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Espaço Sebrae

Cheirinho de biscoito saindo do forno em cada esquina

Todos os anos, em setembro, São Tiago prepara a Parada do Café com Biscoito, uma festa popular dedicada aos quitutes e realizada na praça principal

A produção mensal de aproximadamente 15 toneladas de biscoitos é praticamente toda manual Crédito: Ronaldo Guimarães

A pequena cidade mineira de São Tiago, na região dos Campos das Vertentes, a 187 quilômetros de Belo Horizonte, fez da tradição culinária sua principal atividade econômica. Dezenas de pequenas fábricas de biscoitos artesanais se espalham pelas ruas e empregam grande parte da população. A produção de aproximadamente 15 toneladas de biscoitos por mês é praticamente toda manual: desde a hora de misturar os ingredientes, preparar a massa, até o momento de enrolar cada um dos delicados quitutes e levar ao forno.

Eduardo Carvalho administra a fábrica de biscoitos Santa Rosa, criada por sua sogra, Rozilda Rezende Santos. Lá estão empregadas as duas filhas da fundadora e outras duas irmãs. Há dez anos o sustento da família vem da produção de 25 variedades de biscoitos doces. “Comecei em casa, por necessidade mesmo, faltava serviço e eu resolvi aprender”, lembra Dona Rosa, como é conhecida.

Antes, o trabalho também não era leve, na lavanderia de um hospital. “Hoje trabalhamos muito, mas a vida melhorou”, conta. Dos biscoitos que faz, de nata, amendoim, amanteigados, ela se lembra da infância na roça. “Esses eram biscoitos de ocasião especial. Eram feitos pra casamento”, diz.

A fábrica emprega outras 26 pessoas, mas sofre com a carência de mão-de-obra. “Estamos sempre precisando de gente para enrolar os biscoitos, mas é difícil encontrar quem saiba”, explica uma das funcionárias da Santa Rosa, Regina Resende.

A produção ganhou novo fôlego a partir de 2004, quando foi iniciado um projeto de desenvolvimento da indústria liderado pelo Sebrae junto com a Associação São Tiaguense dos Produtores de Biscoito (Assabiscoito). Unidos, os empresários investiram na qualidade dos produtos, no atendimento das normas sanitárias e na melhoria de rótulos. Ao todo, estima-se que a cidade tenha entre 30 e 40 empresas, sendo que 22 delas participam do projeto.

As melhorias são facilmente percebidas por qualquer visitante das fábricas da cidade. Uniformes, toucas nos cabelos, sapatos fechados. A limpeza dos utensílios e das instalações, as telas nas janelas e portas e a disposição correta do local onde são executadas as etapas da fabricação das delícias foram ensinadas com o curso de boas práticas na fabricação de alimento, exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Contratamos um profissional para levantar a informação nutricional correta de cada produto que agora irá acompanhar as etiquetas”, conta Danielle Fantini, coordenadora do projeto de Alimentos Artesanais do Sebrae em Minas Gerais.

Os números apurados pelo Sebrae também indicam mais eficiência das fábricas. Depois de um ano do trabalho, foram comercializadas 186,8 toneladas de biscoitos em São Tiago, 95,7% a mais que em 2004. A receita mensal das fábricas chegou a R$ 910 mil, um aumento de 117,8%. A quantidade de biscoitos produzidos aumentou em 64% e alcançou as 156,7 toneladas em 2005. Todas as metas foram superadas, com exceção da produtividade, que teve um decréscimo de 2,1%.

Para o sucesso dos trabalhos, foi essencial a preparação do grupo com os conceitos da cultura da cooperação. “Hoje a confiança que eles têm uns nos outros é visível”, observa a coordenadora nacional do projeto, Regina Diniz. Foram criadas comissões de preço, marketing, institucional e para a criação da central de compras, que deve começar a funcionar em abril. “Eles perceberam que sozinhos seria muito difícil conseguir avanços como esses”, explica Daniele Fantini.

Um dos problemas amenizados com o projeto foi a queda das vendas no verão. “Com o calor, o consumo cai muito”, explica o presidente da Assabiscoito, Alexandre Nunes Machado. “Neste verão estamos sentindo menos a queda nas vendas”, afirma. Melhoria de qualidade e maior divulgação são os motivos apontados pelos produtores.

As perspectivas para ele são tão boas que resolveu investir no negócio. A construção da nova fábrica está em fase de acabamento e foi realizada seguindo todas as orientações de melhores práticas na fabricação de alimentos.

“Iniciativas como a padronização de embalagem e rotulagem e a futura certificação de origem, que é uma de nossas metas, além do charme que dá à cidade o fato de estar localizada na Estrada Real, fazem com que o projeto seja bem sucedido”, avalia Miriam Zitz, gerente Unidade de Atendimento Coletivo – Indústria do Sebrae Nacional. Segundo ela, existe espaço para a interação entre os biscoitos artesanais e outros projetos da instituição na região. “Os cafés especiais, a mandiocultura e o turismo podem adensar o trabalho com os biscoitos”, afirma.

Um desafio que ainda precisa ser enfrentado é o leilão de preços que ocorre entre as fábricas. A fama da cidade traz compradores que visitam as biscoitarias e barganham o preço. A diminuição do lucro, se ainda permite pagar os custos, inibe o investimento. “Comprar maquinário e modernizar a produção fica difícil com margens tão apertadas”, afirma o empresário Eduardo Carvalho.


A produção mensal de aproximadamente 15 toneladas de biscoitos é praticamente toda manual Crédito: Ronaldo Guimarães


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