo. Sem contar que a atividade turística vem carregada de pontos positivos – há também os negativos, que a conscientização coletiva se encarrega de coibir -, como a valorização da cultura local e de seus agentes, o respeito à cor regional, a própria essência da atividade. A série Destinations existe para reunir especialistas e intercambiar experiências. Cerca de 5 mil pessoas, entre empresários, profissionais, acadêmicos e estudantes, representantes de agências governamentais, não-governamentais e profissionais do terceiro setor, representando mais de 40 países, participaram do encontro gaúcho. E cerca de 120 casos mundiais ligados ao turismo sustentável, na forma de painéis (19), eventos integrados (27) e pôsteres (cerca de 60), foram expostos.

#I1# Experiências de sucesso

Tudo é turismo! Esse foi o fio condutor dos casos colocados na mesa. Tal qual dizia a carta do escrivão português Pero Vaz de Caminha, a “certidão de batismo” do país, que garantia ser o solo brasileiro tão fértil que, em se plantando, tudo dava, a atividade turística pode brotar até no deserto – como de fato ocorre em alguns países, que despertam o sheik de Agadir que mora nas pessoas. O turismo britânico, por exemplo, incorporou a sua agenda best sellers, posteriormente transformados em filmes de sucesso, como Harry Potter e O Código da Vinci. Há, sim, roteiros em torno das aventuras do pequeno bruxo criado pela escritora J.K.Rowling e circuitos que percorrem os cenários ingleses do thriller religioso de Dan Brown. O painel Turismo e Indústria Cinematográfica mostrou como o cinema ajudou a alavancar o turismo no Reino Unido e na Nova Zelândia. Michael Clewley, do Visit Britain, explicou como funciona a já consistente experiência britânica de promover o turismo por meio do cinema, via filmes como Orgulho e Preconceito e os da série Harry Potter. Ele também expôs um estudo de caso sobre O Código Da Vinci, o livro e o filme.

Já Lindsay Shelton, da Film Commission da Nova Zelândia, mostrou como esse órgão, ao conceder empréstimos para produções rodadas no país da Oceania, trouxe benefícios diretos ao turismo, despertando o interesse de platéias de todo o mundo. Um exemplo é a trilogia O Senhor dos Anéis, inteiramente produzida no país e em parte responsável pelo incremento do fluxo turístico – em um ano, houve um aumento superior a 15% do movimento. O fator moda, e o sucesso desses filmes é um exemplo, costuma despertar o interesse das pessoas e levar contingentes de visitantes a determinados destinos na ordem do dia. Da mesma forma, estar fora de moda costuma afugentar os visitantes. Um exemplo são os Estados Unidos, que, a alguns anos do fatídico 11 de Setembro, e por causa de certas medidas arrogantes e/ou duvidosas, como a invasão do Iraque, foi perdendo seu prestígio mundo afora. Hoje, a par de medidas pouco simpáticas – pesquisa mundial promovida pela Discover America Partnership, grupo organizado para melhorar a imagem do país no exterior, concluiu que não há lugar mais hostil ao estrangeiro -, tratando cada turista como se fosse um terrorista em potencial, o país perde terreno no setor turístico.

Os casos ligados à indústria cinematográfica ilustram a importância do Fórum, que existe justamente para trocar experiências, sugerindo que se aproveite, com as devidas adaptações, o que deu certo lá fora. O Brasil se ressente do poder negativo de um filme como Turistas, produção americana que deixa mal o destino Brasil, a ponto de a Embratur tomar medidas para aliviar o, digamos, prejuízo. De outro lado, o país nada fez e nada faz para, por exemplo, ainda se valendo do universo do cinema, projetar-se como a terra da cantora Carmen Miranda, a “brazilian bombshell”, que, há mais de 50 anos da morte, continua a gozar de uma imagem de alegria e otimismo mundo afora. Cadê os roteiros Carmen Miranda no Rio de Janeiro e Bahia? Como o cinema, foram colocados em discussão inúmeros casos que contribuem para alavancar a atividade, abrindo frentes que beneficiam novos contigentes da população. Veja-se o painel Produção Associada ao Turismo – Gastronomia, destacando iniciativas no Brasil, Grécia e Índia. A série de livros Caminhos do Sabor, de Rusty Marcellini, retrata a diversidade brasileira por meio da gastronomia, destacando a Rota dos Tropeiros, que começa em Viamão (RS) e vai até Sorocaba (SP), e que gerou pratos como o arroz tropeiro, preparado pelos condutores das tropas.

Na Grécia, na ilha de Creta, existem os Santuários Culinários, um programa que conjuga roteiros gastronômicos e passeios culturais para grupos. Na Índia, no Estado de Kerala, há o Circuito das Especiarias. Exemplos, e histórias, que podem ser adaptados a outros lugares, juntando a gastronomia, a conservação ambiental, a preservação histórica e o desenvolvimento comunitário. É uma equação na qual, montada com consciência e levando em considerações as premissas do turismo sustentável, ninguém, a rigor, perde – e todos ganham. Até os deficientes físicos, e outros segmentos sempre esquecidos da população, ganham. O painel Acessibilidade no Turismo tratou disso, ao apresentar, entre outros, um projeto desenvolvido em Goiás, com trilhas ecológicas aptas a receber deficientes visuais, contribuindo para sua inclusão social – a trilha Peba, no Parque Estadual Altamiro de Moura Pacheco, é uma das primeiras preparadas com essa finalidade, dispondo de cordas-guias e placas informativas em braile sobre a fauna e a flora da região.

#I1# Implantação concluída

Quando o Brasil se prepara para receber 9 milhões de turistas estrangeiros por ano, ainda que, freqüentemente, notícias de ocorrências negativas turvem o panorama, há que comemorar a trajetória do Fórum Mundial de Turismo para Paz e Desenvolvimento Sustentável, uma iniciativa brasileira com um conselho internacional. E muito foi feito, com participação das esferas públicas – a ponto de parte do trade pedir a permanência de Walfrido dos Mares Guia no Ministério do Turismo – e privadas. O Destinations2006, como as edições precedentes, marca também o fato de, cada vez mais, o turismo ser tratado como alternativa econômica séria. O 3o Encontro Anual encerra a fase brasileira e é possível arriscar um balanço da atividade do Fórum Mundial, um “movimento permanente e contínuo que, por meio do turismo, promove o desenvolvimento econômico e social, a valorização da diversidade cultural, a preservação da biodiversidade e a criação de condições para que a paz prevaleça”. Ao invés dos conflitos provocados pelo desconhecimento, como os que surgem do estranhamento Ocidente-Oriente, a paz embutida na aceitação do outro e na tolerância – elementos que o turismo promove.

Para Foguel, o evento gaúcho completa uma etapa: a implantação. “Houve a conscientização da importância do turismo como fator que pode promover a paz e o desenvolvimento sustentável. Vários segmentos da sociedade não tinham, e não têm, idéia da abrangência do setor. Começa-se a perceber o quanto é vasto e impactante.” Impactante, pois o turismo interage com 52 setores da economia e, no Brasil, em mais de 90% dos empreendimentos, compreende micros e pequenas empresas. Tudo é turismo! Da mesma forma, luta-se para que vigore o slogan democratizante “O turismo é de todos”. Segundo Foguel, cumprida a etapa da implantação, começam-se a ver resultados, mais pessoas e países se envolvem. Em 2002, em Johannesburgo, África do Sul, a Organização Mundial do Turismo lançou o desafio de converter o turismo numa das maiores armas de combate à pobreza. O Movimento Brasil de Turismo e Cultura foi o primeiro projeto inspirado nos conceitos e ideais do Fórum, e, ativo em dezenas de localidades, empenha-se em promover o desenvolvimento sustentável e a valorização da cultura.

“O Fórum Mundial já produziu avanços que impactam diretamente nas políticas públicas, nas decisões empresariais e em alianças comunitárias”, afirma Sergio Foguel. O destaque dado à questão da exploração sexual infanto-juvenil, e ao turismo sexual de maneira geral, é um exemplo. O combate a essa prática aviltante, com danos sociais, culturais e de saúde evidentes, foi encampado pelas empresas e órgãos do setor – 15 países latino-americanos procuram trabalhar de forma conjunta em relação ao problema. Outra questão colocada no fórum foi a preservação do patrimônio histórico, artístico e cultural, que se espelha na experiência internacional, como aquelas desenvolvidas na Europa. Um palco privilegiado para conhecer as melhores práticas vigentes em várias partes do mundo, tornando a questão do turismo, efetivamente, de abrangência mundial, já que os problemas, e soluções, repetem-se em todos os continentes. O futuro é promissor, pois o turismo pode promover a inclusão social. Apesar do panorama róseo, apesar de ser a maior atividade geradora de oportunidades de trabalho e renda, a maioria dos países – incluindo-se regiões brasileiras – ainda não está minimamente organizada para o turismo.

O desafio é a escala, reconhece Foguel. As experiências são criativas e exemplares, mas como multiplicá-las mundialmente? “Por isso convidamos líderes, em diversas áreas, para construir essas soluções, que passam por políticas públicas e acordos intergovernamentais. De qualquer maneira, estou feliz com as perspectivas. O Fórum Mundial saiu do bate-papo e ganhou projeção mundial. Quando a gente vê que isso funciona, que dá certo… O mínimo que se pode dizer é que dá a sensação do dever cumprido, de que, em tempos difíceis, não se adotou a postura de um avestruz, enfiando a cabeça na areia.

Encerrada a etapa brasileira, é esperar que, nos demais países, o movimento continue empenhado em reforçar o turismo internacional – a Rede das Boas Práticas em Turismo Sustentável, Sustainable Tourism Net, anunciada no Destinations2006, criada para dar continuidade ao intercâmbio de idéias entre os participantes e promover discussões, é uma iniciativa nesse sentido.

Graças aos homens de boa vontade, o turismo poderá ser a indústria da liberdade, ao invés de ser, como foi discutido num dos painéis do 3o Encontro Anual, o próximo predador social.


Sessão plenária do Fórum Mundial de Turismo Crédito: Divulgação



“O turismo representa uma oportunidade concreta de crescimento e os jovens estarão cada vez mais envolvidos com essa atividade.” – Lelei LeLaulu, Presidente da Counterpart International (ONG) Crédito: Flávio Mendes Bitelman



“O Fórum Mundial de Turismo já produziu avanços que impactam diretamente as políticas públicas, as decisões empresariais e alianças comunitárias.” – Sergio Foguel, presidente da Fundação para Paz e Desenvolvimento Sustentável e ex-presidente do Instituto de Hospitalidade Crédito: Flavio Mendes Bitelman



Ministros Gilberto Gil e Walfrido dos Mares Guia na sessão de encerramento Crédito: Divulgação



Ângela Balbino, secretária de Turismo da Prefeitura Municipal de Porto Alegre Crédito: Flavio Mendes Bitelman



No painel Olhar do Viajante, presença de jornalistas e pesquisadores


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