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Entrevista

Novos desafios para a sustentabilidade

Para Oliver Hillel, integrante do Secretariado da Convenção da Biodiversidade, a agenda do turismo sustentável passa a contar com novos desafios, como proteção à biodiversidade e controle do aquecimento global

Crédito: Flávio Mendes Bitelman

Com uma trajetória que inclui atuações em praticamente todos os continentes, o brasileiro Oliver Hillel pertence à categoria dos “cidadãos do mundo”. Em seu caso, pode-se dizer do “mundo da sustentabilidade”. Atualmente responsável pela área de turismo na Convenção da Biodiversidade do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ele acumulou durante cerca de 20 anos experiências como professor e consultor nas áreas de hotelaria e desenvolvimento de projetos, além de ter sido diretor de Ecoturismo da Conservation International – ONG ambiental com sede em Washington, onde gerenciou cerca de 35 projetos em 17 países tropicais – e coordenador do Programa de Turismo do PNUMA.

Com formação nas áreas de biologia e hotelaria, mestrado em educação ambiental e MBA em contabilidade, Hillel trabalhou na implantação de projetos de ecoturismo, turismo sustentável, recuperação de patrimônio histórico e cultural em países como Vietnã, Gana, Guatemala e Madagascar. No Brasil, participou do desenvolvimento de projetos no Pantanal e em Bonito, além de colaborar com o Programa para o Desenvolvimento do Ecoturismo na Amazônia Legal – PROECOTUR, desenvolvido pelo Ministério do Meio Ambiente, entre outros programas.

Residindo em Montreal, Canadá, onde fica a sede do Secretariado da Convenção da Biodiversidade, Hillel foi um dos convidados do Fórum Mundial para Paz e Desenvolvimento Sustentável, realizado em Porto Alegre em dezembro último. Em suas palestras e na plenária final do encontro, reforçou a importância de valorizar o turismo sustentável para garantir a competitividade dos países e as opções estratégicas para esse fim. Na entrevista a seguir, ele destaca pontos da agenda global do turismo sustentável e alerta: “A questão das mudanças climáticas, do aquecimento global, terão forte impacto sobre a atividade turística. O turismo contribui para o problema, mas também pode colaborar para que ele seja amenizado.”

#I1# Host – Como teve início a preocupação com a sustentabilidade na indústria do turismo?

Hillel – O movimento pela sustentabilidade no turismo começa na década de 1970, com um questionamento sobre os danos que a atividade em larga escala poderia causar. Chegou-se à conclusão de que o turismo poderia ser tão danoso à diversidade natural e cultural como qualquer outra indústria. Teve início, então, uma série de movimentações por um turismo mais justo, que pudesse ser realizado em menor escala, respeitando o meio ambiente. Uma das conseqüências desse questionamento foi o surgimento do ecoturismo, conceito que teve origem na esfera cultural dos Estados Unidos no início dos anos 1980. Já o conceito do turismo sustentável tem uma raiz mais européia, mas os dois acabaram por se interpenetrar. Hoje, é preciso que o turismo seja sustentável em toda a sua cadeia.

#I1# Host – É possível expandir o conceito da sustentabilidade em tal dimensão?

Hillel – Pequenos segmentos turísticos como o ecoturismo, o turismo eqüitativo, o geoturismo, que pretende preservar a autenticidade local, funcionam com laboratórios onde se desenvolvem novas tecnologias e práticas. Embora não atinjam um grande número de pessoas, essas experiências e inovações contribuem para o fluxo do turismo sustentável, que irá permear outras atividades turísticas de maior demanda. É importante fazer com que as inovações atinjam o mainstream e, ao mesmo tempo, provocar esses laboratórios para que aumentem seu alcance de mercado.

#I1# Host – Qual é a agenda do turismo sustentável?

Hillel – Essa agenda varia ao longo do tempo. Há algum tempo, ela esteve centrada em proteção ambiental, mas o assunto já foi bastante discutido. Hoje em dia ela tem muito a ver com preocupações como combate à pobreza, mudança climática, diversidade cultural, autenticidade, biodiversidade. Por exemplo, a Inglaterra vem trabalhando com investimentos no turismo voltado à diminuição da pobreza. Outros governos europeus também estão investindo na idéia de gerar um turismo – seja qual for o segmento – que proporcione emprego e renda para populações extremamente carentes.

#I1# Host – Em que países esses investimentos têm sido feitos? Já é possível observar resultados?

Hillel – O Reino Unido trabalha muito com Gâmbia e Madagascar, países realmente muito pobres. Mas toda a idéia é ainda muito questionável. Será que se consegue de fato diminuir a pobreza em escala significativa com a construção de hotéis? As experiências ainda são muito recentes e dependem de investimentos governamentais. O setor privado pode até entrar no negócio, mas precisa de garantias para seu retorno, precisa de parâmetros para reduzir riscos. Simplesmente construir um resort numa zona de conflitos no Sudão não dá certo. O que já está comprovado, no entanto, é que o turismo é uma das poucas alternativas para o desenvolvimento de países pobres. Curiosamente, muitos desses países também são ricos em belezas naturais.

#I1# Host – O aquecimento global constitui uma ameaça para a atividade turística?

Hillel – Há vários fatores que ligam turismo, aquecimento global e mudança climática. O mais evidente é que o aquecimento global afetará fortemente o turismo, pois as conseqüências que estão sendo previstas podem alterar a disponibilidade de recursos essenciais para a atividade, como água e ambientes naturais. Basta pensar na elevação do nível do mar, o que já vem ocorrendo globalmente. Países insulares, por exemplo, onde o turismo representa cerca de 80% do Produto Interno Bruto, poderão sofrer graves transtornos no desenvolvimento. O turismo também contribui para as alterações climáticas, por pouco que seja. Entre 3% e 4% da emissão global de gases de efeito estufa podem ser atribuídos a viagens e turismo.

#I1# Host – Qual seria uma atitude adequada para lidarmos com esse risco?

Hillel – A indústria do turismo pode fazer muito para ajudar a controlá-lo. Por exemplo, promovendo ações de reflorestamento, a longo prazo, como forma de neutralizar a emissão de gases de efeito estufa gerados com os deslocamentos em viagens. Uma outra grande contribuição pode ser dada financiando a conservação da natureza. Evitar o desmatamento é uma das medidas mais eficazes para reduzir a emissão de carbono. Então, se por conta da atividade turística conseguirmos manter uma floresta na África, na Amazônia ou em Bornéu, já teremos uma grande contribuição. Da mesma maneira, será possível conservar para uso turístico diferentes ecossistemas ameaçados, como recifes de coral, mangues, praias.

#I1# Host – Isso significa que o turismo tem uma ação protetora para o meio ambiente?

Hillel – Sim, o turismo protege mesmo. Conheço exemplos de parques que foram criados pela demanda turística. Em boa parte do mundo, o sistema de parques naturais e sua manutenção estão diretamente ligados às atividades de visitação, seja pelos recursos gerados com os visitantes, seja pela importância política das áreas protegidas que é reforçada pelo afluxo de pessoas.

#I1# Host – A relação entre turismo e mudança climática já é percebida pela sociedade e pelos envolvidos com essas atividades?

Hillel – Ainda não. A mudança climática e seus desdobramentos são assuntos recentes para a sociedade. No momento, a discussão está muito ligada à questão da energia, ao uso do petróleo e o que poderá substituí-lo como matriz energética. Mas isso vai mudar, e a discussão passará a considerar também a questão da biodiversidade. Cada vez mais as pessoas vão perceber que mudança climática, biodiversidade e turismo estão interligados.

#I1# Host – No âmbito da Convenção da Biodiversidade, qual o papel desempenhado pela atividade turística?

Hillel – A convenção trabalha com vários temas, de acordo com a decisão dos mais de 180 países participantes. Um deles diz respeito à ligação entre biodiversidade e turismo, cujas diretrizes foram estabelecidas em 2004. Os países-membros reconheceram a atividade como uma das mais ligadas à biodiversidade, pois o uso sustentável dos recursos ambientais é uma das formas de conscientizar as populações sobre sua importância. O turismo também proporciona meios para financiar a conservação da biodiversidade e oportunidades para geração de renda e consolidação de cidadania para populações do entorno de áreas de grande riqueza ambiental.

#I1# Host – Os cuidados com a sustentabilidade significam maiores custos para os empresários em seus negócios?

Hillel – A questão não deve ser vista sob esse ângulo. Com a economia proporcionada pelas práticas de sustentabilidade na utilização de água, energia e outros recursos naturais, o setor privado tem condições de arcar com esses custos, sejam eles obrigatórios ou voluntários. Grandes grupos hoteleiros, como Accor e Hilton, por exemplo, já sabem que economizam de 15% a 18% dos custos operacionais tornando-se sustentáveis. Ninguém pensa mais se vale a pena economizar recursos naturais, porque já se sabe que sim, e quem é inteligente vai adotar essas medidas. O difícil é cobrir o que é de responsabilidade do setor público, como a proteção de recursos naturais. Mas já há algumas iniciativas de parcerias entre governos, setor privado e organismos internacionais de financiamento que direcionam recursos para que empreendimentos do setor de turismo possam atuar na área da preservação ambiental, criação de reservas, pesquisas e capacitação de pessoal. Tais experiências estão sendo bem-sucedidas e devem se multiplicar.

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