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Lá Fora

Rumo à exploração sem fim

Canadá lança campanha turística para tentar romper estereótipos e apresentar oferta inesgotável de atrações para o viajante

Camping às margens do rio Seal Crédito: Voyage Manitoba

Quem assistiu ao filme Dirigindo no escuro (2002), de Woody Allen, certamente se lembra da primeira aparição do diretor e também protagonista em cena. Allen é Val Waxman, um cineasta americano que já teve seus momentos de glória, dois Oscars, mas hoje ganha a vida dirigindo comerciais para a televisão. É durante a gravação de um comercial para um desodorante que Waxman surge, no meio de uma nevasca, no Canadá, falando ao telefone como a namorada, em Nova York. “Que diabos estou fazendo no Canadá?”, pergunta, agitado, no típico estilo dos personagens neurótico-engraçados de Woody Allen. “Você já esteve no Canadá? Agora entendi por que eles não têm crimes aqui!”

Com essa observação, Allen conseguiu ironizar dois dos maiores estereótipos que pairam sobre o segundo maior país em extensão no mundo: o frio e a segurança. Para o bem e para o mal, são essas duas das principais características com as quais o Canadá se depara na hora de vender seus atrativos turísticos para o mercado internacional. Sobre o frio, é preciso mostrar que ele não atinge todo o território – há destinos, como Vancouver, onde as temperaturas não caem muito além do zero grau. Quanto à segurança, ela de fato se confirma e tranqüiliza os viajantes internacionais mais temerosos, que buscam destinos que não sejam visados pelos ataques terroristas, assaltos e demais tipos de violências urbanas. Mas a carta na manga que o Canadá reserva para o viajante são suas belezas naturais, muitas e dos mais variados estilos. Das montanhas rochosas da Colúmbia-Britânica às corredeiras dos rios em Alberta, passando pelo festival de jazz de Montreal, ou pela observação de baleias na Nova Escócia, o país tem a certeza de que, para conquistar o turista, basta ele lhe dar essa chance.

No último Rendez-vous Canadá, o salão internacional anual do turismo no país, realizado em abril, em Toronto, foram apresentadas novidades nessa linha de mostrar como o Canadá é um destino com mais opções de visita do que se imagina: há novos roteiros de aventura, como o mergulho de apnéia acompanhando a rota dos salmões, ou o roteiro gastronômico-cultural pelos vinhedos, as viagens de relaxamento nos spas, e o rafting no Yukon.

“Keep exploring” (ou, numa tradução aproximada, “explore para sempre”). Esse é o novo lema do turismo canadense. O país, que nos anos 1950 era o segundo no ranking mundial de turismo, hoje alcança a 12a posição, segundo dados mais recentes da Organização Mundial do Turismo (OMT). E acredita que pode melhorar essa posição, e se aproximar, talvez, do índice atribuído ao país pela Organização das Nações Unidas, que elege o Canadá como o segundo melhor país no mundo para viver.

“Nossa nova empreitada, que tem o objetivo de vender o turismo no Canadá, se concentra em criar uma relação emotiva entre o Canadá e a satisfação que uma viagem proporciona, apresentando o aspecto emocional das experiências que podem ser vividas no país”, declarou a presidente e diretora geral da Comissão Canadense de Turismo (CCT), no lançamento da campanha da marca Keep Exploring. “Nós consideramos que, na escala mundial, nossos resultados turísticos são decepcionantes. Visto a marcada evolução do mercado e o crescimento da concorrência nós devemos dar aos consumidores razões mais imperiosas de viajar ao Canadá”, diz ela.

A atividade turística representa 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) do Canadá – o que equivale a uma receita de 12,8 bilhões de dólares e representa 2,5% do mercado mundial (dados da OMT). Emprega 1,6 milhão de pessoas, direta ou indiretamente. Pela ordem, as províncias ou regiões canadenses mais visitadas por turistas estrangeiros são: Ontário, Colúmbia-Britânica, Quebec, a região do Atlântico, Alberta e Manitoba-Saskatchewan. O objetivo da CCT, uma empresa estatal que trabalha em parceria com setores públicos e privados do turismo para promover o Canadá, é aumentar em 23% a receita vinda dos 11 mercados principais do Canadá nos próximos cinco anos.

O principal mercado para o turismo canadense – além do público interno, que representa 69% da receita total da atividade – é o turista que vem dos Estados Unidos. Dos cerca de 19 milhões de turistas estrangeiros que o Canadá recebe por ano, 15 milhões vêm de lá. A vizinhança, por terra, com o país mais rico do mundo, ajuda. Consumidores endinheirados de grandes cidades americanas como Nova York, Boston e Chicago, estão a poucas horas, ou até a poucos minutos, da fronteira. Basta dizer que 52% dos turistas americanos que vão ao Canadá chegam de carro – a ponto de o preço do combustível nos Estados Unidos ser um dos fatores que mais faz oscilarem as estatísticas do turismo candense.

Os outros mercados considerados chaves para o turismo canadense – que, portanto, recebem investimentos especiais de promoção turística – no biênio 2006-2008 são: França, Alemanha, Reino Unido, México, China, Japão, Coréia do Sul e Austrália. Até 2005, o Brasil fazia parte dessa lista, assim como Itália, Suíça e Países Baixos. Essa rotação acontece com certa freqüência, já que a idéia de eleger alvos específicos para as ações de marketing turístico significa uma estratégia da CCT em concentrar esforços para obter maiores resultados. No caso do Brasil, que contava até com um escritório canadense de promoção turística em São Paulo, o encerramento das atividades contou como a consideração de que o mercado brasileiro é instável e muito suscetível a mudanças no cenário econômico internacional, conforme divulgado na época.

Apesar dessa avaliação, os resultados obtidos com o turismo no Canadá em 2006 parecem estar mostrando um outro panorama de divisão do mercado. Periodicamente, a CCT faz um levantamento sobre as cifras do turismo no país. O mais recente revelou que, de janeiro a agosto de 2006, o número de viagens de turistas americanos ao Canadá caiu 5,6% em relação ao mesmo período no ano anterior. Motivo principal: os americanos realizaram menos viagens de carro para o país (-6,6%), fazendo com que o número de viagens provindas dos EUA atingisse seu nível mais baixo já registrado.

Quanto aos outros mercados-chave, o relatório conclui que: “Após terem registrado uma taxa recorde em 2005, as viagens provenientes de nossos principais mercados não-americanos tiveram uma queda de 1% ao longo do período janeiro-agosto de 2006”. E, no entanto, o mesmo relatório aponta que, nesse mesmo período, os melhores resultados turísticos se referem à Índia (cuja taxa de crescimento foi de 13,4%), à Espanha (+11,9%) e, em terceiro lugar, ao Brasil, que registrou aumento de 6,6% no número de viajantes enviados ao Canadá (tudo isso em relação a 2005). Se a comparação for feita em relação a 2002, o crescimento é ainda maior, e o melhor resultado do turismo canadense foi obtido, justamente, pelos turistas brasileiros: um crescimento de notáveis 66%.

Segundo a Organização Mundial de Turismo, o Canadá é o 14o destino internacional dos turistas brasileiros. Em 2004, 69.930 brasileiros visitaram o país e, em 2005, foram 74.721. Ao que tudo indica, o saldo final de 2006 deve também ser superior. O país teve um aumento de 10% no número de vistos emitidos aos brasileiros no primeiro semestre de 2006, em relação ao primeiro semestre de 2005.

Esse também é o palpite da Air Canada, única companhia aérea que faz vôos diários e non-stop entre Brasil e Canadá. Depois de registrar uma taxa de ocupação de 92,3% dos vôos entre os dois países no mês de setembro – acima da média mundial, de 79,7% – a empresa anunciou a ampliação de sua capacidade de atender a demanda de passageiros. Colocou o Airbus A340-300 para operar a rota, em substituição ao Boeing 767-300, durante a alta temporada (do final de outubro ao começo de janeiro de 2007). Com isso, a companhia aumentou sua capacidade em 25% na classe executiva e 37% na econômica. Segundo o diretor comercial da empresa no Brasil, Gleyson Ranieri, a expectativa com relação ao mercado brasileiro é das melhores possíveis. “Atualmente o Canadá está entre os destinos internacionais preferidos dos viajantes brasileiros. Além daqueles que vão em férias, há os que escolhem o país para estudar idiomas”.

#I1# Turismo e sala de aula

O Canadá tornou-se, nos últimos anos, um dos destinos preferidos para quem faz viagens de estudo no Brasil. Se, em 2004, 7.339 brasileiros embarcaram para o país com o objetivo de estudar, em 2005 o número saltou para 10.772 (recorde histórico) e, provavelmente, será batido novamente em 2006. As viagens de estudo no Canadá começaram a fazer mais sucesso entre os brasileiros nos últimos dez anos. Em 2004, segundo a Embaixada do Canadá no Brasil, o país chegou ao primeiro lugar na lista dos destinos escolhidos pelo brasileiro para estudar fora. Hoje, é responsável por 40 a 45% das consultas às agências especializadas.

Os motivos para isso são vários. Entre os países de língua inglesa – já que a maior parte desse tipo de turismo são as viagens para estudo do inglês – o Canadá acaba sendo um destino em que a relação custo-benefício vale a pena (o dólar canadense é mais barato que o americano ou o euro); assim, entre Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, por exemplo, é o mais barato. Vale lembrar também que o Canadá é um país bilíngüe que tem, além do inglês, o francês como língua oficial – e, apesar de a procura ser menor, na hora de fazer as contas, estudar francês no Canadá também é uma opção muito mais em conta do que ir para a França.

Além disso, a oferta de escolas é grande, o que auxilia na hora do turista escolher o tipo de curso que se quer fazer. Pela variedade de roteiros e paisagens, são vendidos muitos pacotes que incluem curso de inglês e esqui, por exemplo, o que é sempre um atrativo a mais. Em relação aos estudos em nível superior, o Canadá oferece várias modalidades de bolsas de estudo e acordos de cooperação com universidades nacionais.

A facilidade também se estende no que concerne às questões práticas. Os vistos, tanto de turismo, como de estudos ou residência são concedidos com facilidade, quando se compara com os Estados Unidos, por exemplo. Enquanto se pode levar de 45 dias a três meses para conseguir um visto americano, o canadense pode ser obtido entre dois e sete dias.

Outro fator que seduz os viajantes é a segurança. Além de a violência urbana ser muito baixa no Canadá, o país é considerado livre de ameaças de atentados terroristas, um fator que vem afugentando estudantes dos Estados Unidos e Inglaterra. “O Canadá já vinha se consolidando como destino para estudos, mas isso ficou mais forte depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001”, considera Luiza Vianna, supervisora de cursos no exterior da Central de Intercâmbio, agência responsável pelo envio de aproximadamente 3 mil alunos por ano ao Canadá. A empresa oferece cursos de inglês e francês, de curta e longa duração, além de cursos técnicos, high school (em que o estudante faz um ano do ensino médio em uma escola canadense) e outras opções, que podem ser atreladas a estágios ou trabalhos remunerados.

Os mais vendidos são os cursos de inglês, intensivos, com duração média de oito semanas. E as cidades escolhidas são Toronto, pelo estilo urbano e vida cultural intensa; Vancouver, para quem alia o estudo ao esqui ou montanhismo, por exemplo, e também opta por um frio menos intenso no inverno – lá as temperaturas não descem muito abaixo do zero grau, enquanto uma região como Quebec registra índices abaixo de 20 graus negativos no inverno – e, em terceiro lugar, Montreal, para quem busca um clima mais europeu e o ensino do francês. Para a diretora educacional da Central de Intercâmbio, Tereza Fulfaro, “o Canadá vem sendo vendido desde os anos 1980, porém conseguiu sua hegemonia a partir do ano 2000”. Segundo ela, desde então o destino tem crescido de 20 a 30% ao ano. Sua aposta é a de que continue assim, mantendo essa média de crescimento anual.


Montreal, destino para estudo Crédito: Turismo Montreal/ Stephán Poulin



Esportes de inverno nos Montes Valin Crédito: Turismo Quebec/ Jean-Pierre Huard



Abadia de Saint-Benoît-du-Lac, no Quebec, exemplo de roteiro cultural-gastronômico, é célebre também pelos seus queijos Crédito: Turismo Quebec/ Heiko Wittenborn



Novo roteiro oferecido na Colúmbia Britânica: mergulho com salmões no rio Campbell, onde a temperatura da água é de 14ºC Crédito: Carnegie Street Productions/ Paradise Found



Porto de Halifax, na Nova Escócia, que ficou famoso por organizar o salvamento dos sobreviventes do naufrágio do Titanic Crédito: Ministério do Turismo e da Cultura, Nova Escócia


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