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Observatório

Podemos prevenir a nova onda de prostituição de crianças no Nordeste

Divulgação

O Brasil acordou nos últimos anos para o turismo e descobrimos o nosso potencial, tanto para brasileiros quanto para estrangeiros. De uma indústria relegada, o turismo pode alcançar, nos próximos 20 anos, uma das pole positions no país. Apostando no Brasil como um dos mais promissores destinos turísticos mundiais, vários grupos hoteleiros estão instalando ou planejando grandes resorts por toda a costa do Nordeste.

Junto com o inegável crescimento econômico que advirá, temos o dever de prevenir os inevitáveis efeitos colaterais desse desenvolvimento. Um dos mais preocupantes é a prostituição infantil. Numa região pobre, sem perspectivas de vida para os excluídos, a vinda de um grande número de turistas, infelizmente, estimula essa prática. A melhor e mais barata tática para minimizar esse grande problema social em nosso país é a prevenção.

Sabemos que a instalação de resorts, por concentrar um grande número de turistas, contribuirá para aumentar essa problemática. Sabemos também que os empreendimentos gerarão divisas para a região e que obviamente o capital será remunerado e, de preferência, por um bom espaço de tempo. Entretanto, se a região começar a ter prostituição infantil, gravidez em crianças e adolescentes, bebês abandonados e em situação de risco, assaltos e aumento do consumo de drogas, o resultado, sem considerar os impactos sociais, poderá ser a evasão dos turistas, o que se constituirá em pesadelo para os investidores hoteleiros. Já vimos situação semelhante na República Dominicana, onde o risco social fez com que os resorts criassem uma barreira de arame entre turistas e a comunidade local.

O que dizer do Brasil, onde as pesquisas apontam que o maior produto turístico é o brasileiro? Será que os turistas estrangeiros vão querer ficar enclausurados nas dependências do resort? Não quererão conhecer a rica vida brasileira que pulsa fora das cercas? A solução para esse problema está na responsabilidade do investidor hoteleiro. Ao fazer seu planejamento, cabe a ele a tarefa de realizar um estudo de impactos sociais (EIS) e gerar um relatório desses impactos (RIS) de maneira a antever o que acontecerá com as pessoas do entorno, com os trabalhadores e com suas famílias. O projeto deve incluir todos no processo de desenvolvimento que o resort irá iniciar, e não se trata apenas de prever ações assistencialistas, mas de dar oportunidades para todo o contingente de pessoas que serão afetadas. Valorizando-as, resgatando sua auto-estima e incluindo sua herança cultural no planejamento de produtos turísticos. Tendo-se em mente que o povo local é ingrediente da mais alta qualidade.

Os gastos dos empreendedores com esses estudos e com as soluções preventivas serão pagos pelos clientes e pela extensão do ciclo de vida do empreendimento, que está absolutamente amarrado à manutenção da saúde social do destino. Não é mais viável para um empreendedor olhar só para seu hotel, pois o cliente olha para o destino como um todo. E o Brasil, como país jovem no turismo, tem a chance de buscar uma atividade saudável, rica e multilateralmente enriquecedora, valores para os quais o mundo olha cada vez mais.

No momento em que ganhamos o prêmio ECO da Amcham pela Campanha contra a Exploração Sexual de Crianças no turismo, sentimos que podemos e devemos fazer mais. Queremos juntos mudar a realidade do turismo em nosso país. Fazer dele um instrumento de geração de renda para todos os envolvidos, de respeito às nossas crianças e às comunidades, de maneira que estas sejam integradas e possam contribuir para a saúde do destino. Mas isso só ocorrerá se elas se sentirem incluídas, co-autoras de seus destinos e de sua história, gerando um senso de pertencer. Esse é o turismo que vislumbramos, para o país que queremos.

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