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Entrevista

O futuro está na sustentabilidade

Doris Ruschmann acredita que o caminho para o desenvolvimento da atividade turística no Brasil passa pelo planejamento e execução de projetos de turismo sustentável

A história da professora e consultora Doris Ruschmann como conceituada profissional da área de planejamento turístico é, como ela mesma define, no mínimo “pitoresca”. Dona de casa e mãe-motorista até 1976, tudo mudou quando ela ingressou no curso de graduação em Turismo. Formou-se em 1980 na Universidade Anhembi-Morumbi e seis anos mais tarde já era docente da Universidade de São Paulo (USP), onde concluiu mestrado e doutorado nas áreas de Marketing e Planejamento de Turismo Sustentável e iniciou, na década de 1990, sua carreira acadêmica. “Uma característica minha é ir fundo nas coisas que faço”, diz. Autora de livros como Turismo no Brasil – Análise e Tendências (editora Manole) e Turismo e Planejamento Sustentável (editora Papirus) e professora licenciada da USP, Doris Ruschmann atualmente é coordenadora do programa de pós-graduação stricto sensu do curso de Hotelaria da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina.

O envolvimento da professora com a profissão não se limitou aos muros da universidade. Em 1996 ela criou, com o marido, o engenheiro Jens Ruschmann, a Ruschmann Consultores, empresa especializada em planejamento, marketing, gestão e formação de recursos humanos para o setor. Trabalhando atualmente em projetos como os Planos de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável da Costa do Sol, no Ceará, e da Costa do Delta, no Piauí, Doris Ruschmann acredita não ser possível articular sustentabilidade e turismo de massa. “O turismo sustentável, ambientalmente correto, vai crescer cada vez mais. Agora, no momento em que ele se tornar de massa, que a capacidade de carga do local não for respeitada, ele estará comprometido”, adverte.

#I1# Host – Sua carreira na área do turismo teve um percurso atípico. Teve início na universidade e depois passou para a área empresarial. Como se deu esse percurso?
Doris – De fato, primeiro construí uma carreira acadêmica. Mas a partir da conclusão do doutorado em Planejamento Sustentável, em 1994, dei início à segunda fase da minha vida no turismo, montando com meu marido a Ruschmann Consultores. Começamos a enfrentar concorrências e a participar de grandes projetos, como a primeira fase do Programa de Desenvolvimento do Turismo, que naquele tempo era administrado pela Embratur, para desenvolvimento de infra-estrutura em locais de viabilidade turística. Com essa atividade, consolidamos nossa consultoria no mercado. Paralelamente, continuei com minha atividade como professora e pesquisadora, publicando alguns livros.

#I1# Host – Na área de consultoria, o trabalho tem um foco importante nas ações de planejamento. O setor público tem desenvolvido uma parceria consistente nesse tipo de trabalho? Ou são as empresas privadas que mais solicitam esses estudos?
Doris – Trabalhamos muito com estados e municípios, com instituições como Sesc e Senac, mesmo porque a iniciativa privada já desenvolve seus próprios projetos. As prefeituras, por exemplo, muitas vezes não têm capacidade financeira ou o conhecimento necessário para fazer um planejamento sistemático. Atuamos na primeira fase do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), por volta de 1992, ainda na gestão do antigo Ministério do Esporte e Turismo, que engloba vários aspectos, como a sustentabilidade ecológica e financeira de projetos, com forte ênfase no desenvolvimento de infra-estrutura. Esse programa conta com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). No Prodetur Nordeste I, desenvolvemos uma caracterização-modelo dos cinco estados do Nordeste, mostrando as potencialidades locais. Junto com os governos da Bahia, do Piauí e do Ceará, em convênio com o Bid, desenvolvemos, em 2001, o Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável da Costa do Descobrimento, na Bahia. A partir de 2002, trabalhamos em planos semelhantes para a Costa do Sol, no Ceará, e para a Costa do Delta, no Piauí. Ainda para os governos dos estados de Roraima, Amapá e Tocantins, fizemos também planos para o Proecotur, um programa dirigido ao desenvolvimento do turismo ecológico.

#I1# Host – A senhora acha que existe uma adequação dos projetos privados às necessidades locais de sustentabilidade e desenvolvimento econômico?
Doris – Não, especialmente quando se trata de um empreendimento turístico no Rio de Janeiro ou no litoral de Santa Catarina, por exemplo. Agora, quando a gente fala em Amazônia e Pantanal, é possível implantar projetos corretos do ponto de vista da sustentabilidade e da preservação ambiental. Os empreendimentos que vão se instalar nesses lugares já chegam com uma filosofia, inclusive sob o aspecto comercial, de que é preciso estruturar-se dentro dos critérios de sustentabilidade. Afinal, isso acaba se tornando uma forte ferramenta de marketing e um atrativo para os visitantes.

#I1# Host – Na sua opinião, então, o governo deve enfatizar o planejamento e a execução de projetos de turismo sustentável como meio de desenvolvimento da atividade turística no Brasil?
Doris – Sim, sem sombra de dúvida. O problema é que, às vezes, os estados não têm equipes para implantar os projetos desenvolvidos. Temos sugerido que os estados contratem especialistas em gestão de projetos. Mas temos observado experiências bem interessantes, como na Bahia e no Ceará, onde foram conjugados fatores decisivos para o sucesso das iniciativas, tais como uma estrutura eficaz de trabalho e vontade política de governadores e prefeitos. Isso faz muita diferença.

#I1# Host – Como a questão da sustentabilidade dos destinos turísticos está inserida nos planos do Prodetur? Parâmetros e referências do modelo aplicado foram estabelecidos como base nas experiências brasileiras?
Doris – Em sua fase inicial, a abordagem dessa questão era mais tímida. Agora, a nova fase do Prodetur já integrou em suas premissas o Plano de Desenvolvimento do Turismo Integrado Sustentável, no qual o componente ambiental é fortíssimo. Além disso, para a elaboração do plano, é preciso demonstrar qual será o impacto da atividade para a população, o que vai acontecer com a renda gerada pelo turismo no local, a quem ela irá beneficiar. É importante lembrar que esse modelo de sustentabilidade teve suas referências estabelecidas no Brasil.

#I1# Host – E a senhora acha que ele está alinhado com as melhores idéias e práticas executadas em outros centros de referência sobre o tema no mundo?
Doris – Posso dizer que nos projetos que vi ou nos quais participei o nível foi de altíssima qualidade. Eu acho que o Brasil não fica nada a dever em termos de conhecimento técnico e de profissionais. Isso não é só um elogio à minha equipe, que conta com 24 consultores de alto nível, mas também às outras empresas que montaram grupos de profissionais fantásticos. Quando vou a um congresso no exterior, vejo como as pessoas ficam impressionadas com o trabalho feito aqui.

#I1# Host – A senhora desenvolve um trabalho de consultoria em várias áreas, como planejamento, gestão, marketing e capacitação em desenvolvimento de recursos humanos. Na sua opinião, qual é o componente de desenvolvimento na atividade turística brasileira que necessitaria de mais atenção?
Doris – Em aspectos como marketing e divulgação, nós somos muito bons. O que falta é a estruturação do produto. Às vezes, você acaba vendendo uma coisa maravilhosa, um sonho fantástico e, quando o turista chega, a mão-de-obra não está capacitada, o empreendimento não é bem aquele… Na minha opinião, nós deveríamos nos preocupar com a estruturação do produto e com a formação de gestores.

#I1# Host – Então o problema não é o planejamento, como muitos podem pensar?
Doris – Os órgãos estaduais, por exemplo, têm bons planejadores, o que eles não têm é quem execute os projetos. A falta é de gestores para os processos de implantação ou remodelação de produtos turísticos. Participei de um seminário sobre a criação de uma rede integrada em formação em Porto Seguro, incluindo companhias aéreas, hoteleiros, donos de pousadas, restaurantes, fornecedores, para revitalizar o destino. Agora, é preciso ter consciência de que a atividade turística também tem uma espécie de ciclo de vida, com fases de implantação, crescimento e amadurecimento. Porto Seguro se estabilizou como um local de turismo de massa, e assim ele permanece. Nunca mais vai ser considerado como um destino elitizado.

#I1# Host – E ele pode se manter assim, como um destino turístico de grande fluxo de pessoas?
Doris – Ele vai se manter assim. Algumas pousadas vão fechar, outras não, mas ele vai manter esse tipo de turismo, porque não se conhece no mundo um local que tenha virado um “destino fantasma”. O fluxo de turistas continua, mas de uma forma diferente.

#I1# Host – As mudanças nos status dos destinos turísticos têm ligação com a condição socioeconômica de seus visitantes?
Doris – Nesse sentido, podemos dizer que a teoria do turismo das classes sociais pode ser determinante nessa espécie de ciclo de vida de um destino turístico. O estabelecimento de um novo destino tem início, muitas vezes, com a chegada de visitantes pouco convencionais, como surfistas, hippies, jovens, um público, digamos assim, mais descolado, atraído pelas belezas naturais. Eles se integram ao local, interagem com a comunidade, vêm de mochila, dormem no mato, comem a comida local… Aí pronto, um novo destino está descoberto! Depois vêm os ricos, que começam a fazer belas casas de veraneio; daí aparece uma pousada, um hotel. Até esse ponto ainda é um turismo de elite. Com o passar do tempo, tem tanta pousada, tanto equipamento receptivo, tanto guia e tanto hotel que os turistas de elite não dão mais conta de ocupar. Então o que acontece? Começa a baixar o preço. E aí vem o turismo de massa, que é o vilão da sustentabilidade. Infelizmente. Aí vem um ônibus, dois ônibus, três ônibus… Outro dia estive em Campos do Jordão e chequei que houve 700 ônibus de turismo na cidade num único domingo.

#I1# Host – Não há como evitar esse processo?
Doris – Uma possibilidade é limitar o número de visitantes, assim como de leitos, em um determinado lugar. Daí você consegue limitar também o fluxo de pessoas. São coisas que você tem de fazer para garantir a sustentabilidade. Fica mais fácil em lugares sobre os quais você tem alguma capacidade de controle.

#I1# Host – Isso é feito em Fernando de Noronha e Bonito. Nesses lugares é mais fácil controlar as entradas. Mas o que fazer quando não há essa alternativa? Existe alguma outra forma de controle, de agente limitador?
Doris – Sim, o preço. E isso pode ser considerado um tanto perverso, mas funciona como uma espécie de instância reguladora do fluxo de visitantes. Às vezes sou chamada de elitista, mas as atividades têm de ser controladas. Se você me pedir exemplos de empreendimentos sustentáveis, eu citarei os que fazem parte da rede do Roteiro do Charme.

#I1# Host – O turismo de massa é sempre condenável?
Doris – Não. O turismo de massa não é condenável. O que é condenável é o número de pessoas que o turismo de massa atrai. Mil e quinhentos charters no verão para Porto Seguro. Aviões lotados, saindo de Congonhas, não dá. O problema é o grande número de pessoas. Hoje o turismo de massa é o grande pilar econômico de muitos destinos. Por quê? Porque é muito difícil você ter rentabilidade numa pousada do Roteiro do Charme, ou num resort ecológico. Ele tem de ser muito caro para ter um retorno financeiro. Se você tirar os ônibus de Campos de Jordão, ou os vôos charters de Porto Seguro, esses destinos quebram. Como planejadora, acredito que as coisas devam ser feitas devagar. Se acontecer um boom, não será sustentável. O turismo sustentável, ambientalmente correto, vai crescer. Agora, no momento em que se tornar de massa, estará comprometido.

#I1# Host – Na sua opinião, o ecoturismo pode contribuir para a proteção ambiental?
Doris – Com certeza. Só que, na prática, as coisas não estão acontecendo como deveriam no Brasil.

#I1# Host – Quais seriam os princípios inegociáveis do ecoturismo?
Doris – Eu acho que a ênfase recai sobre o cuidado não só com o ambiente natural, mas também com as áreas urbanas. Por exemplo, ainda falta trabalhar melhor a questão do destino dos efluentes. É muito mais fácil você direcionar o esgoto de um empreendimento para um regato próximo ao local. Por exemplo, onde vai parar o lixo produzido por um hotel de selva instalado no Rio Solimões? Não adianta o empreendimento afirmar que o lixo não fica lá. Para onde é que vai esse lixo? O empreendedor também tem de ter esse cuidado. Isso é sustentabilidade. Além disso, prever que os benefícios do turismo cheguem às comunidades locais também deve ser um princípio inegociável.

#I1# Host – Os empresários têm condição de cuidar de toda essa estrutura sozinhos?
Doris – Sozinhos, não. O que a gente sugere é que os empresários façam uma cooperativa e que o governo também faça a sua parte. Que os empresários façam a coleta seletiva e que o governo instale usinas de reciclagem. O governo tem que instalar o esgoto. Agora, como é que o governo vai instalar um sistema de esgoto 200 quilômetros rio adentro? É necessário buscar sistemas alternativos.

#I1# Host – Uma última curiosidade: para onde a senhora viaja nas férias?
Doris – A minha última viagem de férias foi em 2003, durante o período do Carnaval. Eu e meu marido passamos dez dias no Sul do Brasil. Eu sou catarinense, ele é gaúcho. Mas mesmo de férias não dá para perder o olhar profissional.

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