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Destino Brasil

Road trip

Sobre quatro rodas, rumo ao Sul do Brasil
Eduardo Vessoni Eduardo Vessoni

Morro da Igreja e Pedra Furada, na serra catarinense

Uma viagem em que a estrada é protagonista. No roteiro não há praias paradisíacas, não existem museus com acervo de fama internacional e as atrações naturais não figuram na lista dos locais mais visitados do Brasil. Em uma road trip, difícil mesmo é encarar marginais paradas antes de deixar a mais frenética das capitais brasileiras. De resto, basta fazer a revisão mecânica do seu carro e seguir por uma das rotas mais cenográficas do País. Serras sinuosas e vales profundos são constantes neste roteiro que cruza o Paraná, as Serras Catarinenses e algumas reservas naturais do Rio Grande do Sul, percorrendo mais de 1.700 quilômetros de estrada entre São Paulo e o Chui, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai.

É no primeiro dia que o viajante tem a primeira mostra de que estar vale mais do que chegar. Com acesso pela BR-116, a Estrada da Graciosa, já em território paranaense, é uma das atrações que obrigam o turista a tirar o pé do acelerador – não só por conta das curvas sinuosas dessa via histórica, mas também pelo visual que inclui um dos trechos de Mata Atlântica em melhor estado de preservação de todo o Brasil.

A PR-410, nome oficial dessa estrada a mais de mil metros sobre o nível do mar, foi até a metade do século passado a única via em todo o Paraná disponível para o escoamento de produtos como madeira e café em direção aos portos das cidades de Paranaguá e Antonina, além de servir como rota para quem seguia ao litoral paranaense. Pavimento de paralelepípedos e curvas acentuadas que cortam as montanhas compõem este antigo caminho colonial frequentado por tropeiros.

Serra do Corvo Branco, uma vertiginosa sequência de montanhas entre Urubici e Grão-Pará, na serra catarinense

PRIMEIRA PARADA

Embora sua construção tenha começado em 1854, os primeiros registros da existência dessa rota datam do início do século 18. Atualmente, seus 30 quilômetros de extensão oferecem ao motorista mirantes com vistas estratégicas para a Serra do Mar e dão acesso à primeira parada de peso – histórico e cenográfico – do roteiro: a simpática Morretes, cidade paranaense a 380 km de São Paulo, uma das mais antigas do Estado. Fundado em 1733, o município é conhecido pelo centro histórico localizado às margens do rio Nhundiaquara, onde o casario colonial bem preservado faz o visitante voltar alguns séculos na história. Esqueça o carro por algumas horas e siga a pé em direção a construções como a Igreja de São Benedito, templo religioso erguido por escravos; a Igreja da Matriz, cuja construção começou em 1812; e a Casa Rocha Pombo com sua arquitetura simples de estilo colonial.

Localizada entre a capital paranaense e o litoral, Morretes oferece também roteiros para quem tem agenda folgada e interesse em cenários naturais. Pequenas cachoeiras, bosques, lagos, picos para prática de montanhismo e trilhas provam que o município de 15 mil habitantes tem talento para receber forasteiros com gosto pelo turismo de aventura. Entre os destaques estão a Cascatinha, lago formado pelas águas do rio Marumbi; o Pico Marumbi, montanha com 1.539 metros de altitude localizada no interior de um parque estadual de mesmo nome; Salto dos Macacos e Salto do Redondo, quedas de até 70 metros que formam piscinas naturais acessíveis a partir de caminhadas de três horas que saem de Engenheiro Lange ou Porto de Cima.

Se o cronograma permitir, inclua no roteiro o nostálgico passeio de trem pela Serra do Mar que vai de Curitiba a Morretes, diariamente, e segue até Paranaguá, aos domingos. A viagem tem duração de três horas (ou cinco para quem faz o trajeto completo) e cruza 110 quilômetros de um estrada de ferro inaugurada em 1885.

A paranaense Estrada da Graciosa

O cartão-postal mais cobiçado, porém, ainda é o barreado. De origem cabocla, este prato feito à base de carne ficou conhecido pelo seu preparo. O cozimento leva 12 horas em panelas de barro vedadas com farinha de mandioca. Nos finais de semana, dezenas de restaurantes especializados costumam ficar lotados de visitantes que vêm de cidades próximas como Curitiba só para prová-lo. Programe-se para passar ao menos uma noite na cidade antes de seguir viagem até a próxima parada, a 330 quilômetros dali.

Um dos destaques no trajeto entre Morretes e Florianópolis (SC) é a travessia em ferry boat sobre a baía de Guaratuba. Com saída de Matinhos, esta breve viagem é realizada há mais de 50 anos e serve de acesso às praias do litoral paranaense como o balneário de Caiobá. O pôr-do-sol sobre as montanhas locais é uma das experiências marcantes deste segundo trecho da viagem. Do outro lado da baía, já em terra firme, o motorista segue viagem pela PR-412 em direção a Garuva e de lá até Florianópolis pela carregada BR-101, acrescentando mais 200 quilômetros de estrada ao roteiro.

A capital catarinense é passagem obrigatória para quem segue para o sul. Mas o destino, cobiçado por jovens em busca de praias famosas e vida noturna agitada, não combina muito com o espírito off road que acompanhará o viajante nos quilômetros seguintes. Evite excessos e aproveite a infraestrutura da capital catarinense para fazer eventuais abastecimentos de combustível ou de comida.

Travessia da baía de Guaratuba, no caminho entre Morretes (PR) e Florianópolis (SC)

PURO CENÁRIO

Na terceira etapa da viagem começa um dos trechos mais impactantes do roteiro, onde serras recepcionam os viajantes com vales profundos, montanhas imponentes recortadas por estradas estreitas e um dos climas mais atípicos do Brasil. Urubici, a 165 quilômetros de Florianópolis, ficou conhecida por ter registrado, em 1996, gélidos 17,8° negativos. No inverno, não é raro ser surpreendido pela neve.

Localizada na Serra Catarinense, a cidade guarda títulos como o de ponto habitado mais alto do Brasil, marcado pelos 1.822 metros de altitude do Morro da Igreja; abriga o único Parque Nacional de Conservação Ambiental do Estado; e reúne mais de 80 de cachoeiras, quedas d’água e cascatas. É nesse destino conhecido também pelo turismo rural que o viajante conhece a Serra do Corvo Branco, uma vertiginosa sequência de montanhas que fazem divisa com o município de Grão-Pará. Situado a 27 quilômetros de Urubici, esse atrativo está a 1.150 metros de altitude e ficou conhecido por abrigar a maior fenda em uma rocha arenítica no Brasil, um impressionante corte de 90 metros de altura.

Deixe o carro no estacionamento improvisado diante da ladeira e desça a pé em direção ao zigue-zague de curvas da estrada – por onde devem passar apenas motoristas experientes e que conheçam bem o trajeto. A 15 quilômetros dali, no interior do Parque Nacional de São Joaquim, está o Morro da Igreja que abriga a curiosa Pedra Furada, uma imensa rocha com uma fenda central de 30 metros de diâmetro. Em dias de céu claro também é possível ver ao fundo o litoral de Santa Catarina.

E para se convencer de que nesta viagem a estrada é a protagonista, siga em direção à Serra do Rio do Rastro, um deslocamento de 73 quilômetros a partir de Urubici pelas SC-430 e SC-438. Antes de lançar-se naquelas curvas, faça uma parada no Mirante da Serra para observar do alto a estrada que risca as montanhas em direção ao mar. O final da SC-438 dá acesso à BR-101, de onde o motorista deve seguir em direção a Torres, já em território gaúcho, que servirá de parada para descanso. A cidade tem como principal cartão-postal paredões rochosos que recortam a faixa de areia, no extremo norte do litoral do Rio Grande do Sul. A cidade abriga também a única ilha do Brasil a contar com uma colônia de lobos-marinhos, uma reserva ecológica conhecida como Ilha dos Lobos.

Praia do Cassino (RS) e seu famoso naufrágio

Vale lembrar que a partir de Torres, as rodovias são mais retas e podem causar sonolência em quem segue ao volante. Atenção redobrada.  A 90 quilômetros dali, o Parque Eólico virou um curioso atrativo turístico com suas torres de 98 metros que podem ser vistas a partir de um mirante localizado na Estrada da Capivara, a 2 quilômetros de Osório. A ideia de visitar uma usina de energia elétrica produzida a partir do movimento dos ventos pode não empolgar quem não é especialista no assunto, mas a experiência dá novos ares para a viagem. Quem permanece mais tempo na região e quer aprofundar-se no assunto, o parque oferece visitas monitoradas gratuitas.

FIM DA LINHA

Parque Eólico de Osório (RS)

O roteiro começa então a chegar ao seu final. O corpo já dá sinais de cansaço (sobretudo os daqueles que estiveram ao volante), mas o espírito aventureiro ainda encontra tempo para seguir mais alguns quilômetros adiante, quase até a fronteira com o Uruguai.  A viagem segue rumo a Rio Grande, uma longa travessia de 300 quilômetros que passa pela península que margeia a Lagoa dos Patos e segue até São José do Norte, onde outra vez o pôr-do-sol deve desenhar o roteiro durante a curta travessia de balsa. O serviço é oferecido a cada 15 minutos, ao longo de todo o dia, mas quem está motorizado deve ficar atento às três únicas opções de travessia.

Do outro lado da península, em território continental, o viajante é imerso em um dos cenários mais inusitados, cuja extensão segue o mesmo nível de curiosidade e grau de aventura do motorista. A cidade de Rio Grande é porta de entrada para o Balneário do Cassino, lançado em 1890 e declarado o mais antigo do Brasil, e a Praia do Cassino, uma faixa de areia com 254 quilômetros de extensão, considerada a maior praia do mundo. Automóvel é fundamental nessa etapa da viagem, sobretudo carros 4×4 apropriados para cruzar trechos de praia invadidos pelas águas do mar violento, nada convidativo para banhos.  A poucos quilômetros do centro, uma das atrações mais interessantes é o Altair, navio que naufragou na região em 1976. Suas ruínas ainda são engolidas pela areia do mar e pela ação da corrosão de sua estrutura, o que significa dizer que essa atração está com seus dias contados e, em breve, deve desaparecer da lista (não oficial) de atrativos da região.

Antes de chegar ao final do roteiro, em Chuí, o viajante ainda se surpreende com a Reserva Ecológica do Taim, no extremo sul, entre a Lagoa Mirim e o Atlântico. Essa área preservada de 34 hectares é hábitat de aves migratórias, jacaré-de-papo-amarelo, cisne-de-pescoço-preto e capivaras. Fechado para visita pública com fins turísticos, o local serve de bela paisagem para quem cruza a região rumo ao extremo sul. Cidades históricas, serras sinuosas, vales profundos e áreas protegidas. A viagem rende boas experiências, mas a estrada continua sendo a melhor atração.

Com 254 km de extensão, a Praia do Cassino (RS) é considerada a maior do mundo

Dicas

– Planejamento prévio é fundamental para quem viaja de carro de forma independente. Trace a rota com o auxílio de instrumentos como navegador, GPS e mapas da região;

– Especialistas recomendam também traçar o roteiro de trás pra frente de modo que o viajante possa calcular com folga o tempo necessário de ida e de volta;

– Estabeleça uma rotina diária com horários definidos de saída e quilômetros a serem rodados. Lembre-se que esta viagem deve ser contemplativa e não uma corrida alucinada;

– O roteiro não exige nenhum modelo especial de automóvel, porém nunca coloque seu carro na estrada sem fazer uma revisão mecânica e dos pneus;

– Além de documentos como carteira de habilitação e documentação do carro, tenha sempre em mãos uma lista de concessionárias pelo caminho e cheque a cobertura do seguro do seu automóvel;

– Uma vez na estrada, não dirija por mais de duas horas seguidas e faça paradas para troca de motoristas ou breves descansos.

– Programe-se para viajar apenas durante o dia, sobretudo nas regiões desconhecidas e de terreno mais acidentado;

– Mantenha o nível do combustível em até meio tanque e só abasteça em postos com bandeira conhecida.

(fonte: Cacá Clausetpiloto da TSO Brasil)

* O jornalista Eduardo Vessoni viajou a convite da Ford Brasil

ROTEIRO

CRÉDITO MAURO NAKATA

HOSPEDAGEM

Dona Laura Pousadan (Morretes): As vistas para o rio Nhundiaquara e o Pico do Marumbi são destaques deste pequeno hotel com apenas 15 suítes. (41) 3462-1100

Nhundiaquara Hotel (Morretes): Localizado no centro histórico da cidade, às margens do rio que dá nome ao estabelecimento, funciona em um casarão histórico remanescente do século 17. (41) 3462-1228 e www.nundiaquara.com.br

Pousada Hakuna Matata (Morretes): Situada aos pés do Pico do Marumbi, a pousada abriga 24 quartos instalados nas antigas dependências de um haras. (41) 3462-2388 e www.pousadahakunamatata.com.br

Pousada Pedra Preta (Urubici): Hotel em estilo rústico com diversas opções de hospedagem em chalés equipados com ofurô, lareira e cozinha. (49) 9128-7778 e www.pousadapedrapreta.com.br

Urubici Park Hotel (Urubici): Estabelecimento simples situado em uma das avenidas mais centrais da cidade. O local oferece quartos com calefação. (49) 3278-5300 e www.urubiciparkhotel.com.br

Serra do Panelão Hotel Fazenda (Urubici): Este hotel-fazenda no alto da Serra do Panelão, a uma altitude de mais de 1.300 metros, conta com diversas trilhas pela região. (49) 3278-4566 e www.serradopanelao.com.br

Dunas Praia Hotel (Torres): Próximo ao mar e com vista para o Morro do Farol, este hotel é equipado com piscina e sala de jogos. (51) 3664-1011 e www.dunashoteis.com.br

Guarita Park Hoteln (Torres): Na praia, o hotel conta com piscina aquecida, sauna e charutaria. (51) 3664-5200 e www.guaritaparkhotel.com.br

Pousada Punta Serena (Torres): Pousada charmosa com opções de hospedagem em chalés equipados com hidromassagem e sacada. (51) 3626-2224 e www.puntaserena.com.br

Taufik Hotel (Rio Grande): Localizado no centro da cidade, este hotel conta com quartos com vista para a Lagoa dos Patos. (53) 3231-3755 e www.taufikhotel.com.br

Villa Moura Apart Hotel (Rio Grande): Estabelecimento situado na Praia do Cassino e equipado com piscina, garagem e fitness center. (53) 236-2012 e www.hotelvillamoura.com.br

GASTRONOMIA

Na paranaense Morretes, a especialidade é o barreado. Inclua no roteiro gastronômico estabelecimentos como o Madalazo (www.madalozo.com), especializado também em frutos do mar; e o Casarão (www.morretes.com.br/casarao), em estilo colonial, localizado em uma construção do final do século 19.

Em Urubici (SC), a dica é conhecer A Taberna (www.urubici.net), um bistrô comandado pelo chef Fernando Moniz, profissional conhecido pela criação de menus degustação com produtos da época como maçã e pinhão. Saladas, wraps e pizzas são servidos no Canto do Sabiá (www.cantodosabiacafearte.blogspot.com.br), estabelecimento com ares de fazenda.

Já em Torres (RS), a dica é degustar especialidades do mar nos restaurantes Anzol (www.restauranteanzol.com.br) e Beira Rio (www.restaurantebeirario.com.br). Mais próxima da fronteira com o Uruguai, a gastronomia de Rio Grande (RS) se destaca pelas carnes vermelhas grelhadas servidas em restaurantes como o Las Leñas (www.restaurantelaslenas.com.br). Mas se a ideia é degustar frutos do mar, a dica é o Marco’s, que serve camarão e risotos com frutos do mar (www.restaurantemarcos.com.br).

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