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Em cena

Chegou a hora da fogueira…

A vida nordestina vai mudar no mês de junho. As festas de São João vão animar Campina Grande, Caruaru e toda a região

Durante 30 dias, o cotidiano de Caruaru, em Pernambuco, é marcado pela animação de milhares de pessoas embaladas pelas diversas atrações dos festejos

Para mergulhar no mês de junho nas tradições e modernidades juninas, ainda mais no Nordeste do Brasil, é impossível não chamar para o palco, antes de tudo, seu Luiz Gonzaga (1912-1989), o mestre dos mestres:

“A fogueira tá queimando/ em homenagem a São João/ O forró já começou/ Vamos gente, rasta pé nesse salão/ Dança Joaquim com Isabé/ Luiz com Iaiá/ Dança Janjão com Raqué/ E eu [o próprio, com sua voz inconfundível] com Sinhá/ Traz a cachaça, Mané/ Eu quero vê, quero vê páia voar”.

O forró em questão, feito em 1952 por Gonzaga e seu parceiro Zé Dantas, recebeu o título de São João na Roça. É apenas um entre os vários que a dupla fez para homenagear uma das maiores festas populares do Brasil, não apenas daquele tempo. Ainda hoje, apesar de a chamada indústria cultural estar cada vez mais presente, a busca pelas raízes continua. A festa junina, embora tenha se tornado um produto comercial, ainda pulsa vibrante em vários estados brasileiros. O Sul maravilha, tão voltado para o mundo globalizado e midiático, banha-se pouco nessas tradições juninas, que ainda resistem mesmo nos superlativos espetáculos de Caruaru (PE) e Campina Grande (PB). Até as respectivas capitais Recife e João Pessoa, nos últimos tempos, têm organizado programações especiais para a festança.

“Na nossa festa não entra música sertaneja, apenas forró”, exclama Milton Santana. Consultor há cinco anos, ele presta serviços nas áreas de logística e marketing para grandes eventos. Por meio de sua empresa, a A-Sim Comunicação, do Recife, um de seus clientes é a prefeitura de Caruaru. “Também trabalho há dois anos com o pessoal de Campina Grande”, afirma. Se fosse em São Paulo, seria o equivalente a atender tanto o Corinthians como o Palmeiras. Ou no Rio, no caso do exemplo futebolístico, o mesmo que prestar serviços para o Flamengo e o Fluminense. “As duas festas apresentam mais ou menos os mesmos números”, desconversa Santana quando indagado sobre qual cidade, enfim, detém realmente o título de “Maior e Melhor São João do Mundo”. “Nas duas cidades, as festas, que duram 30 dias, atraem 1,5 milhão de pessoas e movimentam R$ 20 milhões em termos econômicos”, explica o consultor. O número de pessoas em 2005 deve ser praticamente o mesmo dos últimos anos. Essa quantidade de gente é mais do que suficiente para garantir a ocupação de 100% do setor hoteleiro das duas cidades.

Um tanto pelo discurso da mídia, outro tanto pela cultura e pela filosofia de outros tempos, a verdade é que São João realmente muda o cotidiano nordestino durante 30 dias. Apesar de o dia do santo ser comemorado apenas em 24 de junho, ele acaba sendo sinônimo de todas as festas do mês, com forró pé-de-serra de preferência. Isso não significa que Santo Antônio (13 de junho) e São Pedro (29 de junho) sejam esquecidos, muito pelo contrário. Em junho, no Nordeste, como diz um outro forró de Luiz Gonzaga, parceria de 1951 com José Fernandes, o convite deve ser sempre feito: “Olha pro céu meu amor/ Vê como ele está lindo/ Olha praquele balão multicor/ como no céu vai sumindo”.

Para um turista do Sul, descompromissado com análises das relações comerciais e das reais identidades culturais das festas juninas, a experiência, em especial na primeira vez, é riquíssima. Para começar, do ponto de vista visual. Estabelecimentos comerciais e até sacadas dos edifícios residenciais, inclusive das grandes cidades, são enfeitados com bandeirolas. Mesmo que estilizados, os funcionários passam a vestir a roupa do bom matuto. Os kits fogueira, com as pequenas lenhas empilhadas e amarradas, prontas para serem montadas, são vendidos nas esquinas. Na véspera de São João – que em Pernambuco e na Paraíba é um feriado bem registrado em todos os calendários, assim como em outros locais do Nordeste – todos precisam acender uma fogueira na rua para fazer uma homenagem ao santo.

“Tenho fé nessa fogueira/ Acesa por minha mão/ Que falará a verdade/ Em noite de São João”, diz a poesia A Alcachofra, do artista popular Palmeirim, citada por Luís da Câmara Cascudo em sua Antologia do Folclore Brasileiro. Do visual para os ouvidos, a surpresa continua. As cidades fazem concurso de quadrilha. Qual intérprete tem a voz mais parecida com a de Luiz Gonzaga?, pergunta o locutor de uma rádio que, durante o mês de junho, dedica toda a sua programação ao ritmo oficial da festa.

“O Maior São João do Mundo, mesmo ligado à indústria do lazer e da cultura da qual faz parte, é a continuação do passado, o retrato atual da manifestação tradicional da cultura nordestina”, diz Valdir Morigi. O sociólogo defendeu uma tese acadêmica sobre a festa junina de Campina Grande. Não apenas baseado na teoria, mas também a partir de um mergulho nas cenas e nos sujeitos da festa. “A preservação que existe é uma forma de resgate das raízes e origens dessa cultura, ao mesmo tempo em que esta revela os traços da nordestinidade no presente.”

O pêndulo não balança sempre para o mesmo lado. Segundo o estudioso, hoje radicado no Rio Grande do Sul, “a tradição não consegue ser representada em seus sentidos autênticos, genuínos e originais de forma plena, mas persiste no imaginário dos agentes; tampouco o projeto modernizador da festa consegue destruí-la”.

A descrição dada pelo consultor Santana de como será a festa de São João em Caruaru, na versão 2005, corrobora em gênero, número e grau o que dizem os cientistas sociais que já analisaram a festa. “A tradição será mantida mais uma vez. Teremos agora 12 pólos de arraiais temáticos”, explica. O primeiro sobre balões, o segundo enfocando as quadrilhas, o terceiro os bacamarteiros, depois terá o do milharal, o sobre o Mestre Vitalino (1909-1963), o da Feira de Caruaru, o rural, o dos jovens com forró universitário – que aceita bateria, guitarra e outros instrumentos que dariam desgosto em Luiz Gonzaga (veja boxe sobre Arlindo dos Oito Baixos) –, e assim por diante. Os quatro restantes são pólos musicais. O principal deles contará com apresentações de nomes consagrados nacionalmente, como Dominguinhos, Maria Inês, Genival Lacerda, Fernando José e Santanna, o Cantador. Este sim com uma interpretação bem próxima da de Luiz Gonzaga.

A descrição dos temas da festa – os batalhões de bacamarteiros disparam suas armas para festejar Santo Antônio casamenteiro; o nascimento de São João Batista e São Pedro; as obras de Mestre Vitalino, artesão local brilhante, mesmo sem nunca ter aprendido a ler – dá a real dimensão do clima. A festa de Caruaru, cidade com 250 mil habitantes localizada no agreste pernambucano, a 130 quilômetros da capital, Recife, precisa estar de certa forma lastreada na tradição para não se perder totalmente em adjetivos comerciais. O mesmo ritual de tradições deverá dar o tom dos festejos em Campina Grande, cidade com 355 mil habitantes, a 120 quilômetros de João Pessoa, no interior da Paraíba.

“O crescimento das festas juninas de Caruaru e de Campina Grande é indicativo das transformações pelas quais a festa tradicional no Brasil vem passando e do modo como vem se inserindo na modernidade”, explica Rita Amaral, antropóloga paulista que também já se debruçou sobre o tema. O estudo da pesquisadora “Festa à brasileira – sentidos do festejar no país que ‘não é sério’” teve uma abordagem mais geral, considerando inclusive a Festa de Parintins, no Pará. “As festas juninas do Nordeste têm absorvido elementos novos sem abandonar suas principais características e mediado as relações entre tradição e modernidade, urbano e rural, entre muitas outras, de todas as festas”, afirma ela.

Para quem está querendo só animação e um pouco menos de sociologia ou antropologia, o destino Nordeste, ainda mais em junho, é o ideal. No interior do Nordeste a festa tem início no primeiro fim de semana do mês e prossegue até os primeiros dias de julho. Os shows acontecem todos os dias, apesar de as melhores programações serem reservadas para o fim de semana.

No quesito gastronomia, a culinária festiva, baseada no milho, fica ainda mais em alta nessa época do ano. “O milho era uma presença na alimentação indígena, mas não constituía determinante como a onipoderosa mandioca e a macaxeira, amável e fácil”, ensina Câmara Cascudo em seu livro História da Alimentação no Brasil. Se entre os indígenas o milho não tinha um papel central, o mesmo não ocorria entre os colonizadores e outros povos que desembarcaram na América Latina. “Os aproveitadores do milho foram os portugueses (bolo, canjica e pudins) e os africanos (papas, angus e mungunzás).” Se a tradição das festas juninas veio do além-mar, a comilança baseada no milho também. Os portugueses, inclusive, ainda comemoram bastante São João por lá.

Tem canjica, bolo de milho, pipoca, fogueira, quadrilha, balão e foguete, muito foguete. O forró estremece o chão. Os arraiais gigantescos e lucrativos do Nordeste se reinventam a cada ano. O prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital, disse em abril que mais uma vez vai prestigiar os artistas locais durante a festa. Entre os desconhecidos e os grandes nomes serão mais de 400 artistas a se apresentar durante os 30 dias de festa, que este ano, inclusive, vai se prolongar pelos primeiros dois dias do mês de julho. Outra novidade anunciada: os 18 bairros da cidade terão pólos de festa próprios. Não ficará tudo concentrado no Parque do Povo, garante a prefeitura. “A idéia é democratizar os festejos do Maior São João do Mundo e fortalecer a maior festa popular”, garante Vital. Os 42 mil metros quadrados do Parque Luiz “Lua” Gonzaga, em Caruaru, também serão o palco do maior São João que a cidade já viu, anunciou a prefeitura da cidade pernambucana, que criou até um comitê gestor para lidar com a festa. O clima da roça, mesmo que inserido em ações cenográficas, estará presente. O que passa longe da encenação é a alegria, a emoção e a animação popular. Tanto dos nordestinos como dos turistas.

São João é tempo de voltar para casa. Os nascidos no Nordeste do Brasil usam o mês de junho para tirar umas férias e voltar às raízes. O exemplo vem dos próprios políticos das cidades onde a festa ocorre que vivem em Brasília. Claro que São João não tem apenas as dimensões econômicas, sociais ou culturais. Também é tempo de juntar forró com as próximas eleições. A festa pode ser também um momento lúdico, onde aquele amor que se foi bem que poderia aparecer de novo, e tudo voltar a ser como era antes. Ou será que a modernidade só sabe olhar para a frente?

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