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Em Cena

A fantástica fábrica do samba

Prefeitura do Rio de Janeiro transformou uma área na zona portuária em atrativo turístico permanente. Agora já não é mais preciso esperar fevereiro chegar para cair na folia

Crédito: Camila Lucchesi

O carnaval no Rio de Janeiro não se resume mais à mundialmente conhecida Marquês de Sapucaí. O novo endereço do samba carioca fica no bairro da Gamboa, zona portuária da cidade maravilhosa. É lá que está a Cidade do Samba, espaço fixo que serve às comunidades que trabalham na construção do carnaval e permite viver a folia nos 365 dias do ano. “A criação era um sonho antigo, vindo desde o tempo em que as alegorias e fantasias eram confeccionadas em lugares improvisados”, explica Ailton Guimarães Jorge Junior, administrador do espaço que foi inaugurado em setembro de 2005.

Apesar de ter como função principal reunir as 13 escolas do Grupo Especial e dar a elas espaço adequado para produção, a Cidade do Samba também é uma nova fonte de renda e empregos, ajuda a recuperar a área portuária do Rio de Janeiro e serve como um atrativo turístico importante com fluxo permanente durante todo o ano. Desde que abriu suas portas à visitação, em setembro de 2006, o local já recebeu mais de cinco mil turistas.

A idéia vem de muito tempo, mas a concretização, segundo Junior, começou em 1999 “quando foi idealizado o esboço de um projeto que reunisse numa só área as fábricas das escolas” que nas décadas de 1980 e 1990 utilizavam espaços improvisados e já chegaram a se fixar sob pontes e marquises próximas à Avenida Presidente Vargas, reduto do samba até a construção da Avenida Marquês de Sapucaí, em 1984. O terreno de 92 mil m2 foi adquirido junto à Rede Ferroviária Federal. Em agosto de 2003 iniciaram-se as obras e três meses depois foi lançada a pedra fundamental da cidade temática, definida na época pelo presidente da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), Aílton Guimarães, como a “Disney do Carnaval”.

Mas o sonho cresceu: além dos 14 barracões (um é reservado à Liesa, a área abriga uma tenda de espetáculos que comporta duas mil pessoas sentadas, espaço permanente para exposição de alegorias e adereços de carnaval, lanchonetes, sanitários e estacionamento com mais de 200 vagas. O investimento total da Prefeitura foi de R$ 120 milhões. Para o administrador, as escolas ganham muito com o novo modelo, especialmente em organização de trabalho, eficiência e redução de custos. “As dimensões do barracão, os equipamentos disponíveis e as instalações de apoio dão melhores condições aos funcionários”, afirma. O novo equipamento emprega 30 trabalhadores fixos e gera três mil postos temporários. “A comunidade limítrofe recebe uma oferta extra de serviços e várias pessoas das comunidades próximas conseguem trabalho nos barracões”, comemora Júnior.

O projeto arquitetônico vencedor da concorrência foi o de Vitor Wanderley e João Uchoa, que buscaram manter e integrar a arquitetura do local com os armazéns do cais do porto. Depois de mais de dois anos de pesquisa sobre essas construções e colocando um toque de modernidade, os profissionais conceberam barracões com três pavimentos para os diversos serviços, salas administrativas e de criação, refeitório e vestiário para até 150 pessoas, loja e recepção, dentre outras estruturas. Mas o que mais impressiona são as passarelas metálicas que percorrem todo o contorno dos prédios e permitem a visualização do interior dos armazéns.

#I1# Eu sou o samba

Apesar de ser uma boa maneira de contribuir com uma área importante da cidade e ajudar a resgatar as raízes do samba (leia mais no box), a proximidade com o cais também tem uma função prática. Além de atrair o público carioca (que tem 50% de desconto para qualquer atividade realizada no local) e turistas que estiverem visitando a cidade, a idéia é também conquistar o público dos diversos cruzeiros marítimos que passam pelo Rio de Janeiro.

A programação acontece durante toda a semana, exceto às terças-feiras quando a Cidade do Samba fecha para manutenção. De sexta a segunda-feira e às quartas-feiras, acontecem oficinas de bateria, costura, escultura e dança, bem como um pequeno show apresentado em três horários. Nessas ocasiões o turista conhece os bastidores do maior espetáculo do planeta e pode, inclusive, tocar os instrumentos. A estudante israelense Keren Kop diz que ficou encantada ao conhecer o backstage do Carnaval. “Observei o processo de confecção das fantasias e de todos os acessórios. Foi a primeira vez que vi esse tipo de roupa de tão perto.”

A principal atração da casa, entretanto, é apresentada às quintas-feiras: o show noturno Cidadão do Samba, que envolve cerca de 80 pessoas. Ao chegarem ao espaço reservado à apresentação, os visitantes são recepcionados por um grupo que toca sambas de sucesso e convidados a brincar com adereços de antigas fantasias, enquanto provam salgados e bebidas.

Em seguida é hora do show, que começa com uma bateria formada por integrantes das 13 escolas e comandada pelo Mestre Ciça, da Unidos do Viradouro. Conforme o tempo passa, mais personagens do carnaval entram em
cena: passistas, baianas, destaques e casais de mestre-sala e porta-bandeira. Em um dado momento, os ritmistas vão à frente do palco mostrar o funcionamento de cada instrumento. É nessa hora que selecionam um turista — geralmente estrangeiro — mais empolgado para subir ao palco e dar seus primeiros passos de samba. Ao final do show, pessoas vestidas de fiscais convidam os visitantes a participar de um desfile com direito a fantasia, carro de som, uma arquibancada improvisada e até fogos de artifício. As coreografias e direção artística são de Carlinhos de Jesus e a direção musical, do mestre Jorge Cardoso. Já o figurino e cenário (pertencente a todas as escolas) são de responsabilidade do carnavalesco Milton Cunha.

Keren diz que a apresentação foi marcante tanto para ela quanto para o pai — ambos debutando em solo brasileiro — por mostrar aspectos culturais do país. “Foi uma grande surpresa para mim, pois esperava por um show simples e fiquei impressionada ao descobrir uma atração de cores, música e ritmo”, contou. O impacto positivo foi tanto que ela prometeu voltar para ver o carnaval “de verdade” assim que terminar os estudos. A idéia é fazer uma jornada pela América do Sul com a melhor amiga, em 2008.

#I1# Portas abertas

Algumas operadoras de receptivo do Rio de Janeiro já estão vendendo a Cidade do Samba como atrativo turístico imperdível na cidade. Na agência Contempory, por exemplo, que trabalha exclusivamente com público estrangeiro, todos os grupos confirmados para 2007 têm o passeio no roteiro. “Pelo tempo que existe, a procura é bastante grande e em pesquisas de satisfação temos recebido um ótimo feedback”, afirma a gerente de marketing Andrea da Costa.

Teresa Cristina Fritsch, da Carnaval Agência de Viagem e Turismo, reforça essa opinião. “Turistas nacionais já ouviram falar da Cidade do Samba e se interessam pela visita. Aos estrangeiros, divulgamos o atrativo por meio de empresas parceiras em diversos países, mas ainda é cedo para falar em números visto que a temporada de visitantes internacionais vai começar agora, no fim do ano.” Ela ainda enfatiza um outro potencial do equipamento: eventos. “O local pode funcionar muito bem para abertura ou encerramento de congressos.” Segundo o administrador do equipamento, Aílton Guimarães Jorge Junior, outros parceiros na divulgação da Cidade do Samba são o Rio Convention & Visitors Bureau, o Sindicato Estadual dos Guias de Turismo do Rio de Janeiro (Sindegtur) e as agências Carioca Tropical, GB Internacional e Sindegtur.


Ritmista ensina os primeiros passos de samba ao turista Crédito: Camila Lucchesi



Trio recepciona os visitantes com sambas antigos antes do início do espetáculo Crédito: Camila Lucchesi



Posando para a foto: encantada com o show de “cores, música e ritmo”, a estudante israelense Keren Kop promete voltar em 2008 Crédito: Flavio Mendes Bitelman



Vista aérea da “Disney do Carnaval” Crédito: Henrique Mattos



O show noturno Cidadão do Samba acontece às quintas-feiras e envolve cerca de 80 pessoas, integrantes de todas as escolas de samba Crédito: Camila Lucchesi


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