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Entrevista

O tamanho do turismo brasileiro

Consultor e planejador do primeiro curso superior de turismo no Brasil, o espanhol Domingo Hernández Peña fala sobre o sistema de educação no mundo e enfatiza a necessidade de dimensionar a economia turística brasileira

Crédito: Camila Lucchesi

Assessor das Secretarias de Turismo do Município e do Estado de São Paulo, diretor do escritório de Turismo da Espanha no Brasil que funcionava dentro da Câmara Oficial Española de Comercio no Brasil, na década de 1960, assessor da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), consultor de veículos de comunicação e professor de turismo em diversas universidades. Apesar da diversidade de cargos ocupados, no Brasil, o espanhol Domingo Hernández Peña ficou mais conhecido por um feito inédito: a criação, em 1971, do primeiro curso superior de turismo no Brasil (pioneiro também do mundo), na então Faculdade de Turismo do Morumbi (hoje Anhembi Morumbi) entidade que o contemplou recentemente com o título Honoris Causa.

Nascido na Villa de Teguise, nas Ilhas Canárias, Peña já morou em diversas cidades na Europa e América, fato que o aproximou da carreira de turismo. Em sua formação, também acumula cursos de Administração Municipal, Magistério, Marketing e Comunicação e estuda, desde 2000, a imprensa digital no mundo atuando como consultor de turismo e comunicação. Com toda essa vivência e bagagem cultural adquirida em vários países, ele tem uma visão crítica não apenas em relação ao ensino de turismo – seja em nível técnico, seja em nível superior – como também à forma de se fazer turismo no Brasil.

Na entrevista a seguir, Peña falou sobre a necessidade de aferir o turismo doméstico e deixar de lado certas burocracias que podem afugentar os estrangeiros do país. Com conhecimento de causa acumulado em anos de trabalho no país e em experiências internacionais, ele afirma que para que o Brasil decole de vez como potência turística é preciso, antes de tudo, estudar um fenômeno chamado economia do turismo.

#I1# Host – Em que contexto ocorreu a criação do primeiro curso superior de turismo no Brasil?

Peña – Naquela época, início da década de 1970, ainda não havia no mundo nenhuma instituição do gênero. Entretanto, existiam pessoas, estudiosos que já tinham uma visão mais aprofundada do fenômeno turístico. Eu não fiz outra coisa senão agrupar, estruturar e sistematizar o que aprendi com eles. Assim foram criados o currículo e os conteúdos do curso da Faculdade de Turismo do Morumbi, em 1971. Foi quando aconteceu a grande revolução do turismo brasileiro, pois não havia ensino superior de turismo no mundo, apenas escolas técnicas. Ainda não existe no mundo uma consciência clara do que é um curso superior de turismo, pois as escolas técnicas são maioria lá fora. Mas o técnico não resolve as grandes questões. Muitos se tornam camareiros, recepcionistas, fazem muito bem seu serviço, mas não têm a visão global. O Brasil tem os dois tipos de profissionais, o de formação superior, que imagina e planeja o que pode ser feito quando a cidade duplica sua população, por exemplo, sabe da economia e do efeito multiplicador do turismo e o de formação técnica, que trata das questões mais superficiais. São perfis complementares.

#I1# Host – Qual foi a principal mudança com a implantação do curso?

Peña – A grande diferença foi o surgimento de uma consciência turística, o estabelecimento de uma cultura que não existia. Prova disso é que o primeiro Congresso Nacional de Turismo do Brasil – que aconteceu em Campos do Jordão, em 1953 – os debatedores citaram tudo o que era preciso para ter o setor de turismo estruturado no país, mas nada foi feito porque ainda não existia consciência turística. Em 1971 essa consciência começou a aparecer e o turismo cresceu. Há bem mais turistas desde então e o turismo do Brasil está nas mãos de gente mais consciente. Mas ainda é preciso expandir essa consciência. Os cadernos de economia dos jornais brasileiros, por exemplo, ainda não enfocam o valor do turismo da forma como deveriam. Economia do turismo é disciplina ensinada na faculdade, a redistribuição interna é um fator muito importante. O dinheiro que o turista de São Paulo que vai para o Acre deixa no hotel é direcionado para o padeiro, o que ele gasta no táxi vai para o posto de gasolina. É um fenômeno importante no Brasil e que nunca foi estudado. Por isso o turismo interno é enorme e importante, ele distribui a riqueza de forma diferente e causa um efeito multiplicador também diferente. O turismo internacional gera mais divisas, mas pode agravar ainda mais as diferenças econômicas porque o turista internacional vai para a Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, mas não vai para o Acre ou para Rondônia.

#I1# Host – O senhor também ficou conhecido por uma afirmação célebre sobre a potencialidade turística do Brasil: “Acredite, esse país um dia será uma potência turística”. Como avalia o turismo no país atualmente?

Peña – O brasileiro comum sempre questiona a quantidade de turistas que vem de fora e isso é como um complexo de inferioridade. Não recebemos tantos turistas estrangeiros assim, se pensarmos nas dimensões continentais do país, mas isso não tem tanta importância. Aferir a realidade interna é o mais importante agora. O turismo brasileiro deveria ser medido pelo número de pernoites e não apenas por dados de embarques e desembarques aéreos, pois, no Brasil, só viaja em longas distâncias quem tem alto poder aquisitivo. As pessoas vão para as cidades vizinhas e pernoitam em hotéis. Isso também é turismo, mas não é medido.

#I1# Host – Como é possível solucionar essa questão?

Peña – É só uma questão de estatística, não tem segredo. Se os hotéis e alojamentos comunicassem os dados de pernoite com a mesma precisão com que é feito nas fronteiras, seria perfeito. Na fronteira tem carimbo. Agora, em um hotel no interior de Pernambuco, quem mede? Tem de haver uma documentação.

#I1# Host – E quanto ao turismo internacional. Que estratégias podem ser criadas para aumentar a entrada de estrangeiros no país?

Peña – O turismo internacional no Brasil só não é maior porque, em primeiro lugar, não existe uma companhia aérea nacional forte. Além disso, há uma série de questões antigas que ainda servem de parâmetros para fiscalizar a entrada de estrangeiros no país. Trinta minutos antes de desembarcar em um aeroporto brasileiro o turista tem de preencher uma papelada com perguntas inquietantes: traz armas? Traz drogas? Esse procedimento já foi abolido em quase todo o mundo, são questões antigas, da época da ditadura dos coronéis em Atenas [1967-1974]. Também existem questões estruturais a serem resolvidas. O Aeroporto de Cumbica [Aeroporto Internacional de São Paulo/ Guarulhos – Governador André Franco Montoro] é considerado o segundo melhor da América Latina. Entretanto, se você procura dados do local na Internet, encontra tudo o que se pode imaginar, menos informações básicas de como pegar um táxi, por exemplo. Por outro lado, é difícil ouvir um estrangeiro reclamar de um brasileiro, seja um camareiro, seja um recepcionista, pois eles são inteligentes, intuitivos e amáveis. Mas a infra-estrutura não coincide com os recursos humanos e enquanto não houver coincidência entre os dois segmentos haverá disfunção.

#I1# Host – O senhor acredita que fatores como a violência urbana, freqüentemente noticiada pela imprensa estrangeira, também contribuem para agravar esse quadro?

Peña – A imagem externa do país não está fabricada pela consciência brasileira, mas pelo que diz o jornalista que vem de fora e geralmente chega no Carnaval, quando tudo está um caos. E o Brasil não tem uma agência de notícias própria para se defender. Sabemos que a notícia não é só o que “está ali”, é muito mais que um momento, mas o impacto das manchetes causa impressões negativas. É noticiado que um homem foi assaltado e levou um tiro em São Paulo. Isso já basta para que as pessoas fiquem com medo de vir para cá, sem saber que esse assalto foi na periferia, onde os turistas não passam. Deixam de vir para a cidade por um medo sem razão. É um país maravilhoso que tem violência, sim, mas ela existe em qualquer lugar. Outro grande problema é a movimentação de turistas estrangeiros e domésticos em certos locais e em datas concentradas. Na palestra inicial que fiz na inauguração da faculdade eu disse que todos os turistas de uma só vez não servem para nada, ninguém está preparado para atendê-los. O ideal é que chegue um hoje, dois amanhã e três depois de amanhã, sempre em um crescente. Para que isso aconteça é preciso gerar atrativos para que os visitantes venham em épocas distintas. Essa estratégia acabaria ou pelo menos amenizaria o problema das baixas ocupações.

#I1# Host – Os países que estão no topo da atividade turística têm essa consciência? Eles tiveram mão-de-obra capacitada?

Peña – Não, eles aprenderam na prática e tiveram como atrativos a história e a cultura de séculos. Os países que têm mais gente formada em turismo são aqueles que foram obrigados artificialmente a competir com a história e a cultura.

#I1# Host – No Brasil mesmo, as faculdades de turismo estão mais concentradas no Sul e Sudeste, sendo que a maior atratividade turística está nos estados do Nordeste. O senhor acredita que é preciso interiorizar mais ou o sistema funciona bem nesse modelo?

Peña – Que as faculdades estejam mais nos centros emissores não é mau porque, querendo ou sem querer, acabam influenciando na distribuição de renda nacional. Mas é evidente que a grande, a gigantesca tarefa por se fazer em questão de educação está nos centros receptores.

#I1# Host – O mercado é capaz de absorver toda a mão-de-obra com ensino superior que está sendo formada ou as instituições estão formando mais alunos que deviam?

Peña – O problema da falta de empregos, da escassez de vagas para profissionais especializados não acontece só em turismo, mas em várias carreiras. O estudante que conclui uma faculdade de medicina, mesmo tendo investido muito tempo e dedicação, muitas vezes não consegue emprego como médico e vai trabalhar como enfermeiro. Ele tem a consciência do que é ser médico, mas certamente fará muito bem o trabalho do enfermeiro. O mesmo acontece com o bacharel em turismo que foi preparado para tratar de flutuação sócio-econômica, crescimento da população, análise e planejamento, como captar renda permanentemente no hotel e etc. Mas ele também sabe como fazer atendimento de balcão se for preciso. Nas Ilhas Canárias, onde eu nasci, a população se inseriu no nível técnico e a formação de nível superior foi trazida por quem veio de fora, o que gerou uma falta de auto-estima na população. Isso não acontece no Brasil.

#I1# Host – Existem diferenças de currículo no ensino de turismo nos diversos continentes?

Peña – Sim, a mais evidente é a divergência entre uma cultura que entende o turismo como algo integrado contra o pensamento que o entende como algo desintegrado e resultado da convergência de muitos aspectos casuais. Essa briga é uma das principais dificuldades que os cursos universitários de turismo enfrentam hoje.

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