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Em Cena

Bola pra frente

Jogos Pan-Americanos movimentam a cadeia do turismo, lapidam imagem do Brasil no exterior e colocam o Rio de Janeiro na rota dos grandes eventos

Legado: Rio se beneficiará de toda a estrutura esportiva, grande parte construída, como o Estádio João Havellange, para 75 mil pessoas, e o velódromo que abrigará as provas de ciclismo Crédito: Eliane Carvalho

“Mens sana in corpore sano” – “mente sã em corpo são”. A tradicional expressão romana, que marcou as primeiras competições esportivas na Antigüidade, inspira o Rio de Janeiro nos preparativos para sediar os Jogos Pan-Americanos (Pan 2007), entre 13 e 29 de julho. E não podia ser diferente. Corpos sarados, ar blasé de quem vê belas praias à sua frente, ginga esperta de quem gosta de levar vantagem em tudo (ou quase tudo), o carioca – e a cidade onde ele vive – transmite para o mundo a imagem da vida saudável, da descontração e do mais tradicional jeitinho brasileiro. E encarna mais do que ninguém a velha máxima do carioquíssimo Vinicius de Moraes: “As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”.

Carioca que é carioca prefere a comida light, a vida ao ar livre. E não gosta de chuva, nem de dias nublados. É hospitaleiro. No entanto, dizem as más línguas, ninguém deve se assustar se porventura ele convidar para jantar e não der o telefone e o endereço de casa. Mas isso, às vezes, é relativo – perdoa-se. É um pequeno detalhe que se dilui em meio ao astral que, quando o Pan 2007 se aproxima, está lá em cima. É verdade que ameaças rondam essa energia positiva: problemas, como a violência urbana, tentam puxá-la para baixo. Seja como for, o carioca vê agora uma chance de dar a volta por cima. Mais que isso: graças a esse megaevento internacional, o Rio de Janeiro – cartão-postal do Brasil no mundo – tem tudo para ganhar impulso e dar um novo salto de qualidade. Será uma preciosa chance de transformar toda essa beleza e vontade de mudar em instrumento capaz de tornar o turismo um motor para estimular negócios, gerar renda, abrir perspectivas de vida para a população e, por que não, estabelecer uma cultura da paz.

A razão é simples: “Durante os Jogos, teremos no Rio de Janeiro uma elite de formadores de opinião muito importante para o turismo”, explica Paula Sanches, coordenadora-geral das ações do Ministério do Turismo para o Pan 2007. Serão 5,5 mil atletas de 42 delegações, além das equipes de fiscais, árbitros e técnicos e cerca de 3 mil jornalistas de várias partes do mundo. Ao todo, espera-se a chegada de 780 mil visitantes. “A cidade terá exposição em massa na mídia internacional, o que é uma ótima oportunidade para mostrar que o Brasil não é apenas sol, mar, samba e futebol”, destaca Paula. Um evento desse porte, segundo ela, tem um grande poder multiplicador para fixar a imagem do país no exterior. Diante disso, o Ministério do Turismo está aplicando R$ 1,2 milhão em peças promocionais, participação em feiras internacionais e outras ações para associar turismo e esporte.

#I1# Investimento prioriza segurança

No total, R$ 1,8 bilhão estão sendo investidos nos preparativos e nas instalações do Pan 2007. Da reforma do Maracanã à construção do estádio João Havelange para 75 mil pessoas no bairro do Engenho Novo, as obras incluem também vila olímpica, velódromo, parque aquático e complexos esportivos, sem contar toda a infra-estrutura de telecomunicações, tecnologia de informação e serviços de áudio e vídeo. Além das instalações esportivas, R$ 385 milhões estão sendo empregados para garantir a segurança pública no Rio de Janeiro durante o evento. O investimento prevê a reformulação do sistema de inteligência, treinamento de policiais, melhorias no sistema de radiocomunicação e aquisição de aeronaves e viaturas. Para o setor de turismo, estão previstos R$ 175 milhões, dos quais a maior parte, R$ 165 milhões, será aplicada na reforma e ampliação do Aeroporto Santos Dumont – uma obra iniciada em 2005 e que agora, para dar suporte ao Pan 2007, está sendo acelerada.

As obras e melhorias serão herdadas pelos cariocas. “Toda a infra-estrutura que está sendo montada e a experiência na organização do Pan 2007 credenciarão o país como destino de grandes eventos”, afirma Jeanine Pires, presidente do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur). Segundo critérios da International Congress and Convention Association (ICCA), o Rio de Janeiro é a cidade que mais recebe eventos internacionais em toda a América, à frente de qualquer cidade norte-americana. Nos últimos dados divulgados pela instituição, referentes a 2005, o Brasil ocupa o 11o lugar no ranking dos países por número de convenções internacionais e a oitava colocação em quantidade de participantes.

Em médio prazo, após os Jogos Pan-Americanos a expectativa é a capital carioca alcançar um destaque ainda maior nesse setor, tendo em vista outras obras em curso na cidade. O Riocentro, o maior espaço de eventos da capital, está sendo reformado e climatizado. Além disso, será inaugurado neste ano o Rio Cidade Nova Convention Center. Trata-se de um prédio moderno, com espaço de 5 mil metros quadrados para feiras e auditórios para 2,7 mil pessoas – um investimento de R$ 60 milhões. “E assim o Rio de Janeiro, ícone do Brasil, continua sendo uma cidade que sempre se recria como destino turístico”, ressalta Jeanine.

“Estamos ganhando serviços turísticos mais qualificados”, avalia Paulo Bastos, subsecretário de Turismo do Rio de Janeiro. Entre as novidades está o sistema de comunicação que será utilizado durante o Pan 2007 pelos taxistas: um telefone celular, ligado através de código a uma central, permitirá o diálogo em viva voz entre o motorista, o passageiro e um intérprete. O objetivo é eliminar um dos maiores gargalos do receptivo turístico na capital carioca, que é o despreparo para atender o visitante em diferentes idiomas. O sistema, desenvolvido em parceria com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), poderá ser utilizado no futuro por comerciantes, guardas municipais e outros profissionais que lidam com turistas. Os serviços de intérprete são prestados por alunos de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e, com a continuidade do projeto após o Pan 2007, valerão como estágio profissional exigido pelo curso.

#I1# Rede hoteleira em reforma

“Citius, altius e fortius” – “mais rápido, mais alto e mais forte”. A esperança é que o antigo lema do atletismo, praticado pelos soldados gregos quase 800 anos antes de Cristo, se encaixe agora para o turismo. A prefeitura carioca calcula que, com o evento, o número de turistas em julho deste ano deverá ser 30% superior ao mesmo período do ano passado – o que não significa muito, se os efeitos não tiverem continuidade. E a estimativa é de que o ambiente deixado pelo Pan 2007 contribua para reverter a queda do fluxo turístico registrada em 2006, quando a cidade recebeu 1,06 milhão de desembarques internacionais, 13% menos em relação ao ano anterior.

Os legados vão além de estádios, prédios e equipamentos. Os preparativos para o evento estão movimentando toda a cadeia do turismo. A mobilização une os governos federal, estadual e municipal, empreendedores e organizações sociais e profissionais em torno de uma causa comum. O ambiente positivo atrai novos investimentos. A perspectiva de sucesso durante e após o Pan 2007 mexe com a cabeça dos empresários, que saem da inércia para se equipar, qualificar a mão-de-obra e melhorar os serviços. “Diante de um evento desse porte, muitos hotéis estão se modernizando, aproveitando a expectativa de um período próspero”, revela Eraldo Aves da Cruz, presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira (ABIH).

Nos últimos cinco anos, segundo números da ABIH, 17 hotéis cariocas investiram R$ 680 milhões na construção de 3.495 apartamentos, gerando mais de 17 mil empregos diretos e indiretos. Além das reformas do Sheraton Vidigal, do Sofitel e dos hotéis do Grupo Windsor, o Fasano se prepara para inaugurar um dos melhores hotéis do país, na Praia de Ipanema. Alguns estabelecimentos, como os da Rede Mercure, foram incluídos pelo Comitê Olímpico Brasileiro na lista oficial dos hotéis que receberão atletas e convidados dos Jogos Pan-Americanos. Outros, a exemplo do Pestana Rio Atlântica, prepararam pacotes especiais para os espetáculos de abertura e encerramento dos jogos, incluindo traslado de ida e volta para o Maracanã e outras atrações.

Espera-se que os benefícios atinjam também os pequenos meios de hospedagem. Além dos albergues, que nos últimos anos vêm se expandindo como alternativa mais econômica e informal de hospedagem, o sistema de bed and breakfast ganha força na cidade. No programa Hospedagem Domiciliar, montado pela prefeitura com vistas ao Pan 2007, os proprietários interessados em hospedar visitantes em suas residências podem se cadastrar pela internet. Pioneira no ramo, a agência Cama e Café, que começou a funcionar há quatro anos no bairro de Santa Teresa, opera hoje com 30 residências de diferentes categorias e estruturou para o Pan 2007 pacotes de três dias que variam de R$ 337,50 a R$ 855. Outras agências desse tipo que surgiram mais recentemente na cidade, como a BB Brasil, focada no bairro de Copacabana, esperam também os bons resultados do evento. Na favela Vila Canoa, em São Conrado, os atuais 20 moradores que abrem suas casas aos turistas – na maioria, estrangeiros que querem conviver de perto com a comunidade – se preparam para o maior movimento. “Uma das atrações são os percursos em trilhas para a Pedra da Gávea”, afirma Eneida Santos, dona da agência Favela Receptiva.

#I1# Capacitação profissional melhora serviços

“O Pan 2007 representa mais do que uma conquista esportiva: toda a gestão do evento está baseada na geração de um legado que ficará no país após as competições. No turismo, os ganhos são muito significativos”, analisa Ricardo Leyser, secretário executivo do Comitê de Gestão do Governo Federal para o Pan 2007. A qualificação profissional, que resulta na melhoria dos serviços, no aumento do retorno financeiro e na geração de emprego e renda, é vista como a principal conquista. “Só agora despertei para a necessidade de melhorar”, admite a ex-bancária Tereza Cristina Dória, há dez anos dona de uma barraca de caipirinha na Praia do Leme. Após uma semana de treinamento nas instalações do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), Tereza aprendeu técnicas de higiene para lidar com bebidas. Passou a usar luvas, tábua de plástico para cortar o limão e cubos de gelo filtrados. “O movimento aumentou”, festeja a comerciante.

Até o Pan 2007, o Programa Rio Hospitaleiro, coordenado pela prefeitura carioca com R$ 2 milhões do Ministério do Turismo, capacitará 7 mil trabalhadores, entre ambulantes, taxistas, bilheteiros, balconistas e seguranças particulares, entre outros. Estima-se que 46 mil pessoas trabalharão diretamente nas atividades do evento, entre voluntários e profissionais remunerados. O trabalho, temporário para a maioria, pode significar a chance do primeiro emprego. Essa é a esperança para 240 jovens de baixa renda do Rio de Janeiro que participam das oficinas do Trilha Jovem, programa conduzido pelo Sindicato dos Restaurantes, Bares e Hotéis do Município do Rio de Janeiro (SindRio) em parceria com o Instituto de Hospitalidade (IH), no qual os participantes aprendem noções de cidadania, saúde e idiomas, além de técnicas para trabalhar com alimentos e bebidas e lidar com os turistas, entre outras atividades. Parte dessa força de trabalho poderá ser absorvida pelo Bob’s, rede de fast-food oficial do Pan 2007.

#I1# Empreendedores se mobilizam

O esforço da capacitação vai além. No total, até o início do evento mil trabalhadores que já atuam na cadeia do turismo do Rio de Janeiro receberão a certificação profissional conferida pelo IH – instituição que desenvolveu 52 normas para atestar a qualidade de 46 ocupações e competências no setor turístico. O diploma poderá significar garantia de emprego agora e no futuro. A expectativa é de que esses padrões sirvam de diferencial para qualificar os trabalhadores, como aqueles que atuam nos 17 pólos comerciais da cidade que estão sendo revitalizados. Abrem-se novas alternativas para zonas que se encontravam decadentes.

Com o Pan 2007, algumas dessas áreas, de maior vocação turística, devem ganhar impulso. É o caso do Pólo Gastronômico da Tijuca, localizado nas imediações do Maracanã, onde se concentram os principais complexos esportivos do evento. De sinalização turística a reforma de vias públicas, criação de vagas para estacionamento, mudanças no trânsito e maior segurança, são várias as melhorias conquistadas pela mobilização dos comerciantes – e que ficarão para a cidade depois dos Jogos Pan-Americanos. Na região da Lapa, hoje disputado pólo de vida noturna na cidade, os donos de bares e restaurantes planejam uma programação especial durante o Pan 2007, quando o local receberá grande número de atletas e outros visitantes.

“Faço a minha parte para receber bem”, diz o garçom Francismar Linhares Fagundes, mais conhecido como Debret. Ele tem no currículo um diferencial de peso: como ex-mordomo de diplomata, teve oportunidade de viver em 23 países e fala fluentemente cinco idiomas. Na casa noturna Rio Scenarium, onde trabalha atualmente, o garçom é referência no atendimento a estrangeiros. “No Pan 2007, vou gastar todo meu inglês e alemão”, prevê Debret, com um largo sorriso no rosto. “Quem tem essa bagagem acaba se dando muito bem”, arremata.

De olho nos dividendos do evento, empresas tomam a dianteira para associar a marca ao esporte. A vinícola Lídio Carraro, de Bento Gonçalves (RS), lançou uma linha especial de vinhos com o selo do Pan 2007, na esperança de receber a visita de uma parte dos atletas e delegações que chegarão ao Brasil. O otimismo também está em alta para quem produz suvenires, especialmente para as empresas e designers que participam do projeto PANorama Carioca. Lançada em 2005, a iniciativa tem o objetivo estratégico de aproximar o setor joalheiro do turístico, com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae). A idéia é lançar no mercado produtos que tenham a identidade carioca. São peças de alta qualidade desenhadas a partir de ícones do Rio de Janeiro, como o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e o bondinho de Santa Teresa.

De igual maneira, novos ares pairam na Cidade do Samba, onde os sambistas fazem exibições para os turistas o ano inteiro. Nesse local, como projeto de inclusão social ligado ao Pan 2007, as artesãs da Associação das Mulheres das Escolas de Samba do Rio de Janeiro estão ganhando um armazém com salas para oficinas de artesanato e corte e costura, espaço multimídia e uma loja para a venda de suvenires. O projeto tem R$ 370 mil do Ministério do Turismo, que aposta na força do megaevento esportivo como propulsora de benefícios para toda a cadeia turística. Espera-se que os efeitos sejam duradouros e que números do turismo provem isso. Pelo menos no que diz respeito a esses esforços, ao contrário do que afirma o principal slogan dos esportes, o importante não é apenas competir – é vencer, ou vencer.

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