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Navegar é Preciso

A Amazônia (nos) muda

O sucesso do Navegar é Preciso, que em 2019 comemora 9 anos,está na mágica experiência de cortar a exuberante paisagem amazônica sobre as águas do Rio Negro. A bordo de um barco, escritores, artistas e passageiros celebram a paixão pela leitura e pela música

Mariana Lima

 

Nenhum ano lembra o outro. Nem a Amazônia segue a mesma algumas centenas de dias depois de nossa última visita. As águas sobem, descem e raramente repousam no mesmo nível. A marcação é vista a olho nu: o trecho escurecido dos troncos que compõem os infindáveis igapós das regiões por onde passamos contam sobre as cheias passadas. Algumas árvores caem, outras brotam, cipós se enroscam, preguiças mastigam o verde mais macio que encontram e a vida segue seu curso enquanto ninguém olha.

Uma vez ao ano, nós da Auroraeco e nossos parceiros da Livraria da Vila comparecemos aos mesmos locais do ano anterior para testemunhar as mudanças – na floresta e em nós mesmos. A Amazônia, imensa, nos joga para dentro. Impossível não acordar contemplativo numa paisagem feita de céu acima e abaixo – refletido no líquido enegrecido de folhas oxidadas no fundo do rio largo. A capacidade de análise se alastra dentro do barco, quando as palavras dos outros nos invadem nos encontros literários com ares de confessionário.

Todo ano o cronograma muda um pouco, sofrendo ajustes em um dia ou atividade, mas continua preciso, calculado, recalculado, testado e aprovado. Do outro lado, o impreciso: a matéria humana, que é a peça central da viagem. Novos convidados cercados por navegantes de primeira viagem ou de navegantes recorrentes. Alguns nomes reaparecem em nossas listas, mas seus detentores carregam olhos que viram mais dias, testas que muito se franziram tensas e barrigas que se sacudiram rindo de coisa boa.

Clarice Niskier é veterana, mas a cada Navegar a encontramos mais solta fora do palco e mais firme nele. A cada leitura, mais densa, sem endurecer. Os olhos cansados da Clarice têm um brilho alerta de quem presta dedicada atenção infantil a tudo e todos à volta. Clarice sempre captura. De algum modo, o que ela faz no tablado é literatura. Na sua fala nos descobrimos lendo e aprendendo letra a letra, coisa de livro. Ela combina com o Navegar e por isso tende a ressurgir, sempre bem-vinda – venha!

Os autores sempre surpreendem, difíceis de prever. Muitas vezes uma característica reclusa toma a raia central e esquecemos dos personagens que tecemos com pesquisas prévias. Em 2018, vimos a doçura do Bernardo Carvalho colocar em riste as bochechas de uma face romana. Inundado pela voz da Lívia Nestrovski e pela musicalidade de seu parceiro Fred Ferreira, Bernardo voltou a ser menino e brincando (ou não) jurou “stalkear” os novos ídolos – e amigos. Nesta hora descolou-se do medo, do fracasso, da controvérsia – temas duros que o interessam e o compõem.

A tímida Beatriz Bracher conduziu a entrevista de Maitê Proença como se fosse uma profissional do ramo. Após o evento, elogios a sua linha condutora dançaram de proa a popa. Ela também impressionou Leandro Karnal, que durante os primeiros dias da viagem ausentou-se dos passeios, focado na tarefa de concluir a leitura da obra completa da autora que entrevistaria no barco. Por sua vez, ele deixou marca nítida no Navegar, nem tanto pela profundidade assustadora do conhecimento angariado, mas pela simplicidade do homem, sempre acessível e didático.

Maitê chamou atenção como não lhe é permitido deixar de fazer. Mostrou-se leve, às vezes engraçada. Foi uma entre tantos convidados que tivemos o condão de receber. Navegar adentro, a alguns nomes demos rosto, a algumas caras demos almas. E nos revimos. Tocamos lisos botos e frios jacarés. Nos tocamos do valor da Amazônia – é preciso viver a floresta para entendê-la. Soa clichê, mas é apenas a realidade. Às vezes ela é autoevidente. Alguns bons livros nos levam a boas pessoas e o caminho contrário em geral é verdadeiro. No Navegar essa equação flui com vazão máxima e pessoas e livros são mútuos afluentes de si próprios. Mananciais de retroalimentação.

No próximo ano, o Navegar é Preciso será todo diferente. A cada edição o projeto renasce e vale sempre viver mais uma vez – ou pela primeira vez. Em 2019, esperaremos você de 29 de abril a 3 de maio no mesmo porto de sempre, em Manaus, preparados para descobrir como será a viagem desta vez.

 

 

 

 

Quem levaAuroraeco Viagens: auroraeco.com.br

 

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