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Em Cena

O bom destino

1º Encontro Anual do Fórum Mundial de Turismo coloca o Brasil na Linha de frente do turismo sustentável

Presidente Lula: auto-estima do brasileiro reforça diretamente a indústria do turismo

E a via Brasil se consolida. Assim como promove o Fórum Social Mundial, que desloca o eixo das discussões globalizantes para questões mais ligadas ao dia-a-dia das pessoas, o Brasil foi cenário do Destinations 2004, primeiro encontro anual do Fórum Mundial de Turismo para Paz e Desenvolvimento Sustentável. Durante uma semana, com a presença de autoridades, membros de ONGs, empresários e interessados de 60 países, o Fórum ocupou Salvador, metrópole afro-brasileira que, este ano, respondeu por quase 20% do turismo receptivo do país. Nos três segmentos do encontro – Fórum Mundial de Turismo (1 a 3 de dezembro), Movimento Brasil de Turismo e Cultura (4 a 6) e Seminário Turismo Sustentável e Infância (2 a 4) –, uma sucessão de casos e experiências que ligam o turismo à diversidade cultural e ao desenvolvimento econômico e social, preservando a biodiversidade e fomentando a paz, foram expostos e debatidos. Tal intercâmbio, enfatiza Sergio Foguel, presidente da Fundação Turismo para Paz e Desenvolvimento Sustentável e do Instituto de Hospitalidade, parceiro executivo do evento, contribui para tornar realidade um sonho. “O Fórum é, essencialmente, um pacto em prol de uma causa: realizar o potencial da força transformadora que é o turismo, uma das maiores atividades econômicas do mundo, capaz de ressoar em esferas múltiplas da vida e dos desafios da contemporaneidade.”

Turismo é festa! E Destinations 2004 se deu em clima de festa. No aeroporto soteropolitano, cartazes anunciavam o evento e jovens uniformizados recepcionavam os participantes. Ao longo do percurso, bandeiras festejavam o encontro, que começou diante de uma platéia que lotou o Teatro Castro Alves. Foguel, um dos responsáveis pela concepção do Fórum, abriu os trabalhos, que tiveram a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (“O turismo pode ser a grande fonte de geração de renda e desenvolvimento de nossa economia”); do ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia (“O Brasil é a síntese do desafio que o Fórum se propõe debater; tem uma urgente necessidade de desenvolvimento econômico e social, que pode ser intermediada de forma sustentável pelo turismo”); do ministro da Cultura, Gilberto Gil; da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva; do ministro do Trabalho, Jacques Wagner; do governador da Bahia, Paulo Souto; e do prefeito de Salvador, Antonio Imbassahi. Dezenas de autoridades e parlamentares também compareceram.

Ainda na abertura, o guineense Carlos Lopes, representante da Organização das Nações Unidas no Brasil, leu mensagem dirigida pelo secretário-geral Kofi Annan, ressaltando que o Fórum é uma oportunidade para concretizar iniciativas que possam colaborar com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio propostos pela ONU. Como há turismo e “turismo”, o governo federal aproveitou o evento e o seminário Turismo Sustentável e Infância, promovido pela Organização Mundial do Turismo, para lançar oficialmente a campanha contra o turismo sexual, principalmente aquele que envolve crianças e adolescentes. A campanha quer que o turista se conscientize de que ele é um agente protetor da infância e da adolescência. Segundo o ministro Guia, houve um tempo em que praias e mulheres promoviam o Brasil no exterior, fomentando, ainda que involuntariamente, o turismo sexual. “Nosso objetivo é outro”, enfatizou. “É promover o país por sua diversidade cultural e natural.”

Para o presidente Lula, o brasileiro vê crescer sua auto-estima, fator que reforça diretamente a indústria do turismo. “A Bahia conseguiu transformar a baianidade em auto-estima, em referência de valor”, elogiou. Da mesma forma, a alegria, “um patrimônio brasileiro”, é um traço distintivo e contribui para reforçar a atividade, cujas metas são ambiciosas. Até 2007, pretende-se aumentar o número de visitantes de 5 milhões para 9 milhões, criando-se 1,2 milhão de postos de trabalho. Assim como são necessários competência e profissionalismo para a condução dos negócios do setor, mencionou o presidente, a mídia deve cumprir sua função, denunciando a violência, quando ocorre, mas apresentando conjuntamente os aspectos positivos do país. O governador Paulo Souto ressaltou que o povo baiano fez da hospitalidade um traço cultural. E que as festas que caracterizam o estado estão longe de ser só diversão, transformando-se em meio de vida. “Em 2004, no período do Carnaval, tivemos cerca de 900 mil visitantes em Salvador.”

O 1o Encontro Anual do Fórum Mundial, movimento constituído por meio da mobilização e articulação em escala global de pessoas e organizações da sociedade civil, empresas e entidades do terceiro setor e entidades governamentais e intergovernamentais, teve muita festa. Na sessão solene de abertura, o evento marcou seu caráter internacional com um desfile, pelo teatro, de bonecos gigantes de personagens mundialmente conhecidos por ações pela paz (Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Nelson Mandela, Pelé, Xico Mendes), e finalizado pelo espetáculo de música e dança dos alunos do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia. À noite, foi a vez de Daniela Mercury cantar a baianidade na Bahia Marina, embalada pela apresentação de capoeiristas e pela percussão das meninas do grupo Didá. E teve, a partir da sessão plenária de abertura, com o tema Sustentabilidade de Destinos Turísticos, com a participação de Eugenio Yunis, diretor do setor de Desenvolvimento Sustentável do Turismo da OMT, muito trabalho. Para Yunis, o turismo sustentável se apóia num tripé: uso dos elementos ecológicos; respeito aos valores locais; e desenvolvimento a longo prazo, beneficiando quem trabalha na região.

Debates, mesas-redondas, palestras, seminários, workshops. E encontros oficiais, como as reuniões do Conselho Executivo da OMT, com a presença de 29 ministros do Turismo de todos os continentes, além das reuniões do Fórum das Secretarias Municipais de Turismo, do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Turismo, e da reunião do Conselho Nacional de Turismo.

O 1o Encontro Anual foi um espaço em que, a par da informalidade e do espírito de colaboração, trabalhou-se por uma idéia que, por sua abrangência socioeconômica, pode ser também chamada de ideal. Os temas e os casos apresentados dão conta de que turismo é um negócio diferenciado, que beneficia alguns grupos, sim, mas sobretudo o grande grupo, a sociedade. É o caso, abordado no segmento Turismo e Desenvolvimento Social, da Fundação Casa Grande, de Nova Olinda, Ceará, que por meio de programas de memória, comunicação e turismo educa crianças e jovens da região do Cariri, contribuindo para recuperar a cultura e fortalecer a identidade locais. O projeto, de grande abrangência, trabalha com a capacitação para a recepção de turistas, recebidos em casas de famílias da cidade. Segundo Alemberg Nascimento, diretor da fundação, “o turismo tem de chegar a todas as classes e beneficiar diretamente a população”.

Outro caso, sempre tratando do turismo como fator de inclusão social, mostrou o trabalho das escolas-oficinas da Agência Espanhola de Cooperação Internacional. A agência atua na preservação do patrimônio de países em desenvolvimento por meio de escolas-oficinas – há 37 em funcionamento em 17 países americanos. Essas unidades, duas delas instaladas no Brasil, em Salvador e João Pessoa, atendem jovens de 16 a 25 anos, formando mão-de-obra voltada para a restauração de monumentos e a revitalização de centros históricos. A restauração do anfiteatro da antiga Faculdade de Medicina, no Pelourinho, foi integralmente executada por alunos da escola-oficina de Salvador. Um terceiro caso abordou o impacto da atividade turística em diferentes setores da Indonésia, com aumento do mercado de trabalho e a conseqüente redução da pobreza.

O seminário Turismo Sustentável e Infância enfocou iniciativas do Epcat, uma rede de organizações e pessoas que atuam para eliminar a prostituição e a pornografia infantis, bem como o tráfico de crianças para fins sexuais; da Força-Tarefa para a Proteção de Crianças da Exploração Sexual no Turismo da OMT; do Instituto de la Familia, programa para prevenir a exploração sexual de crianças no turismo da República Dominicana; e do grupo Accor, primeira grande rede hoteleira a assinar o código do Epcat e orientar seus funcionários em países sensíveis ao tema, como Tailândia, Laos, Camboja, Cingapura e Indonésia. Outros casos integraram os demais segmentos do 1o Encontro Anual, voltados para o turismo como elemento que promove a preservação da biodiversidade, a diversidade cultural, o desenvolvimento econômico e as condições para a paz. Nos encontros, foram expostas iniciativas empreendidas por países que recentemente estiveram em conflito, como Angola, Croácia, Sérvia e Montenegro. No conjunto, foram apresentadas mais de 40 experiências e iniciativas realizadas em 23 países.

O painel especial A Mídia e a Causa do Fórum Mundial de Turismo tratou do papel que os meios de comunicação de massa podem desempenhar em favor do desenvolvimento do turismo responsável. Para Foguel, a mídia tem um papel decisivo na produção de mudanças nos destinos turísticos e nos destinos das pessoas. Já que o assunto é a mídia, mais de 200 jornalistas se credenciaram, levando a todo o Brasil e a vários países a mensagem que vinha dos debates e seminários realizados nas salas do Trapiche Eventos, na orla de Salvador, para mais de 2,5 mil pessoas: o turismo, desde que tratado com seriedade, resolve.

Do lado do Movimento Brasil de Turismo e Cultura, a atividade também foi intensa. E festiva! A programação começou com vivências, a experimentação da vida baiana, em caminhadas culturais, circuitos pelas igrejas e solares de Salvador, e prosseguiu com o laboratório das Redes de Redes, que engloba redes temáticas sediadas em diferentes continentes.

Cada cabeça,uma sentença. Para Rafael Sanches Neto, diretor de Educação Profissional do Instituto de Hospitalidade, “o sucesso e a importância do 1o Encontro Anual reafirmam a enorme potencialidade desta nova área turística, relacionada com projetos de desenvolvimento sustentável, abertos para o mundo e para o Brasil. Ao sediar o Fórum, o Brasil pode se posicionar como epicentro de uma nova forma de turismo”. Para Amparo Gómez, da Agência Espanhola de Cooperação Internacional, o Fórum demonstrou que “é preciso, nas políticas e planejamento do turismo, não perder de vista os inconvenientes trazidos pela atividade, enfatizando a necessidade de preservar a autenticidade dos locais e de seus habitantes, avaliando planos e experiências”. Maria Luisa Leal, diretora de marketing do Ministério do Turismo, destacou que “uma das grandes qualidades do encontro foi fornecer referências à causa do desenvolvimento sustentável na atividade turística e chamar a atenção para experiências inovadoras, bem-sucedidas nesse aspecto”.

Destinations 2004 conjugou propostas sérias e ambiente informal, na melhor tradição baiana, para um público que incluía do embaixador do Vietnã, Ngueyn Van Huyngh, a estudantes de turismo. Um clima tão amigável que até o acesso à internet, disponível no web center montado pela organização do evento, se fez sem as batalhas campais que o caracterizam em encontros de grande porte. É a via Brasil.

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