tamanho da letra : imprimir
Capa

Conversas de botequim e delícias da “baixa gastronomia”

Cenas, histórias e sabores de uma tradição inaugurada “na marra” num roteiro para boêmios, turistas e curiosos

No princípio, eram o vinho e a cachaça. Ninguém bebia chope no Rio. O hábito mais cultuado pelos cariocas de hoje era, no começo do século passado, uma excentricidade. O carioca teve que aprender a beber chope no muque. Literalmente. E graças a um alemão, Adolf Rumjaneck, primeiro marqueteiro da cidade, que decidiu abrir um estabelecimento na Rua da Carioca, o Bar Adolf. Até a década de 20, a casa ficou conhecida como Braço de Ferro, por causa da estratégia de marketing que Adolf inventou para fazer com que aquele povo aprendesse a beber chope, nem que fosse na marra! Imbatível na queda-de-braço, Adolf decidiu desafiar os fregueses. Quem perdesse beberia chope e pagaria a conta. Quem vencesse beberia vinho de graça. A força muscular de Adolf garantiu a sobrevivência do bar e inaugurou uma mania nacional. O bar de Adolf viveu feliz com sua reputação até 1942, quando foi violentado pelas paixões políticas da época. Naquele ano, foi invadido e depredado por estudantes revoltados do Colégio Pedro II, que viam no Adolf uma ligação improvável com a Alemanha nazista. Adolf rendeu-se e mudou o nome do estabelecimento para Bar Luiz, onde ainda se servem a boa comida alemã e o chope mais afamado no centro da cidade.

A história do Bar Luiz, uma queda da Bastilha nos hábitos etílicos do Rio (e do Brasil), é uma das curiosidades reveladas pelo Guia de Botequins, publicação que, em seu sexto ano consecutivo, se tornou obrigatória na estante de boêmios, turistas e todas as pessoas interessadas em conhecer o “homo fluviens”, a espécie bem-humorada que habita os arredores da Baía de Guanabara.

Já para os freqüentadores do bar azulejado, o que vale mesmo é a garantia do chope ou cerveja gelados e os tira-gostos, que os boêmios alcunham de “baixa gastronomia carioca”. Além da moela, do torresmo, dos ovos coloridos e dos tremoços, o caldo verde, a canja de galinha, a sopa de entulho (legumes com pedaços de carne), as sardinhas e as rãs fritas, o salaminho, a “sacanagem” (espetinho no palito de queijo e picles), o filé, o queijo e o salame aperitivos estão entre os mais corriqueiros tira-gostos oferecidos nos balcões da cidade. Se bem que, para tirar gosto mesmo, ensinam os antigos malandros, nada como mastigar papel de pão!

Ao veterano jornalista e coordenador do guia, Paulo Thiago de Mello, coube selecionar e escrever sobre os pés-sujos, que classifica como “o botequim no seu estado mais puro”, com balcão, caixa registradora, azulejos, santinhos protetores no vão das paredes e cartazes contra a batucada e o fiado.Thiago foi buscar entre os próprios filólogos de botequins, freqüentadores assíduos e bem informados, a origem etimológica do termo “pé-sujo”. “A primeira diz respeito à prática, cada vez menos freqüente, de jogar serragem no chão, impregnando a sola dos sapatos dos fregueses com resíduos de pó avermelhado.” Paulo Thiago aventa outra possibilidade para a origem do nome: “a condição socioeconômica do freqüentador de biroscas, pobre ao ponto de não possuir um calçado”.

A “baixa gastronomia” encontra nos pés-sujos seus redutos originais. Do caldo de mocotó e do torresminho frito ao PF (prato feito), o que conta é a criatividade do cozinheiro e seus temperos, que tornam saborosos a carne moída com arroz, feijão, batatas e ovos fritos; carne-seca desfiada; carré (costeleta) de porco, dobradinha e outros quitutes feitos a partir de receitas caseiras. São exemplos de pé-sujo os bares como o Botequim do Jóia, no centro – que só depois da insistência dos fregueses concordou em figurar num guia –, a Adega da Velha, em Botafogo, com a tradicional gastronomia nordestina e a cachaça Olho d’Água, a Adega Costelinha e o Bar Ocidental, com o famoso “frango marítimo” (deliciosas sardinhas empanadas).

Coube a Alexandre Medeiros, que acaba de lançar um livro sobre a culinária das “tias” da Portela, comentar os botequins tradicionais, ricos no maior patrimônio que pode ter uma casa dessas: o sentimento. Ele destaca o Bar da Amendoeira, no bairro de Maria da Graça, subúrbio da Central. Na largo tranqüilo, entre a Rua Conde Azambuja e a Travessa Mendes da Silva, uma frondosa amendoeira é a única remanescente de 1937, quando tudo começou. Os chopes cremosos e as porções de carne-seca, diz Alexandre, são as principais pedidas do bar. O Bar Adônis, em Benfica, também na zona norte, ostenta, para muitos, a fama de oferecer o melhor chope do Rio. O Adônis nasceu em 1952. Nele, como em muitos bares tradicionais, como o Petisco da Vila, por exemplo, destacam-se as fotos do Rio Antigo, com os bondes apinhados. Quem quiser ainda bebericar cerveja gelada e assistir aos bondes, ao vivo, pode optar pelo Bar Mineiro, em Santa Teresa, onde a principal pedida gastronômica é o caldinho de feijão, ou feijão amigo, como é conhecido por essas bandas. Alexandre Medeiros sugere ainda uma viagem ao que chama de “bom e velho oeste”. A Adega do Ramos, que surgiu em 1948, em Jacarepaguá, especializou-se, desde o início, em vinhos e na culinária portuguesa: o bolinho de bacalhau é ainda a principal atração da casa.

Cristina Chacel, a única mulher a escrever sobre os botequins nessa nova edição do guia, preferiu pesquisar os chamados “bares históricos”, os centenários, que ela classifica como “museus vivos da cidade”. Nessa categoria, estão o Bar Brasil, na Rua Mem de Sá, na Lapa; o Bar Luiz, na Rua da Carioca; e o Bar Lagoa, na Rodrigo de Freitas, assim como o Paladino e o Vilarinho, este em frente à Academia Brasileira de Letras, o bar predileto de Vinícius de Moraes, Di Cavalcanti e muitos outros intelectuais no centro. Uma breve história sobre o Vilarinho: arqueólogos que rasparem, cuidadosamente, a pintura daquelas paredes poderão encontrar resquícios de um tesouro – poemas de Vinícius, desenhos de Di e Portinari, rabiscos de Paulo Mendes Campos e Lúcio Rangel.

Foi a partir da reforma urbanística promovida pelo prefeito Pereira Passos, em 1904, conta Cristina, “que os botequins ganharam fôlego”. O Rio afrancesou-se com Pereira Passos, principalmente a partir da abertura da Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco. O Bar Luiz e o Paladino são remanescentes dessa época.

O Paladino – na esquina das ruas Uruguaiana e Marechal Floriano, no centro – congelou no tempo. Fundado em 1907, ainda tem nas fachadas as ferragens típicas do “art déco”. Na frente do bar é mantida uma mercearia. Ali pertinho está o chamado Triângulo ou Beco das Sardinhas, complexo de bares especializados nos “frangos marítimos”.

Bem pertinho, na Lapa, próximo à Sala Cecília Meireles, aboleta-se a Adega Flor de Coimbra, famosa pelos vinhos do Sul. Era um dos pontos prediletos de encontro de artistas como Manuel Bandeira, Villa- Lobos, Di Cavalcanti e Pixinguinha. Já na Rua Mem de Sá, no Capela, conhecido pela carne de javali e pelo cabrito com arroz de brócolis, ocorreu a briga mais famosa do bairro, na década de 40. Ali, Madame Satã nocauteou o compositor Geraldo Pereira, ao responder a provocação de que “aqui, veado não bebe”. É voz corrente que aquele murro provocou a morte de Geraldo. Mais tarde, na época do Teatro Opinião, na década de 60, Zé Ketti, Nara Leão, João do Vale e os então novatos Maria Bethânia e Caetano Veloso, este um garoto desconhecido, popularizaram a Adega Pérola, em Copacabana.

Cristina Chacel escreve também no guia dos botequins a história comovente do Lamas, no Flamengo, fundado em 1874, no Largo do Machado, e que não fechava nunca. Quando, da Revolta da Vacina, em 1904, militares positivistas saíram da Praia Vermelha em direção ao centro, todo o comércio foi fechado. O Lamas não fechou, simplesmente porque não tinha porta. Ainda é tradição de muitos notívagos emendar o cozido e o chope gelado da madrugada com o farto café da manhã.

Dos saraus imperiais de Chiquinha Gonzaga ao batuque na cozinha de Tia Ciata e seus filhos afetivos João da Baiana e Donga, o Rio sempre demonstrou vocação musical, que encontrou nos bares e botequins reduto propício para todo o ano, não só no carnaval. É o que conta o jornalista Marceu Vieira, habitué do Bar da Dona Maria, na Muda, onde tem o prazer de bebericar com os compositores Aldir Blanc e Moacyr Luz.

Marceu fala do quarteto da Lapa: Carioca da Gema, Rio Scenarium, Mãe Joana, Dama de Ferro, bares com shows noturnos, muito apreciados por turistas, muito caros para os cariocas, onde se reúnem os maiores expoentes do novo e bom samba carioca. A sensação entre os bares musicais no Rio é o Meu Kantinho, na Penha, comandado pelo violonista Sebastião Clóves, com a presença garantida, aos domingos, dos octogenários Xangô da Mangueira, Preto Rico e Tia Amélia e – às vezes, com um pouco de sorte – de Luiz Carlos da Vila, Guilherme de Brito e Dominguinhos do Estácio. Na casa amarela da Rua Indígena, com decoração tropicalista, instrumentos musicais, fotos, charges espalhadas pelas paredes, funciona, nos dias de semana, uma escolinha de música que atende os meninos pobres, principalmente dos subúrbios da Leopoldina.

Na zona sul, Marceu destaca o Bip-Bip, na Rua Almirante Gonçalves, em Copacabana, comandado por Alfredinho e freqüentado pela família Buarque de Hollanda. Alfredinho, sempre envolvido em campanhas humanitárias – para ajudar pessoas doentes e apoiar a criação do Estado Palestino, por exemplo –, comprou o bar em doses de uísque. Isso mesmo: foi pagando o antigo dono com doses de uísque até completar o montante combinado. O Bip, um barzinho minúsculo, não tem garçom: quem quiser apanha a cerveja na geladeira. Ali, os músicos e poetas se reúnem naturalmente. E a calçada vai sendo tomada de assalto.

Reduto de samba especial no centro do Rio, lembra Marceu, é o Paulistinha, fundado em 1927. O bar, antigo ponto de bicheiros, não tem telefone. “Reza a lenda que os contraventores tanto teriam usado o aparelho do boteco que um dia a linha foi cortada”, diz o jornalista. O Paulistinha tem uma roda de samba tradicional, com “sacanagem” (espetinho de queijo e picles) e chope cremoso. Outra curiosidade musical é o Armazém Santo Antônio, ou Armazém do Jazz, em Realengo, que reúne aos sábados músicos para jam-sessions.

Marcelo Lins, em sua crônica “Renovando a tradição”, ressalta que o espírito do carioca não morreu. Ele abre e fecha o texto com a comovente interjeição: “Alegria!”. Lins fala em resistência de parte das novas gerações que sabe impossível a volta ao passado mas não se rende aos fast foods e aos pagodes de exportação latina. Trata de uma boemia chique, aparentemente mais requintada. O Bar Rebouças, na Rua Maria Angélica, no Jardim Botânico, segundo Lins, com balcões de madeira e sofá acolchoado, é lugar ideal para beber cervejas de alta fermentação, avermelhadas ou pretas irlandesas. É um pub, na verdade, onde se servem kidney pie (torta salgada de rim com bife) e chicken&mushroom – empadão com pedaços de frango e cogumelo. Da nova tradição também fazem parte o Belmonte, no Aterro do Flamengo – remodelado, com as mesinhas de mármore, sempre apinhado de gente jovem –, e o Timão, adega muito gostosa, com mesas nas vielas do centro histórico do Rio. Lá valem a pena a carne-seca com aipim, os bolinhos de bacalhau, o caldinho de feijão e o filezinho aperitivo. É democrático, sim, mas o carioca continua preferindo a mítica do Amarelinho, na Cinelândia, um ponto de gravidade e embriaguez saudável, em frente ao Teatro Municipal, à Biblioteca Nacional, do mesmo lado do Cine Odeon.


No cardápio dos botequins não podem faltar o chope gelado e a variedade de tira-gostos



Pirajá: resgate da tradição carioca garantiu o sucesso


Comentários


Deixe um comentário




O comentário não representa a opinião da revista Host&Travel; a responsabilidade é do autor da mensagem