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Observatório

A odisséia dos lunáticos

Mario Sergio Cortella é filósofo e professor titular do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP

Em meados do século IV do calendário comum nasceu na Dalmácia – uma antiga província romana que corresponderia hoje ao belíssimo litoral e ilhas da Croácia, no mar Adriático – um menino que foi chamado Jerônimo. Durante seus 73 anos de vida foi incansável caminhante. Jovem ainda, mudou-se para Roma, às margens do Rio Tibre, onde aderiu ao cristianismo; de lá foi para Tréveris, um porto na Gália, e depois, ainda na Itália, voltou para a beira do Adriático, em Aquiléia (cidade que Átila um dia destruiu), até ficar um tempo no deserto de Cálcida, na Síria. Da vida eremítica partiu direto para Constantinopla (agora Istambul), entre o Mediterrâneo e o Mar Negro, vivendo ali alguns anos até se mudar para Belém, na Judéia, onde morreu em 420.

Jerônimo, homem de mente ampla e espírito acolhedor, viajou, experimentou, aprendeu, ensinou, respeitou, meditou. Tornou-se afamado por ter traduzido com extremo cuidado a Bíblia cristã para o latim, apoiando-se diretamente nos textos em hebraico e cotejando-os com versões greco-judaicas; adotada oficialmente pela Igreja Católica, essa tradução ficou conhecida como Vulgata (editio vulgata, isto é, edição divulgada).

Foi exatamente esse grande teólogo que criou uma das palavras mais curiosas para designar alguém que seja considerado maluco ou avoado; por entender, como muitos na época, que uma pessoa perturbada ou inquieta sofria influência da Lua, usou o termo lunaticus. Esse vocábulo servia para identificar tanto os suscetíveis às fases lunares quanto os que estavam sempre “no mundo da Lua”, ou seja, com o pensamento viajante.

Aliás, lunáticos sempre o fomos, pois, desde os tempos imemoriais, quisemos ansiosamente chegar até a Lua, por ela fazer um tour, nela sermos turistas; por milhares de anos seguidos, ainda que vivendo na imensa e desconhecida Terra, fixamos um contraditório olhar nostálgico “naquele outro lugar”, distante de nós, mas, por isso mesmo, diferente, inédito, sedutor. Nem conseguíramos estar por todo o planeta no qual somos usuários compartilhantes da Vida e já procurávamos ir mais além.

Um dia, em pleno século XX e homenageando a divindade grega Apolo – deus também da luz e identificado ao Sol –, a humanidade vivente no norte da América inventou um jeito eficaz de ir até a Lua. Durante muitos anos, 17 naves do Projeto Apollo percorreram os aproximados 380 mil quilômetros que nos separam do satélite natural, sendo que sete delas (Apollo 11 até 17, sempre com três pessoas a bordo) deveriam nele pousar, embora apenas seis o tenham conseguido, em função da falha na 13.

A primeira que lá chegou em julho de 1969, permitiu que apenas dois dos humanos nela pisassem, dado que o terceiro precisava ficar no equipamento em órbita; assim foi com as outras Apollo, até que, em dezembro de 1972, os dois últimos lá puseram os pés. Doze astronautas, e somente 12, na Lua estiveram. Nunca mais voltamos. Agora, queremos chegar a Marte!

Navegadores entre os astros, astronautas! Essa palavra foi criada por Julio Verne, que morreu há quase 100 anos, um estupendo turista literário; seus livros são tão clássicos que, nos nossos tempos, parecem títulos de reportagens sobre turismo: Cinco semanas num balão, Viagem ao centro da Terra, Da Terra à Lua, Vinte mil léguas submarinas, A ilha misteriosa, A volta ao mundo em 80 dias. Toda essa obra nos provoca continuamente a gana por vagar pelos mundos. Vagamundo, estar por aí, dar um giro, vagabundo (em grego,
planetés, sentido original de planeta).

Astronautas somos, argonautas fomos. Os Argonautas! Música lusiádica gerada por Caetano Veloso, e que na primeira estrofe lembra “O barco, meu coração não agüenta / Tanta tormenta, alegria / Meu coração não contenta / O dia, o marco, meu coração, o porto, não / Navegar é preciso, viver não é preciso”. Cita, de propósito, uma referência feita pelo insubstituível Fernando Pessoa, que em poema sem data e sem assinatura, Palavras de Pórtico, chama de glorioso esse verso final proclamado por navegadores antigos.

Afinal, “Navegar é preciso, viver não é preciso”, escreveu Plutarco na Vida de Pompeu, foi a resposta do grande general aos marinheiros que, ante uma tempestade, queriam impedir seu embarque.

Os argonautas! Na mitologia grega, heróis que velejaram na nau Argó para recuperar e dominar o mundo conhecido; da nau vem também o nome Argos, o cão de Ulisses que morre logo após reconhecê-lo no retorno, depois de mais de dez anos em que partira o dono para a Guerra de Tróia. O relato dessa maravilhosa epopéia repleta de surpresas, lugares, paisagens, perigos está presente nos 24 cantos da Odisséia, atribuída ao cego (imagine!) Homero, que resolveu cantar os percursos e percalços de Odisseus (chamado Ulisses em latim), navegador compulsório e errante intencional. Sempre achei que esses semideuses e heróis gregos eram meio lunáticos; aquela história de que foram até Tróia apenas para recuperar Helena dos braços de Páris, seu raptor, não faz muito sentido. O que eles queriam mesmo, tal como nós desde os primórdios, era viajar…

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