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Opinião

O que falta para o turismo brasileiro decolar?

Personalidades do trade opinam sobre o turismo brasileiro e dizem quais são os fatores que fariam com que o Brasil recebesse mais visitantes

Nove milhões de visitantes em 2006. A meta do Ministério do Turismo é ambiciosa, mas faz jus a um país com potencial para ser um dos maiores destinos turísticos do mundo. Ao contrário do que acontece hoje, quando o Brasil recebe pouco mais de 0,5% do contingente de pessoas, 700 milhões, que viajam para fora de seus países anualmente. As paisagens brasileiras, tanto a natural quanto a humana, a histórica, a artístico-cultural, são das mais ricas que existem e, ao contrário de países que se orgulham de sua coesão e homogeneidade, incrivelmente heterogêneas – por isso, animadas, cativantes, surpreendentes.

O que falta, então, para o turismo brasileiro deslanchar? Host fez a pergunta a personalidades do trade e obteve, em suas respostas, quase um diagnóstico do estado atual do turismo brasileiro. A par de problemas que vão da distância à segurança pública, da infra-estrutura à sinalização, destaca-se a necessidade de investimento em marketing. O Brasil consegue receber menos turistas do que destinos que pouco têm a oferecer, como Cingapura e Dubai. Como reconhece Roberto Dultra, presidente da Brazilian Incoming Tour Operators (Bito), “mais de 90% dos negócios que perdemos são ganhos por outros destinos”.

#I1# Sem Improvisação

Isa Garbin, superintendente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (ABAV)

“Planejamento é antítese de improvisação. O turismo brasileiro conta com um estratégico Plano Nacional de Turismo. Atualmente, a fase executiva do plano é cumprida, levantadas as dificuldades e carências do setor. Faltam ainda: meios suficientes no setor de transporte; capacitação e certificação de RH; financiamentos próprios e infra-estrutura nos destinos turísticos, como segurança, sinalização e até saúde pública. Todos esses entraves estão contemplados como passíveis de soluções no plano. O desafio é que seja bem executado e monitorado. Como? Com rigor, metodologia e tomada de consciência, pois o fracasso de uma ação influenciará negativamente o resultado de outra.
Potencializar o destino turístico, por exemplo, e não viabilizar meios de transporte suficientes nem qualificar adequadamente o RH para as diversas gamas de atendimento é prejudicar o plano em seu todo. O Brasil já evoluiu muito. Agora há um ministério específico, com assertiva política pública, e ocorreu a redefinição de funções da Embratur. Os empresários estão atuantes e investindo, acreditando na parceria público-privada. O número dos meios de hospedagem, já existentes e recém-inaugurados, com padrão de qualidade; as operações de turismo para a próxima temporada, à disposição, nas agências de viagens; as inovações na oferta (eis aí a realidade dos cruzeiros marítimos) – tudo leva a crer que os motores estão aquecidos, preparando o turismo brasileiro para a decolagem pretendida. Cuidar da imagem do Brasil, aproveitar a onda de “o Brasil está na moda”, está mais do que na hora.”

#I1# Planejamento e Marketing

Marcelo Bicudo, diretor de Marketing da Atlântica Hotels International.

“Parece simples dizer que o turismo brasileiro tem um potencial enorme e que poderia se tornar uma mina de ouro como é de fato em outros países. Questiona-se por que o Brasil não compete com destinos muito menos
favorecidos por belezas naturais, mas que desenvolvem um trabalho com resultados extremamente superiores aos nossos. Isso sempre nos intriga e nos faz pensar qual a causa pela qual ainda não chegamos a tais números. Acredito muito no potencial do turismo brasileiro, mas talvez poucos percebam que seu desenvolvimento está diretamente atrelado a outros segmentos, como educação, infra-estrutura, malha rodoviária, rotas aéreas, entre outras áreas que devem girar com qualidade em torno da indústria do turismo como garantia de seu pleno funcionamento.
Isso, porém, não justifica os resultados tímidos da indústria do turismo brasileiro. Em minha opinião, para reverter esse quadro devemos ter um plano estratégico bastante complexo, que envolva duas grandes frentes: investimentos nas áreas relacionadas à infra-estrutura dos destinos e nos profissionais do setor, para que se garanta a qualidade dos serviços. Outra prioridade é um bom trabalho de marketing com parcerias nacionais e internacionais, que otimize a divulgação do destino Brasil a ponto de torná-lo um objeto de desejo do turista doméstico e internacional de lazer e uma preferência entre as empresas para a realização de eventos.”

#I1# Apoio do Governo

Roberto Dultra, presidente da Brazilian Incoming Tour Operatiors (Bito)

“Creio que podemos apontar várias necessidades para a decolagem do turismo receptivo brasileiro. Entre elas, eu destacaria o maior apoio do Ministério das Relações
Exteriores, no sentido de facilitar a obtenção do visto de turista, principalmente a cidadãos norte-americanos; reconhecimento efetivo por parte do governo de que a indústria do turismo é uma excelente e inesgotável fonte de exportação; mais investimento na melhoria da infra-estrutura dos portos turísticos, objetivando a atração de cruzeiros marítimos; maior apoio do governo federal às empresas brasileiras de transporte aéreo de passageiros, a exemplo do que fizeram muitos países após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001; redução da pesada carga tributária que recai sobre as empresas de transporte aéreo, meios de hospedagem e agências de turismo receptivo, visando maior competitividade; aumento da oferta de vôos diretos dos principais mercados emissivos para os principais destinos brasileiros; construção de mais hotéis do tipo resort e de luxo, nos moldes do que existe nos principais destinos internacionais; e investimento em propaganda institucional dirigida aos consumidores dos principais mercados emissivos, pois os maiores concorrentes das agências, hotéis e empresas de aviação brasileiros são outros destinos. Só para citar um exemplo, a verba
anual do turismo da Tailândia é de US$ 200 milhões, dos quais US$ 80 milhões são investidos exclusivamente em propaganda institucional dirigida aos principais mercados emissivos.”

#I1# Verba e Divulgação

Eduardo Vampré, presidente do Sindicato das Empresas de Turismo no Estado de São Paulo (Sindetur-SP)

“O trabalho desenvolvido pelo Ministério do Esporte e Turismo, no governo passado, e o que vem sendo feito pela Embratur, neste governo, estão de acordo com as premissas básicas de conquista de novos mercados e aumento dos já existentes. Porém, para que o turismo brasileiro deslanche, falta verba – e muita. Competimos com uma infinidade de destinos. Algumas ilhas do Caribe gastam, somente em Nova York, o que o Brasil gasta para divulgar este imenso país em todos os lugares em que há mercado. Com verba mais polpuda poderíamos ampliar a participação do Brasil nas feiras mundiais, executar um trabalho permanente de preparo de agentes experts em Brasil, a exemplo da África do Sul; enfim, um sem-número de ações que tornariam o país mais conhecido.
Falta também a compreensão para este governo – especialmente do Ministério das Relações Exteriores – para modificar o sistema de concessão de vistos para os norte-americanos e japoneses, em especial, nossos maiores mercados emissores.”

#I1# Iniciativas Simultâneas

Goiaci Alves Guimarães, presidente do Fórum das Agências de Viagens Especializadas em Contas Comerciais (Favecc)

“Para o turismo de fato decolar no Brasil, o que falta é uma política contínua e coerente voltada ao desenvolvimento sustentável da auto-estima dos brasileiros. Dito assim, o diagnóstico parece ser até muito simples, porém a solução dos problemas decorrentes requer uma complexa e coordenada ação de desenvolvimento sustentável da nossa atividade, que já figura como a indústria líder mundial na geração de empregos, no país.
Ao considerar ainda que um destino só é bom para o turista quando é bom para os cidadãos que nele residem, e, mais, que os primeiros e os mais confiáveis veículos de comunicação de uma cidade, sob a ótica do turista, são seus próprios moradores, afirmo também, sem nenhum receio, que toda medida voltada à indispensável melhoria e/ou manutenção da infra-estrutura turística no país requer iniciativas simultâneas de mobilização e a participação direta da sociedade civil organizada.”

#I1# Crescimento Econômico

Klaus Kuhnast, diretor comercial da TAM

“O Brasil já tem um Plano Nacional do Turismo, graças à valorização do setor promovida pelo governo federal com a criação, no ano passado, de um ministério específico para a área. O país também conta com agências de viagem e operadoras de turismo com profissionais capacitados, companhias aéreas, como a TAM, com ampla malha viária e regularidade. O Brasil tem, portanto, boas ferramentas disponíveis para planejar o desenvolvimento responsável e sustentável do turismo. Mas esse é um processo que precisa envolver diversas áreas do governo para, de fato, promover um fortalecimento do setor e alavancar outros segmentos produtivos e gerar riqueza, renda e empregos. Foi dessa forma que outros países conseguiram dinamizar o turismo e transformá-lo na atividade mais importante do setor de serviço e com participação representativa no PIB.
Há ainda outros fatores que precisam ser observados. Uma recente pesquisa da FGV revelou, por exemplo, que o número de desembarques internacionais entre janeiro e outubro deste ano cresceu quase 15%, indicando aumento do número de turistas estrangeiros no Brasil e de brasileiros voltando do exterior. Esse crescimento coincide com um período em que houve aumento da divulgação do Brasil no exterior e melhor desempenho da economia nacional. No caso do turismo nacional, portanto, como ocorre com a aviação, o desempenho do setor está fortemente ligado ao cenário econômico do país. Ou seja, quanto mais o PIB crescer e maior for a renda do brasileiro, mais condições de desenvolvimento terá o turismo.”

#I1# Políticas Públicas

Nely Wyse, coordenadora pedagógica da área de Turismo e Hospitalidade do Departamento Nacional do Senac

“A resposta mais sintética a essa questão é: o desenvolvimento social do país. Existe um cenário, um contexto, uma realidade social, geográfica, econômica e política. Um país de dimensões continentais, com miséria crônica e exclusão social maciça em quatro de suas cinco macrorregiões, com os desdobramentos inerentes a essa condição social: baixa escolaridade, baixo índice de desenvolvimento humano e, num desdobramento dessa situação de violência sistêmica, a violência física a que fica exposta a população local, e que não exclui os turistas.
A região Sul está se beneficiando com a solução desses gargalos e conseguindo fazer decolar o turismo local. Mas existe a exigência de uma priorização política do governo, com o engajamento de todos os ministérios, para reverter as condições sociais e econômicas dos brasileiros das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. Talvez seja oportuno parar de procurar culpados – aviação civil, sistema hoteleiro, falta de qualidade nos serviços, ausência de infra-estrutura e informação – pelo não-desenvolvimento do turismo no país e tomar posição através de políticas públicas de educação básica, fundamental, essencial e de trabalho e renda que resgatem a condição humana dos cidadãos brasileiros, para que estes possam ser vistos pelos turistas. Quando isso se resolver, os turistas virão.”


sa Garbin, superintendente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (ABAV)



Marcelo Bicudo, diretor de Marketing da Atlântica Hotels International.



Roberto Dultra, presidente da Brazilian Incoming Tour Operatiors (Bito)



Goiaci Alves Guimarães, presidente do Fórum das Agências de Viagens Especializadas em Contas Comerciais (Favecc)



Goiaci Alves Guimarães, presidente do Fórum das Agências de Viagens Especializadas em Contas Comerciais (Favecc)



Klaus Kuhnast, diretor comercial da TAM



Nely Wyse, coordenadora pedagógica da área de Turismo e Hospitalidade do Departamento Nacional do Senac


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