tamanho da letra : imprimir
Análise

Para fazer a lição de casa

Relatório do Fórum Econômico Mundial sobre competitividade turística indica obstáculos da atividade no Brasil, revela surpresas e evidencia o fenômeno da multidisciplinaridade do setor

Rui José de Oliveira Crédito: Arquivo pessoal

O setor turístico conquistou recentemente uma ótima oportunidade de análise e diagnóstico para impulsionar seu desenvolvimento: o relatório The Travel & Tourism Competitiveness Report 2007. O Fórum Econômico Mundial, que desde 1979 realiza estudos sobre a competitividade entre diferentes países, voltou-se a esse segmento por compreender que é uma das atividades econômicas mais importantes no mundo, chegando a ser a principal indústria em muitas localidades.

Segundo o Fórum, as receitas relacionadas ao turismo só têm apresentado crescimento, passando de US$ 2,1 bilhões em 1950 para US$ 622,7 bilhões em 2004. O setor foi responsável por 10,3% do PIB mundial em 2006, gerando 234 milhões de vagas de trabalho ou 8,2% do total de pessoas ativas no mercado em todos os continentes. Diante desse potencial e por considerar que é um ramo que tem gerado melhorias na qualidade de vida da população, empregos e diminuição da pobreza em regiões em desenvolvimento, fez-se um ranking das condições do setor de turismo em 124 países.

Na classificação desse relatório, o Brasil aparece em 59o lugar. Antes de instituições governamentais se apressarem em tentar, de alguma forma, desqualificar o estudo por acreditarem que as evoluções conquistadas não foram consideradas, seria importante considerar quais os critérios da avaliação e aproveitar o material analisado para planejar ações de melhorias nos itens que ainda não se encontram em níveis satisfatórios.

Para o estudo, dois tipos de dados foram utilizados: fontes secundárias – representadas pelas estimativas mais apuradas de várias autoridades nacionais, agências internacionais e fontes privadas (World Trade Organization, World Health Organization, World Bank, World Travel & Tourism Coucil, International Air Transport Association, World Tourism Organization, International Telecommunication Union, International Monetary Fund, Unesco); e fontes primárias – média de respostas obtidas em cada um dos países estudados, referente ao questionário incluído na Pesquisa Executiva de Opinião do Fórum Econômico Mundial, conduzida nos primeiros meses de 2006. As questões solicitavam respostas na escala de 1 a 7, sendo que o número 1 correspondia à nota mais baixa possível e o 7 era a mais alta. Os resultados foram organizados em ordem decrescente.

A avaliação foi dividida em três categorias: estrutura regulamentar; ambiente de negócios e infra-estrutura; e recursos humanos, culturais e naturais. Destas, 13 pilares foram analisados, de acordo com 58 aspectos relacionados ao setor turístico. Vale uma avaliação mais profunda de cada item para discriminar o que é favorável ou não para a competitividade do Brasil no turismo internacional.

Políticas e regulamentos (75a posição/4,35 pontos) – dos itens avaliados neste tópico, o único que apareceu como vantagem competitiva foi a abertura para acordos bilaterais de serviços aéreos (36a). Já restrições a negócios de propriedade de estrangeiros (89a), requerimentos para obtenção de vistos (89a), regras governamentais para investimentos diretos de estrangeiros (81a) e direito de propriedade (62a) mostraram-se desfavoráveis.

Regulamentações ambientais (46a posição/4,38 pontos) – neste pilar, o país apareceu bem colocado no rigor na regulamentação ambiental (28a) e na clareza e estabilidade desses regulamentos (50a). No quesito priorização do governo para o turismo sustentável (87a), apresentou baixa competitividade.

Segurança (90a posição/3,81 pontos) – um dos itens em que o Brasil obteve sua melhor colocação foi o custo com os negócios do terrorismo (3a). Por outro lado, neste mesmo pilar estiveram duas de nossas maiores desvantagens competitivas, o custo com os negócios da criminalidade e violência (111a) e a confiabilidade dos serviços policiais (107a).

Saúde e higiene (72a posição/4,43 pontos) – todos os aspectos abordados neste quesito foram desfavoráveis para a competitividade do turismo do nosso país: esforço do governo para reduzir o risco de epidemias (95a), quantidade de médicos (74a), acesso a saneamento básico (60a) e a água potável (64a).

Priorização do setor turístico (71a posição/3,64 pontos) – apesar de o tópico referente à participação em feiras internacionais de turismo (23a) ter sido vantajoso, os outros três itens apresentaram avaliações desfavoráveis para o nosso país: priorização do setor turístico pelo governo (94a), efetividade em marketing para atrair turistas (85a) e gastos do governo em turismo (68a).

Infra-estrutura do transporte aéreo (28a posição/3,94 pontos) – surpreendentemente, o Brasil apresentou o melhor índice de competitividade turística neste item. Os quesitos disponibilidade de assentos por quilômetro (13a), quantidade de aeroportos (24a), número de companhias aéreas em operação (37a) e quantidade de partidas de aeronaves por mil habitantes (50a) foram os que mostraram dados positivos. Já os negativos foram evidenciados pela qualidade da infra-estrutura do transporte aéreo (57a) e pela rede internacional de transporte aéreo (51a).

Infra-estrutura do transporte terrestre (79a posição/2,96 pontos) – quanto ao transporte terrestre, somente o item sobre a rede de transporte doméstico (40a) mostrou-se vantajoso, enquanto os outros quatro apresentaram avaliações desfavoráveis à competitividade brasileira quanto à infra-estrutura: rodoviária (96a), portuária (88a) e ferroviária (81a).

Infra-estrutura turística (28a posição/4,36 pontos) – neste quesito, o desempenho do Brasil obteve destaque, mesmo não estando disponível o número de quartos de hotéis. Dividimos a primeira colocação com outros muitos países, considerando-se a presença das maiores empresas locadoras de automóveis (1a). No entanto, o número de máquinas de cartão de crédito Visa (61a) apresentou desvantagem competitiva.

Infra-estrutura de telecomunicações (48a posição/3,22 pontos) – apesar de a utilização da internet nos negócios (23a) ter se apresentado vantajosa, a quantidade de usuários de internet por 100 habitantes (58a) e o número de linhas telefônicas (55a) mostraram-se em posições medianas.

Competitividade em preços no setor turístico (80a posição/4,31 pontos) – o nível do preço dos combustíveis (34a) diferenciou-se positivamente do restante dos aspectos que foram desfavoráveis. Neste item apareceu o único tópico em que o Brasil obteve a última colocação, que foi em extensão e efeitos dos impostos para as empresas (124a). Outros itens desfavoráveis foram a taxação de passagens aéreas e dos aeroportos (85a) e o poder de paridade de compra (62a).

Recursos humanos (83a posição/4,85 pontos) – no primeiro tópico deste pilar – educação e treinamento – obtivemos o segundo pior item avaliado: a qualidade do sistema educacional (114a), embora os demais pontos tenham apresentado uma colocação favorável, matriculados na educação de nível médio (19a), disponibilidade de pesquisas especializadas e serviços de treinamento (32a) e nível de investimento em treinamento dos funcionários (38a). No segundo tópico – disponibilidade de trabalhadores qualificados – os dois itens apareceram como desvantagens competitivas: práticas de contratação e demissão de funcionários (111a) e facilidades na contratação de estrangeiros (74a). Já no terceiro tópico – estado de saúde dos trabalhadores – todos os itens apresentaram-se desfavoráveis para o Brasil: incidência de malária (98a), prevalência de HIV (82a), expectativa de vida da população (75a) e incidência de tuberculose (64a).

Percepção da população nacional sobre o turismo (87a posição/4,54 pontos) – dois aspectos foram favoráveis, embora as colocações fossem apenas razoáveis: atitude em relação aos turistas (40a) e recomendação de extensão da viagem de negócios (40a). Por outro lado, os gastos e receitas do turismo em porcentagem do PIB (96a) mostraram-se competitivamente em desvantagem.

Recursos naturais e culturais (42a posição/4,71 pontos) – este foi o terceiro melhor resultado favorável ao Brasil. Os itens bem avaliados pelo estudo foram o número de lugares reconhecidos como patrimônio mundial (11a) e a preocupação das empresas com o meio ambiente (42a). Os demais aspectos podem ser considerados desfavoráveis: riscos de malária e febre amarela (94a), número de áreas nacionais protegidas (64a) e danos causados pelo dióxido de carbono (52a).

É sensato dizer que o resultado do Brasil foi injusto? Talvez a expectativa fosse que o Brasil obtivesse melhores notas em recursos naturais e culturais, por causa da Floresta Amazônica, do Pantanal, das cataratas de Foz do Iguaçu, pela diversidade cultural da Bahia, pelo carnaval e pelas diversas cidades históricas mineiras. Ou, talvez, a colocação em relação à percepção da população nacional sobre o turismo também pudesse estar melhor, já que o povo brasileiro é considerado hospitaleiro e costuma se esforçar para tratar bem o turista, mesmo sem falar seu idioma.

Por outro lado, algumas colocações superaram as expectativas, como foi o caso da infra-estrutura do transporte aéreo – provavelmente mensurada antes da crise aérea pela qual estamos passando –, recursos humanos, saúde e higiene. Já o último lugar na quantidade e efeitos dos impostos, a 114a posição da qualidade do sistema educacional e a 111a colocação dos custos da criminalidade e violência não surpreenderam.

Não causa estranheza, no entanto, os países mais desenvolvidos dominarem os primeiros postos no índice de competitividade turística, uma vez que nos quesitos de maior abrangência eles superam com folga os países emergentes e em desenvolvimento.

Diante de tantas variáveis analisadas, o estudo evidencia o fenômeno da multidisciplinaridade do setor turístico, permeando aspectos abrangentes, como educação, infra-estrutura, meio ambiente e legislação, até outros mais específicos, como recursos culturais e naturais e priorização do governo no segmento.

De qualquer forma, a iniciativa do Fórum Econômico Mundial em elaborar um índice comparativo do turismo internacional será de grande importância para o setor, mesmo se tiver de passar por alguns ajustes futuros, por se tratar da primeira edição. Cabe aos órgãos que comandam o turismo brasileiro estudar com afinco esse relatório de competitividade e encarar que há muito trabalho a ser desenvolvido por todos os envolvidos no ramo, caso o Brasil queira melhorar sua posição nesse ranking.

Para saber mais: http://www.weforum.org/en/initiatives/gcp/TravelandTourismReport/index.htm

Comentários


Deixe um comentário




O comentário não representa a opinião da revista Host&Travel; a responsabilidade é do autor da mensagem