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Hospitalidade é...

Acolhida inesperada

Paulo Ferretti é coordenador do curso de gastronomia da Unimep e viajou naquele ano com o Dudu e a Everlasting, seus amigos de mochila.

Falar de turismo e hotelaria hoje em dia sem utilizar o termo hospitalidade é impossível. Mas o que me importa de fato é encontrar a hospitalidade pelo país afora. Deixo um pouco as conceituações de lado e parto em busca do gesto hospitaleiro, independente de local, cultura e profissão.

Dia 12 de janeiro de 2002 foi um dos raros dias sem chuva naquela viagem. Pra quem já tinha cruzado o Vale do Jequitinhonha praticamente a nado, a perspectiva de um trajetozinho entre Trancoso e Caraíva era prêmio de consolação pelos esforços prestados ao turismo nacional. Saímos em três num Fiesta vermelhinho rumo a mais um paraíso tropical.

Com um olho no mapa e outro na sinalização (que sinalização?), resolvemos “cortar caminho” por uma estradinha de areia logo à nossa frente. Na noite anterior soubemos que a ponte que ligava Trancoso a Caraíva não agüentou os torós e os ônibus de verão e ruiu. No caminho, muitas dúvidas: por onde seguir? Meio no par ou ímpar decidimos nosso futuro, sem saber que ele já estava traçado!

A estrada piorava a cada metro. Já no meio da tarde tínhamos a certeza de estarmos perdidos. O que restou de caminho estava coberto de areia e água. Já eram mais de 18 horas quando finalmente fomos vencidos pelas águas. O carro sucumbiu à lagoa profunda. Sem conseguir movê-lo do lugar, saímos os três em busca de ajuda.

Voltando na estrada encontramos uma fazenda de mamão com uma casinha no meio da plantação. Invadimos a propriedade e chamamos por alguém. Do interior da residência saía um som alto de FM. Mas nada de aparecer alguém. Depois de pouco mais de 15 minutos apareceu um japonês jovem, secando o cabelo, com cara de sono e desconfiança. Explicamos nosso calvário, pedimos ajuda. A resposta veio cheia de lamentações e desculpas. Não. Ele NÃO poderia nos ajudar. Cada um do seu jeito, começamos a aumentar o tom e a gravidade da situação. Como consolação, pediu que esperássemos para falar com seu pai. Conseguimos finalmente uma boa resposta. Seu Suekiti (não tenho a menor idéia da grafia correta) se apresentou e disponibilizou o trator para rebocarmos. Lá fomos nós em cima da máquina até o charco onde jazia o Fiestinha vencido. Comemoramos com lama na cara a rápida manobra de desatolar nosso carro. Seu Suekiti ainda nos aconselhou a pegar uma estrada vicinal, pois o percurso original estava péssimo. Explicou que não deveríamos nos assustar com o mato na pista, pois era um trajeto de caminhões de extração de eucaliptos, portanto pouco usado.

No escuro, seguimos adiante lentos, atentos e curiosos do que nos reservava aquela noite. Mais adiante encontramos a entrada para o atalho, sinistra. A cada metro percorrido a vegetação se fechava. Devagar seguíamos até que, de repente, um tranco forte, o carro pendeu para um lado e mais uma vez afundou na lama. Quando saí, tive a certeza de que não o tiraríamos de lá nunca mais. No meio da mata, só nos restava voltar e pedir auxílio ao fazendeiro japonês.

Com lama em todos os poros, noite fechada, caminhávamos por algum lugar no sul da Bahia. Mais constrangidos ainda, acordamos seu Suekiti. Pedimos permissão para lavar pés, mãos e rosto no tanque e dormir na varanda, junto com os cachorros. Ele pensou um instante e começou a praticar o que considero até hoje o maior gesto de hospitalidade que já vivi. Nos convidou para entrar. Arrumou um quartinho, que era despensa, para dormirmos. Ofereceu toalhas e seu próprio banheiro para nos limparmos. Enquanto cada um se arrumava, seu Suekiti preparou o melhor miojo do planeta, coisa gastronômica, fina mesmo! A visão da pasta na mesa emocionou a trupe. Em silêncio fizemos a santa ceia, devorando à la Robinson Crusoé aquele manjar dos deuses. Acho que nossa fome era tanta que o anfitrião partiu para o “secondo piatto”: pizza! Eu que sempre amei uma redonda recebia o meu prato preferido no meio de uma fazenda de mamão na Bahia!!!

De manhã, um lauto café à base de… mamão, é claro!! Prestamos reverência ao nosso samurai baiano, plenos de alegria. A hospitalidade comove. Desejamos todas as alegrias e realizações ao pequeno homem e partimos. Não sei se um dia volto a encontrar seu Suekiti. Tenho certeza, porém, de que nunca me esquecerei dele. E tento pôr em prática todos os dias nas salas de aula o significado de hospitalidade que ele nos ensinou.

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