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Lá fora

A muralha se abre ao turismo…E aos negócios

China admite Brasil com o Status de Destino Aprovado e abre caminho para promissoras oportunidades nos mercados emissivo e receptivo

A China foi designada como o melhor destino turístico mundial do ano pela Organização Mundial do Turismo (OMT) e, segundo a rede de televisão chinesa CCTV, a estimativa de visitantes é de 100 milhões. Já o número de brasileiros em visita ao país é irrisório. Pouco mais de 2 mil, mas com altíssimo poder econômico e capacidade de decisão. Isso se deve à rápida aproximação comercial entre os dois países, que desenvolvem um emergente mercado turístico onde até há pouco praticamente nada existia. De 1974 – quando as relações diplomáticas foram reatadas – até o final dos anos 90, a ida de turistas brasileiros à China estava restrita a imigrantes revendo familiares, além de alguns poucos jornalistas, intelectuais e turistas experimentados. A vinda de chineses era mais insignificante ainda.

Com o Brasil reconhecido com o Status de Destino Aprovado (ADS – Authorized Destination Status) pelo governo chinês, desde a visita do presidente Ju Hintao, em novembro, essa realidade mudou drasticamente. A emissão mútua de vistos para turistas foi facilitada depois que a China foi reconhecida como economia de mercado. As viagens dos chineses ao exterior estão sujeitas ao controle do Estado e só são permitidas para países considerados amigos, seja no campo político, seja no econômico. No momento, o Brasil pode ser enquadrado nessa categoria. É o terceiro maior parceiro comercial da China, com um movimento de cerca de US$ 10 bilhões em 2004. Com otimismo, em 2010 poderá atingir US$ 35 bilhões. Autoridades chinesas afirmam que o Brasil terá privilégios e tratamento prioritário. Em 11 de novembro, em São Paulo, foi inaugurado o China Trade Center, o primeiro escritório comercial do país no Brasil.

O que passa quase despercebido é que o crescente vaivém de empresários depende de uma infra-estrutura que está em processo de adaptação nos dois lados do mundo. “Sem turismo de negócios não há turismo e muito menos negócios”, afirma Lawrence Reinich, gerente de turismo de negócios da Embratur. “Isso é algo que as pessoas costumam esquecer facilmente”, completa. Um passo fundamental para que o país fique mais próximo será a abertura, em março de 2005, de um vôo da Varig conectando Rio e São Paulo a Pequim, com escala em Munique, na Alemanha. Uma vez por semana um Boeing 777 vai gastar 22 horas para levar e trazer até 240 passageiros. Sem contar a facilidade nas importações de alguns produtos, que não precisarão trocar de aeronave, encarecendo o frete.

Por causa da distância, é provável que o turista brasileiro de lazer jamais tenha um papel relevante nesse movimento. Na China que os brasileiros querem conhecer o que interessa são as oportunidades. A cada dia os chineses registram cerca de três feiras internacionais em seu território. Empresas brasileiras estabelecem escritórios por lá. “A abertura aos mercados ocidentais é rápida e ninguém quer perder tempo. Se houver um boom turístico de lazer, será de lá para cá”, afirma Edgar Werblowsky, presidente do Comitê de Turismo da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico (CBCDE) e diretor da operadora de turismo Freeway Brasil. Para tanto, a CBCDE se prepara para pavimentar esse caminho de duas mãos. Um catálogo com as principais feiras de negócios na China e o estabelecimento de convênios para a preparação de agentes de viagens, tripulações, guias, hotéis e intercâmbio entre universidades são as metas.

O desafio é tão grande quanto a concorrência. Apesar da simpatia pelo Brasil (e América Latina), na hora de viajar ao exterior os chineses mantêm uma clara preferência por Europa e Estados Unidos. Sem contar que Austrália e África do Sul receberam o ADS recentemente. Até agora, são 34 os países, além da União Européia, que receberam o Status de Destino Aprovado. Grã-Bretanha ainda está na fila. Em 2004, cerca de 24 milhões de chineses viajarão ao exterior, ultrapassando os turistas japoneses, de acordo com um estudo da DPS Consulting, de Pequim. No caso do Brasil, Werblowsky acredita que haverá um choque de profissionalização nos mercados emissivo e receptivo, devido à dificuldade em lidar com diferenças culturais tão grandes. Um fator preponderante é a língua. Quem vem para cá são homens de negócios, a maioria com mais de 40 anos. Gente que fez dinheiro, mas que cresceu no comunismo e teve pouco contato com idiomas estrangeiros, mesmo o inglês.

Paul Liu, presidente da CBCDE, acredita que os negócios irão melhor se houver rapidez de entendimento no cotidiano. “Até 100 mil chineses podem desembarcar por aqui nos próximos três anos, porém temos que nos apressar”, explica. O treinamento de guias fluentes em mandarim para atender as comitivas deve ser quase emergencial. Hoje, apenas dois deles são credenciados pela Embratur. Outros 30 guias – na verdade intérpretes – atuam de maneira irregular e devem passar por avaliações e treinamento. A situação é pior fora de São Paulo, como no Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Brasília e Manaus, locais procurados pelos orientais. Sem contar os problemas de segurança, em especial no Rio, que ganham constante destaque negativo na mídia internacional.

Na China, os turistas se concentram nas províncias próximas do litoral onde ficam a capital Pequim, com a Cidade Proibida, e próxima de trechos bem conservados da Grande Muralha, Xian, com seus guerreiros de terracota, e as modernas Xangai e Hong Kong. Para Sokan KatoYoung, da operadora Chinatur, uma das pioneiras no embarque de viajantes brasileiros rumo ao gigante do Oriente, a preparação é fundamental. “Talvez seja o único lugar do mundo em que o empresariado se comporte como turista clássico. É inevitável. Para evitar constrangimentos e gafes, antes de embarcar grupos e indivíduos recebem noções de etiqueta, transporte de bagagem, um pouco de história e idioma”, explica. Também existem preparações direcionadas, como a ministrada para um grupo de engenheiros que visitou a gigantesca barragem das Três Gargantas, no Rio Yangtsé. A operadora leva, em média, 1,8 mil turistas para a China ao ano. Para 2005, Young espera um crescimento de até 30% no movimento para o destino China.

O assunto também cria expectativa nas salas de aula. No curso de Turismo da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, os alunos de Marketing Aplicado do professor doutor Shuy Wen Shin, nascido em Taiwan, começaram a fazer perguntas. Alguns até mostraram interesse em aprender a língua oficial, o mandarim. A vontade está no fato de que poucos guias chineses têm fluência em português, o que justificaria o acompanhamento de intérpretes brasileiros. “É um mercado fabuloso, mas relativamente intocado. Isso explica o mistério que evoca. Andar na rua já é como estar em outro mundo”, diz o professor Shin.

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