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Entrevista

Ganhando força com desafios

Alexandre Zubaran, diretor-presidente da Costa do Sauípe e presidente da Associação Brasileira de Resorts, avalia o processo de amadurecimento do segmento de resorts e prevê novas perspectivas para a atividade

Divulgação

Poucos profissionais do turismo brasileiro têm uma visão tão abrangente, incluindo as vertentes operacionais, mercadológicas e estratégicas, do segmento de resorts como Alexandre Zubaran. A carreira do diretor-presidente do complexo Costa do Sauípe, na verdade, vem acompanhando o desenvolvimento no Brasil desse segmento da hotelaria que ocupa seu lugar ao sol, incluindo muito lazer e conforto.

No final dos anos 1970, com 20 anos, o carioca Zubaran trocou o Rio de Janeiro por Angra dos Reis, para trabalhar como guia de lazer no Hotel do Frade, uma das primeiras experiências do gênero no Brasil. Aos 21, já era gerente-geral e não parou mais. Tampouco voltou para o Rio. Na seqüência, atuou na rede Othon, administrando resorts em Maceió e Ilhéus, e nas áreas comercial e de marketing, até assumir a operação nacional do grupo em São Paulo. Depois foi a vez de passar para o outro lado do balcão, atuando na Viagens Costa, uma das maiores operadoras do mercado e ainda na rede Tropical de hotéis. Mas foi no trabalho desenvolvido no final dos anos 1990 e início de 2000 na Pousada do Rio Quente (que ele transformou em Rio Quente Resorts) que ele construiu seu primeiro case de sucesso no segmento. Simultaneamente, dirigiu a estratégia de vendas e marketing do resort goiano, da operadora exclusiva do empreendimento, Valetur, e do parque aquático Hot Park. Ao final de quatro anos, o complexo já recebia mais de 1 milhão de pessoas por ano, tornando-se o mais visitado do país.

Credite-se, ainda, à multiplicidade de atuações do executivo – e à habilidade em multiplicar o tempo com o auxílio da tecnologia – o conhecimento adquirido nestes cerca de 19 anos de atividade, aperfeiçoados com pós-graduação em Administração Hoteleira e MBA em Economia do Turismo. Além de estar desde 2004 na direção do complexo hoteleiro mais visitado do país, Zubaran foi um dos fundadores, em 2000, da Associação Brasileira de Resorts (Resorts Brasil), da qual é presidente e que reúne 40 empreendimentos. De quebra, encontra espaço na agenda para presidir o Fórum de Investidores Turísticos do Litoral Norte da Bahia, ser vice-presidente do Cluster de Entretenimento da Bahia e do Conselho de Administração do Instituto de Hospitalidade, além de participar do Conselho da Bahiatursa e do Conselho Nacional de Turismo.

Na entrevista a seguir, Zubaran fala dos ciclos de desenvolvimento dos resorts no Brasil, dos problemas que afetam o desempenho da atividade e das perspectivas positivas que se configuram a partir da presença de novos investimentos e da consolidação do fluxo de turismo interno.

#I1# Host – Como se deu o desenvolvimento desse segmento hoteleiro no Brasil?

Zubaran – O conceito de resort no Brasil vem sendo amadurecido nos últimos anos, com a expansão dos empreendimentos e do processo de desenvolvimento turístico do país. No entanto, podemos dizer que o segmento vem se desenvolvendo em ciclos. O primeiro deles, no final da década de 1970, caracterizou-se pela presença de pequenos empreendimentos, como o Hotel do Frade, em Angra dos Reis, e o Plaza Itapema, em Santa Catarina. O marco desse ciclo foi o Tropical de Manaus, que incorporou de forma pioneira, além das atividades de lazer, a característica de hotel de selva.

#I1# Host – Em que momento, ou ciclo, o mercado se encontra?

Zubaran – Na minha avaliação, vivemos um terceiro ciclo. Ele acontece depois de experiências bem-sucedidas no litoral baiano – Praia do Forte, Comandatuba e Itaparica –, a partir de meados dos anos 80, e que posicionaram o segmento de resorts no Brasil. Entre 2000 e 2001, houve um salto muito grande e o segmento mais do que dobrou de tamanho. Surgiram empreendimentos como o Cabo de Santo Agostinho e o Blue Tree, em Angra dos Reis, o novo posicionamento do Costão do Santinho, em Florianópolis, e a Costa do Sauípe, que considero um marco desse momento. Em função das mudanças e do crescimento desse mercado é que, em 2000, um grupo de profissionais criou a associação Resorts Brasil, cuja missão explícita foi posicionar corretamente o conceito, de deixar claro também para o consumidor o que é um resort e de estabelecer uma matriz para a certificação desses empreendimentos.

#I1# Host – De acordo com essa visão, qual é a definição de um resort?

Zubaran – Um empreendimento de alto padrão, não obrigatoriamente de luxo, que oferece modernidade, conforto, lazer e proporciona convívio com a natureza. O consumidor pode viver uma variedade de experiências reunidas num mesmo local.

#I1# Host – Embora o contato com a natureza seja um dos atrativos oferecidos pelos resorts, são freqüentes as críticas à implantação desses empreendimentos por não respeitarem os princípios da sustentabilidade. Como o senhor vê esse conflito?

Zubaran – Existe uma grande polêmica em relação à coexistência de um modelo de desenvolvimento sustentável com o megaempreendimento. No meu modo de ver, esse modelo de turismo, de hotelaria, causa um certo espanto na cabeça do ambientalista ou do acadêmico. Para o modelo mental dessas pessoas só o nanoempreendimento, só os pequenos podem atuar com sustentabilidade. Os grandes provocam impacto negativo. Eu penso um pouco diferente. O megaempreendimento funciona como um tratamento alopático, com um efeito concentrado. Devido a sua escala, um resort preserva a área que ocupa e proporciona desenvolvimento em vários aspectos. Quando ele é instalado em local afastado de um grande centro, muitas vezes é preciso providenciar uma infra-estrutura que seria da responsabilidade do estado. No caso de Sauípe, por exemplo, o empreendimento levou energia elétrica, tratamento de água, melhorou o transporte. Tudo isso acaba por beneficiar a população local. Essa visão de que o nanoempreendimento agrega e o mega agride é um paradigma que precisa ser quebrado na cabeça das pessoas.

#I1# Host – Os empreendedores estão conscientes desses aspectos?

Zubaran – A preservação do meio ambiente, da diversidade cultural e o desenvolvimento social são fatores críticos para a viabilidade do próprio negócio. Então, o grande empreendimento não pode se dar ao luxo de cometer um crime ambiental, de não agir com eqüidade e transparência. É preciso também lembrar que o turismo é uma atividade econômica muito menos intensiva em relação ao meio ambiente do que qualquer outro segmento da economia. Agora, existe um problema do ponto de vista do controle da questão ambiental na esfera pública. Há várias instâncias que normatizam a questão ambiental, com órgãos no nível municipal, estadual e federal, além do próprio Ministério Público, que tem poder de fiscalização, com orientações muitas vezes conflitantes. É difícil para o investidor, nacional ou estrangeiro, compreender e atuar dentro dessa realidade.

#I1# Host – O que poderia ser feito para solucionar a questão?

Zubaran – Em primeiro lugar, é importante que o governo defina claramente se esse desenvolvimento hoteleiro é estratégico para o país, se é importante para a geração de emprego e renda, para o desenvolvimento econômico e social de uma região. Daí ele pode tomar uma atitude para colocar ordem nisso. A legislação ambiental tem de ser rigorosa, não pode abrir concessões, mas o investidor precisa receber informações precisas do que é permitido fazer. Nesse momento, o Ministério do Turismo tem senioridade e capital intelectual para administrar esses impasses e articular as diferentes instâncias em busca de um modelo mais claro.

#I1# Host – Os resultados divulgados pela Resorts Brasil apontam que a taxa média de ocupação de 35 empreendimentos associados passou de 55,18%, em 2005, para 53,08% em 2006. A que o senhor atribui esse recuo no último ano?

Zubaran – A hotelaria sofre com problemas conjunturais como outras atividades no setor de turismo. Entretanto, alguns deles têm maior impacto nessa atividade. É o caso do custo dos serviços públicos, que registraram aumentos superiores a 70% nos últimos três anos. Ou das despesas com encargos trabalhistas. Neste caso, isso é gravíssimo, porque nossa atividade é feita de pessoas e para pessoas. Vai na contramão do setor industrial, onde é possível reduzir custos via automatização, por exemplo. Além desses problemas conjunturais, tivemos de conviver com o dólar baixo, o que prejudica uma atividade exportadora como a nossa. E ainda sofremos com o gargalo da aviação civil. Primeiro com a crise da Varig e a suspensão de suas rotas internacionais, o que representou uma facada no peito da hotelaria exportadora. Depois com o problema dos controladores aéreos, que gerou uma percepção equivocada de insegurança no serviço. Digo isso porque um sistema complexo de segurança aérea como o que temos não implode do dia para a noite. Tudo isso acabou por retrair o consumo de turismo.

#I1# Host – A crescente oferta de cruzeiros no litoral brasileiro também contribui para essa retração?

Zubaran – O mais grave, nesse caso, é que tanto os problemas conjunturais como os de momento não afetam a atividade dos navios. Então a hotelaria sofre com essa falta de isonomia competitiva. Do ponto de vista mercadológico, há uma forte semelhança entre o consumidor de resorts e o de cruzeiros. Até porque ambos trabalham com o conceito do “all included”, com forte apelo para o lazer. Só que, pela legislação, um navio é considerado território internacional, não está submetido à mesma carga tributária, não paga serviços públicos e, muito importante, utiliza mão-de-obra internacional, o que representa um impacto muito menor com encargos trabalhistas. Além disso, pode aproveitar de maneira muito intensa os períodos de demanda, graças à sua mobilidade. Por isso, nosso segmento sofre com um choque assimétrico de comercialização. O que é necessário é regular essa atividade que está à margem da lei. No momento em que houver uma isonomia competitiva teremos uma concorrência justa. A cabotagem na costa brasileira é uma realidade. O consumidor gostou do produto e a atividade deve continuar.

#I1# Host – Quais as perspectivas de crescimento para o segmento de resorts nos próximos anos?

Zubaran – O setor hoteleiro está recebendo investimentos de aproximadamente US$ 5,3 bilhões. Desse total, 60% são direcionados para os resorts, a maior parte deles de capital internacional. Voltando à idéia dos ciclos de desenvolvimento, talvez estejamos iniciando um quarto período da atividade, marcado pela internacionalização dos empreendimentos, com forte presença da península ibérica. Mas ainda não será este o momento do grande boom dos resorts brasileiros.

#I1# Host – E esse momento vai demorar a acontecer?

Zubaran – O horizonte é muito positivo. O turismo brasileiro cresceu 15 anos em quatro. E o potencial é para que continue a crescer acima dos 15% pelos próximos dez anos. No segmento de resorts, não tenho dúvida de que nossa produção internacional, que hoje é por volta de 30%, vai crescer cada vez mais. Mas para que o setor adquira a musculatura que a gente espera, é preciso colocar o mercado interno para viajar. Temos de colocar o aposentado e o jovem para viajar e mostrar a diversidade de produtos que o Brasil tem e o brasileiro não conhece.

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