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Hospitalidade é

A educação do olhar

Touro em pago alheio é vaca, diz o gaúcho. Isso quer dizer, assim de um jeito meio bagual, que longe de casa as pessoas se sentem mais vulneráveis, ligeiramente perdidas e mais sensíveis, portanto, à hospitalidade local.

Depois de muitas campereadas mundo afora e Brasil adentro, minhas memórias de boa hospitalidade são bem dispersas. Envolvem três objetos no Japão, uma banheira nas cercanias de Santiago e um hoteleiro mago em Ilhabela, litoral norte de São Paulo.

Tóquio é uma cidade tão fascinante como para nós, pobres ocidentais, cansativa. Porque lá eles são muito ao contrário mesmo. Comem com pauzinho, escrevem com pauzinho, comem peixe cru, fazem doce de feijão, abrem a porta meio de lado e só dirigem na contramão. Te roubam um dia inteiro na viagem de ida e só devolvem na volta. Tóquio é fantástica, mas algumas placas de metrô não falam inglês, a cada esquina há uma saída de estádio em final de campeonato, trens passam como aviões pela tua cabeça e o cair da noite em Ginza parece século 22. E, de repente, no quarto do hotel: yukata, banheira funda e chá. A banheira funda nem chega a ofurô, amigável é a maquininha de fazer chá, e a yukata, um quimono curto, te dá a sensação de samurai em repouso. E o fato é, com os três juntos, se potenciando, o milagre se faz: o repouso é digno, o sono é profundo e, de manhã, outra vez aquela louca vontade de mergulhar no caos criativo das ruas.

Quero dizer que a vontade de bem acolher faz milagres quando materializada de forma sensível à geografia e à psicologia do lugar onde se está.

O que me remete a um inverno chileno de lascar. Eu era gaúcho e jovem e, afoito, fui conhecer uma estação de esqui, assim no mais: de tênis leve e jeans fino. Isso é jeito de passear na neve? Na saída, aliás, penso ter percebido um certo olhar perplexo da dona da pousada, mas para um gaúcho daquela idade as altas Cordilheiras brancas não passam de coxilhas mais reforçadas – e tordilhas. Bueno, só sei que, na volta, enrodilhado num ônibus com ventilação natural, eu simplesmente não sentia as pernas do joelho para baixo e para cima o resto todo tiritava. Meio azul cheguei na pousada e dona Stela sem falar nada me encaminhou direto para uma banheira de água quente. Passarão os anos, céus e terra passarão, que eu não esquecerei minha doce imersão naquelas águas abençoadas. Foi como nascer de novo. E depois teve a sopa, o conhaque. E a lição: mais que técnicas e relações públicas, a alma da hospitalidade é um atento e sincero olhar do hospedeiro sobre o hospedado. Dona Stela, aquele dia, me olhou e nem disse nada, foi encher a banheira.

Pulo para Ilhabela, em São Paulo, onde essa educação do olhar para o real momento do outro é especialmente levada a sério na Maison Joly. Talvez porque seu dono, Junior Joly, tenha vivido em mais de 80 endereços e aprendido a acolher e enraizar pessoas. Um dia, contemplando a Baía de Nápoles ao entardecer, sentiu que queria viver e receber pessoas num lugar assim. Deu Ilhabela, no alto de um morro, atrás da Matriz. Sua Maison, discreta na entrada, explode em graças a cada passo e cada apartamento leva em conta cada tipo de hóspede, em todos a jacuzzi na varanda dá sobre o azul do mar lá embaixo.

Para Joly, por mais segurança que aparente, o hóspede entra num hotel como entra num trem-fantasma, precisa de um tempo para relaxar, reconhecer a floresta, e aí é que entra uma equipe bem treinada para abreviar esse tempo de reconhecimento. A educação do olhar.

É da percepção correta do outro que, no hotel e na vida, gira a alma da hospitalidade. Mestre Joly ilustra com o caso do estrangeiro que chega a um hotel, amassado pela longa viagem, desorbitado pelo jet-leg. É um doente virtual, diz ele, de cabeça e de intestinos, e precisa de uma alimentação leve e um horário muito maternal para se recompor e começar a curtir.

Termino com um trecho de poema, um dado e um pequeno fato.

Num poema sobre a vida pobre e ascética dos primeiros gaúchos, Jorge Luis Borges diz que a hospitalidade era a sua única festa.

Estudiosos garantem que, ao lado do esporte, o turismo pode ser um grande fator de fraternidade e desarmamento espiritual entre os povos.

Esses dias, viajando pela Síria, um amigo pediu um sorvete de nata num mercado e o dono, quando soube que ele era brasileiro, se recusou a cobrar. De muitos amigos viajantes já ouvi histórias parecidas.

Tantas e tão constantes que fica a pergunta: será que, além de avião, soja e boa música, os brasileiros não podem ter, neste mundo tão divido, um papel muito especial na grande festa da hospitalidade?

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