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Opinião

É interessante promover a favela como destino turístico?

Pacote do governo federal que prevê construção de pousadas na Rocinha reabre a discussão no mercado sobre o "favelatour", roteiro alternativo na cidade-símbolo do turismo no Brasil.

Divulgação

Duas em cada dez pessoas que vivem na cidade do Rio de Janeiro moram em favelas. São cerca de 800 comunidades, quase dois milhões de pessoas que sobrevivem à falta de esgoto, água potável, saneamento, hospital, escola, segurança, entre outras dificuldades cotidianas. A população é heterogênea. São porteiros, diaristas, sambistas, pedintes, manobristas, engraxates, malabaristas de sinal, balconistas, desempregados. Enfim, um exército de reserva de mão-de-obra barata e pouco qualificada, por vezes submetida ao domínio das quadrilhas de narcotraficantes ou das milícias paramilitares.

De acordo com os últimos dados oficiais do IBGE, de 2000, quando o município do Rio contava com 4,7 milhões de habitantes, nas favelas já viviam mais de um milhão de pessoas. Setenta e três por cento dos chefes de família nesses pontos tinham renda mensal de até dois salários-mínimos, quando a média nacional era de 35,5%. Pois foi neste cenário que há 16 anos surgiu um roteiro turístico inusitado. O turismo de favela também se tornou polêmico por mobilizar turistas, sobretudo estrangeiros, interessados em conhecer uma face da cidade nem sempre maravilhosa, mas muito real.

Quem tem medo das favelas? Atraídos por filmes, telenovelas e romances que glamurizam a vida perigosa nas comunidades cariocas, os turistas estrangeiros procuram cada vez mais conhecê-las. São em média anual 40 mil visitantes, que, nos últimos quinze anos, ao chegarem ao Rio, procuram visitar algumas das 52 favelas da zona sul da cidade, onde, do alto, podem assistir ao espetáculo de beleza natural e ainda levar no diário de bordo e na máquina fotográfica histórias diferentes para contar. O mercado conta hoje com, pelo menos, cinco agências especializadas em turismo de favela. Segundo estimativa desses agentes, o número de turistas que opta por esses roteiros cresce anualmente entre 15% e 20%.

Há quem diga que o “favelatour” ajuda os moradores e comerciantes dos morros cariocas a complementarem a renda. Afinal, os favelados podem vender diariamente a eles seus produtos: artesanatos, guloseimas, camisetas, o que for. E as agências alternativas de turismo garantem que, com parte do dinheiro do passeio, ajudam projetos sociais. Mas há quem se preocupe com a exploração da miséria e a degradação da população das favelas, supostamente transformada em bichos de um exótico safári para gringo aventureiro. Quem assim pensa, acredita que uma cidade tão exuberante em belezas naturais, e tão original em patrimônios históricos e movimentos culturais, não deveria sucumbir ao marketing da favela, do funk, da demagogia politicamente correta.

A polêmica ganhou contornos mais decididos logo no começo do ano. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao classificar os atentados dos traficantes contra a população no Rio como “terrorismo de Estado”, decidiu apoiar financeiramente a maior favela do Brasil, a Rocinha, entre a Gávea e São Conrado, bairros nobres da zona sul da cidade. O pacote de R$ 60 milhões, com a contrapartida de R$ 12 milhões do governo do Estado, prevê a construção de pousadas turísticas na favela e oficializa o roteiro alternativo.

#I1# O turismo social cresce no mundo

“Comecei há 16 anos a fazer roteiros na favela da Rocinha. O passeio, com duração de três horas, feito numa van, tem apoio das comunidades, segurança total e nunca vivemos um clima de tensão na favela. Sei que essa atividade ajuda as pessoas. Visitamos também uma escola, em Vila Canoas, que desenvolve projeto de inclusão digital para crianças e adultos. Ajudamos financeiramente essa escola. E o turismo social cresce no mundo inteiro. Em Nova York, há guias que conduzem passeios pelo Harlem. Na África do Sul, existem passeios por Soweto. Esse turismo também existe em Buenos Aires e no Egito. Por trás das críticas que nos são feitas, existe muita hipocrisia. Há uma demanda, um mercado que, eu diria, atrai hoje 10% dos turistas estrangeiros que chegam ao Rio. O passeio movimenta a economia da favela, o artesanato, o comércio. Já houve suspensão da visita, por causa de conflitos internos, e neste caso os próprios moradores nos ligam para avisar. Mas é muito raro acontecer. Os traficantes nunca se envolveram conosco. Eles têm o negócio deles. Nós temos o nosso. O turismo social rompe preconceitos e orgulha a comunidade.” – Marcelo Armstrong, dono da agência Favela Tour e pioneiro no turismo de favela no Rio.

#I1# Diversidade e alegria popular na promoção turística

“O turismo deve promover a diversidade natural e cultural do Brasil. Essa diversidade, aliada à alegria do povo, é um dos principais atributos do país trabalhados na sua promoção turística internacional. Dessa forma, as peculiaridades e especificidades de cada cidade podem ser de interesse turístico, como ocorre com as favelas do Rio de Janeiro, onde diversos programas sociais envolvem a visitação turística. É importante ressaltar que cabe à cidade, aos seus governantes e dirigentes locais identificar e incentivar ações de desenvolvimento turístico. Como instrumento que promove a geração de renda e de oportunidades, o turismo pode contribuir para a valorização e inclusão dos envolvidos com a atividade, como ocorre com as comunidades das favelas. O próprio ministério do Turismo mantém um projeto interessante em parceria com a Central Única de Favelas – Cufa. Não envolve a visitação turística em favelas, mas a formação profissional de jovens moradores para inserção sócio-econômica na cadeia produtiva. Trocando em miúdos, visa à capacitação em atividades associadas ao turismo, como gastronomia e produção de eventos. Também está ligado à realização dos Jogos Pan-americanos de 2007 e será um legado para esses jovens e suas famílias.” – Jeanine Pires, presidente da Embratur.

#I1# A comunidade precisa ser protagonista

“Sou favorável ao turismo de favela, desde que a comunidade opere esse turismo. É o que ocorre com o projeto Morrinho, na favela do Pereirão, em Laranjeiras, que apoiamos. A partir de uma brincadeira, dois garotos construíram uma maquete da favela, de 120 metros quadrados, mostrando a dinâmica daquele espaço: os movimentos dos moradores, as ruelas, a polícia, o tráfico. É um projeto que já foi para a França, Barcelona e este ano representará o Brasil no festival de Veneza. O Pereirão é uma favela segura, onde o Batalhão de Operações Especiais da PM faz treinamento. O turista pode chegar lá a pé ou de táxi. Sou contra qualquer iniciativa que possa transformar o passeio da favela em ‘safáris’, em que os moradores se sintam explorados. A curiosidade do turista estrangeiro em conhecer a favela existe, é muito grande. E a gente não pode simplesmente dizer não a um pedido do turista.” – Leonardo Rangel, sócio da rede de alojamentos Cama & Café, em Santa Teresa (RJ).

#I1# É oficial: a Rocinha está no roteiro turístico no Rio

“A prefeitura do Rio considera a Rocinha uma atração turística e não vejo como isso possa prejudicar a imagem da cidade. Pelo contrário. Existe uma demanda de turistas para conhecer a favela e esse roteiro turístico já existe e movimenta o comércio local, os artesãos. As pessoas visitam a favela com segurança. Estamos promovendo um curso de hospedagem domiciliar para a cidade inteira. E já há mil residências cadastradas, principalmente por causa da realização do Pan em 2007. A Rocinha, logicamente, também está envolvida nesse contexto de hospedagem domiciliar.” – Rubem Medina, secretário especial de Turismo do Rio de Janeiro

#I1# Uma visita de 1 milhão de dólares

“Nossa agência promove três passeios: favela da Rocinha, baile funk no Castelo das Pedras (Jacarepaguá, zona oeste do Rio) e jogos no Maracanã. Aos domingos, levamos até 60 pessoas ao baile, com direito a transporte, ingresso e camarote. O nosso público-alvo são jovens estrangeiros, 99% deles europeus, que ficam hospedados em pousadas tipo ‘bed and breakfast’. O grupo sobe a favela em mototáxis, compra artesanatos com artistas locais, caminha pelas ruelas e tem uma visão espetacular do Rio. Uma vista de US$ 1 milhão. Ninguém vai promover turismo na favela da Maré (comunidade nas imediações da Avenida Brasil, longe dos pontos turísticos tradicionais). Ajudamos uma creche e uma associação de mulheres reconhecida pela Unesco. Há muita gente que nos critica. Até minha família me critica, mas o importante é que ajudamos muita gente. Esses críticos, gente do turismo convencional, ajudam a quem, além de eles mesmos? O nosso marketing é do boca-a-boca, feito pelo turista que veio, gostou e contou para outro.” – Luiz Marcos Fantozzi, sócio da Be a Local, agência que promove turismo em favela e em bailes funk.

#I1# A pobreza no mundo não é atração turística

“Tenho uma preocupação muito grande, até por uma questão de respeito aos favelados. Sinceramente, se morasse em favela, não gostaria de ficar exposto à curiosidade pública do turista estrangeiro. Se fosse para melhorar as condições da favela, tudo bem, mas não acho necessário privilegiar esse tipo de roteiro turístico. Os países procuram mostrar o que há de interessante, e não as mazelas, as misérias. Não conheço lugar algum do mundo onde a pobreza é atração turística. Há muitos lugares maravilhosos para se explorar turisticamente, principalmente no Rio, onde a natureza é exuberante e o patrimônio histórico muito rico. Esse tipo de turismo em que os turistas são levados de carro à favela, ainda acho pior. É como se fosse um safári. Quando assaltam um turista em Paris ou Barcelona, não se faz esse estardalhaço. Às vezes, a melhor estratégia é não expor demais esses males. Claro que é preciso informar a sociedade, mas uma exposição desnecessária é uma questão complexa.” – Roberto Almeida Dultra, presidente da Associação Brasileira de Turismo Receptivo Internacional (Bito) e presidente do conselho do Rio Convention Bureau.

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